No Brasil, vivemos a tragédia ou a farsa?
Sexta-feira, 19 de junho de 2020

No Brasil, vivemos a tragédia ou a farsa?

BG: José Cruz / Agência Brasil – Imagens: Wikimedia Commons – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por  Francivan Amorim Oliveira

 

As manadas são reconhecidas por mugidos barulhentos, altissonantes e homogêneos. Somos tão facilmente cativados pela retórica de líderes messiânicos que detêm atributos encantatórios? Nossa experiência se incompatibiliza a esse postulado. Os rebanhos se aglomeram para cumprir um ideal mascarado de projeto, sonho, revolta. O anseio constitutivo dos grupos extremistas é a destruição mais pura e transparente, sem meio-termo. 

 

Em “O Rinoceronte”, Eugène Ionesco recobre de sentidos e tons dramáticos os absurdos sociais ou, se preferirem, as psicoses coletivas a que se consegue chegar. Berénger, o protagonista, fica estupefato face os habitantes de sua cidade: todos viraram rinocerontes. Elias Canetti, romancista búlgaro, compartilha do mesmo espanto, arrematado no estudo “Massa e Poder”, de 1960. Lendo-os, subjaz uma complexa pergunta: estaríamos reféns? A questão ulterior deixa de ser sobre o que nos previne (direcionada a algo externo), mas sim se temos consciência ou não dos próprios passos

 

Com a tecnologia e as notícias instantâneas, conflitos remotos ainda se perpetuam. Meras crenças juntam-se aos fatos num intrincado jogo à cata da verdade legítima. Isso só diagnostica o descompasso entre evolução científica e amadurecimento ético, paradoxo que Jean-Jacques Rousseau esmiuça a fundo naquele que seria o seu primeiro discurso, a saber, “Discurso sobre as Ciências e as Artes”. O progresso técnico varia e se aprimora secularmente; em contrapartida, os valores a rigor regressam a um passado idílico. E o que propicia tal contraste? As ordenações de poder nunca foram exercidas nessas áreas positivistas; já a sociedade educa o homem ou a mulher a confessar, a censurar, a repreender e a adequar os desejos

 

Na contramão de outras teorias, não imputo o mal secreto à “individualidade”. Nenhuma pessoa nutre medo, raiva, tristeza, ódio etc. per se. O corpo que respira, em tempo algum, foi indivisível – indivíduo. Os neoliberais preconizam, a ferro e fogo, o Ego primus inter pares ignorantes daquilo que era, gerou e sustenta a gloriosa (sic) civilização proprietária. A convivência concatena o inconsciente divisível – divíduo – e as normas não estáticas que regulam os limites ora repressivos, ora asseguradores. Assim como um balão estoura se demasiado cheio, o acúmulo de juízos erráticos e negativos – pobre-violento, negro-criminoso, bandido-bom-bandido-morto, direitos-humanos-humanos-direitos, guerra-drogas, consumo-bonança – impregna o cérebro e se deflagra. Uma figura redentora, eleita por voto, vai canalizá-lo. Creiam-me: Adolf Hitler e Benedito Mussolini se apossaram da republicana presidência democraticamente. Os vexames históricos se repetem. Friedrich Hegel escreveu que a “história repete-se sempre, pelo menos duas vezes”; Karl Marx somou: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Vivemos a tragédia ou a farsa? 

 

“A inimizade pode ser tão cordial quanto a amizade, visto que uma e outra nascem do coração, procedem da esfera do íntimo, do familiar, do privado”, garantiu Sérgio Buarque de Holanda. O âmbito das relações pessoais molda o plano público. Guardadas as críticas que o conceito recebera, ele é ontológico. Grosso modo, os brasileiros cordatos toleram e socorrem o próximo; atacando o dissemelhante – o comum que se tenta ocultar. Originam-se, secundariamente, os maniqueísmos e a necessidade de convir, enquadrar. As hipocrisias resultam senão dos disfarces aplicados para se cometer pecadilhos – “eu não preciso me justificar, o outro sim”. Insultos, agressões, malevolências, vinganças reverberam o lado sombrio dessa cordialidade

 

Os fanáticos, minoritários e aliciados, decantam o morticínio posto que, sem berrar estridentemente, o autoritarismo esmorece. Não nos restrinjamos, per contra, à dimensão particularizada de um gigantesco elefante – desprevenidos, súbito o vemos no quarto ou depositado em nós.  As riquezas e os privilégios capitaneiam a vida contemporânea. Trabalhadores não importam. Pesa o jugo do “e daí?”. A ignorância, as narrativas contraditórias, os falsos-equívocos redimensionam a sistemática totalizadora: aqui e acolá, as farsas se investiram de  fingida boa-fé porque, renegando os loucos que avistam o óbvio, a devastação cresce e dilata-se. O que os olhos não veem o coração não sente. Os títeres políticos nem sequer ostentam, como ficou dito, um programa; porém, ele existe e é cotidianamente abafado. Aliás, tornou-se hábito. O relatório do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a violência policial, o número de óbitos por COVID-19 padeceram uma censura coordenada

 

Reforço, todavia, que desconhecemos os pressupostos basilares. O capitalismo segue uma rota favorável e auspiciosa a si pisando em caminhos tortuosos. Diferente de Abraham Lincoln, creio que, a depender, certos enganos duram milênios. 

 

Albert Camus, produzindo “A Peste” e “O Estado de Sítio”, previne-nos da dupla epidemia que os governos despóticos alimentam. Décadas atrás, as doenças e a guerra; hoje, o vírus e as mentiras. O empresariado explorador, sacrificial e endêmico – que custeia protestos, arruaças, como também sites “informativos” – parasita os fenômenos tirânicos, travestidos de nacionalistas.

 

É urgente que a minoria facínora perca. Brincamos demais com os dados e a corrida avança ligeira. O Big-Data – o alucinógeno cibernético – alastra males socialmente danosos.  Se não soubermos gerenciar o efeito manada – rememorando o parágrafo inicial –, os rinocerontes se disseminarão até bater na minha e na sua porta. 

 

A todos aqueles que perderam alguém, meus mais sinceros pêsames. Cuidem-se!

 

 

Francivan Amorim Oliveira é graduando na Universidade de São Paulo.

 


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