Carta de repúdio a Sérgio de Camargo e Laércio Fidelis Dias
Terça-feira, 23 de junho de 2020

Carta de repúdio a Sérgio de Camargo e Laércio Fidelis Dias

Imagens: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Simony dos Anjos

 

Vocês que lêem esta coluna, sabem que tenho o costume de ceder este espaço para movimentos sociais que queiram se manifestar publicamente. Hoje, cedo este espaço para alunes do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP que reunidos em Assembleia redigiram uma carta de repúdio ao desmonte que Sérgio de Camargo e Laércio Fidelis Dias têm feito na estrutura da Fundação Cultural Palmares. Com a Palavra antropologues em formação do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP: 

 

 

Carta de repúdio a Sérgio de Camargo e Laércio Fidelis Dias

Sérgio de Camargo e Laércio Fidelis Dias vem repetidamente dando declarações e tomando decisões contrárias a missão institucional da Fundação Cultural Palmares, instituição para a qual trabalham e deveriam zelar. Ambos atacam e desprestigiam a agenda do movimento negro em vez de corroborar sua implementação, e não estimulam o enfrentamento ao racismo institucional e estrutural.

 

Desde o início do ano, Sérgio Camargo acumula episódios inaceitáveis de ataque à luta antirracista: perseguiu e demitiu funcionários da fundação que se opunham a sua visão de extrema direita, sugeriu a extinção do Dia da Consciência Negra, se referiu ao movimento negro como escória maldita e, mais recentemente, deu parecer favorável à passagem de uma linha de transmissão elétrica por quatro terras quilombolas no Pará sem consultar previamente as comunidades, além de se referir à ialorixá Mãe Baiana em termos pejorativos, alegando que “macumbeiro não vai ter um centavo.”

 

Em julho de 2019, o atual diretor do Departamento de  Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro, Laércio Fidelis Dias, deu uma entrevista à Folha de São Paulo classificando estudos sobre raça, classe e gênero como uma “trindade maldita”. Dias é professor da Universidade de Estado de São Paulo e se formou Antropólogo no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP. Nós, como antropólogues em formação pelo mesmo programa, repudiamos tais declarações, e reafirmamos nosso compromisso de respeito à diversidade da população brasileira em nossos estudos, atuação pública e profissional.

 

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Discordamos que os estudos sobre questões raciais na Antropologia brasileira sejam conduzidos de maneira indevida, e que políticas públicas surgidas por contribuição de nossas pesquisas sejam reducionistas e desnecessárias, como afirmou Dias se referindo  às cotas raciais. Medidas de reparação histórica ao povo negro brasileiro são urgentes e devem ser pautadas por todas as áreas do conhecimento, bem como urge aprendermos com epistemes indígenas, quilombolas e dos povos de terreiro. Nos orgulhamos de fazer parte de uma geração que lê mulheres e homens negros e indígenas e escuta com atenção  vozes até então apagadas pelo eurocentrismo tão assentado na academia paulista.

 

Reiteramos nosso integral respeito às populações originárias brasileiras e seus saberes ancestrais, prezamos pela defesa de suas expressões intelectuais e culturais, e nos comprometemos a não reproduzir condutas racistas em nossas pesquisas.

 

Destacamos, ainda, a importância e o papel eminentemente democrático da Fundação Palmares, desde sua fundação em 1988, o qual  está sendo distorcido pela atuação da atual gestão, com ataques às comunidades que a Fundação deveria atender: a população negra, as comunidades quilombolas e os povos tradicionais de terreiro.

 

Solicitamos que ambos se retratem e cessem os ataques a comunidade negra brasileira, uma vez que os cargos que ocupam pressupõe a valorização dos estudos raciais e a defesa de políticas capazes de avançar a defesa do patrimônio afro-brasileiro. Indivíduos e seus valores não devem se sobrepor ao cargo que ocupam, com o risco de levarem, nesse caso, ao desmonte paulatino da instituição, processo que repudiamos contundentemente.

 

Aproveitamos o ensejo, para declarar o nosso repúdio à Portaria N.º 545 publicada, hoje,  em D.O.U, que revoga a Portaria Normativa do Ministério da Educação(MEC) N.º 13 que dispõe sobre a indução de Ações Afirmativas nos Programas de Pós-graduação dos Institutos Federais de Ensino Superior. 

 

Frente a isso, vemos que o MEC por meio do então Ministro Abraham Weintraub tem tomado medidas que causam o desmonte de políticas públicas de reparação histórica para as populações negras. Em um país que tem uma dívida de mais 300 anos de escravização de pessoas negras e indígenas, tanto  esta revogação quanto o desmonte da Fundação Cultural Palmares são parte de um mesmo projeto de perpetuação do racismo estrutural, em nossa sociedade. 

 

Assinam esta carta alunes do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo reunidos em assembleia no dia 18 de junho de 2020. 

 

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestre em Educação (USP), Doutoranda em Antropologia (USP) e tem estudado a relação entre Negritude, Feminismo e igrejas evangélicas


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