Onde há tentativas de privatização do mundo, existem tentativas para sua libertação
Quarta-feira, 24 de junho de 2020

Onde há tentativas de privatização do mundo, existem tentativas para sua libertação

Imagem: Fotos Públicas – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Maiara de Proença Bernardino

 

Nas cidades brasileiras, através dos espaços diferenciais, a classe popular traça seus movimentos contra as intencionalidades do governo fascista de subalternizá-las.

 

 

Entendemos por organização das classes populares, as formas pelas quais os movimentos de moradores subalternizados das cidades se organizam para garantir a sobrevivência em um mundo que se torna cada vez mais privado, portanto, opressivo e repressivo. 

 

Os espaços privados no Brasil, em vários momentos do processo histórico de formação do país, foram e são uma realidade para as diferentes classes sociais que aqui viveram ou vivem. As elites detentoras dos maiores poderes de influência nos territórios, planejavam, e, ainda planejam, os espaços segundo suas intenções e vontades. 

 

Espaços planejados segundo a concepção da burguesia, implicam na introjeção da ordem burguesa nos espaços. Um dos casos mais famosos da projeção da política das elites nos espaços, é a Paris do Barão Haussmann, que no século remodelou essa cidade, expulsando as classes populares para as periferias. A finalidade do barão era censurar as práticas de resistência dos franceses naquela época, tornando os espaços ordenados e alinhados segundo a racionalidade e concepções dos burgueses. 

 

Tais políticas dos espaços ordenados, marcaram as concepções de modernidade e progresso para alguns (elites) na época. Por volta do final do século XIX, e ao longo do século XX, no Brasil, quando ocorrem as tentativas de implantação dos processos de industrialização nas cidades ainda rurais e coloniais, essas políticas dos espaços de Haussmann, servem de inspiração aos administradores das cidades brasileiras.

 

Assim, o duplo processo industrialização-urbanização, como elaborou Lefebvre [1], começa a entrar nos territórios brasileiros. Representantes das opiniões das elites, os jornais burgueses passam a cobrar “melhoramentos” urbanos nas cidades, por eles consideradas, atrasadas devido conterem traços culturais caipiras, indígenas e afro-brasileiros. Pouco há pouco, ao longo do século XX as cidades e as sociedades brasileiras foram sendo atingidas por esse duplo processo. 

 

Com grande intensidade, o tempo das indústrias estrangeiras eram colocados sobre os espaços e os corpos das populações. Porém, como podemos observar nas fotografias do passado brasileiro, a velocidade da industrialização nunca se mostrou hegemônica nos espaços. Onde havia bondes elétricos, existiam carros de bois, onde existem os homens velozes, estão os “homens lentos”, segundo o professor Milton Santos.

 

Atualmente no mundo globalizado, conforme as recentes teorias da geografia nova brasileira e latina, o espaço em que a sociedade edifica suas relações sociais passa por uma maior aceleração do tempo. Desta forma, os fluxos da sociedade que se sucedem nos espaços estão acelerados, devido à frenética tecnificação e artificialização do tempo-espaço. Porém, essa tentativa de tornar acelerado (hegemônico) o cotidiano de cada sujeito nos territórios, se mostra falha através das possibilidades expressas pelas ações desses sujeitos nos espaços, pois há produção dos “espaços das diferenças”.

 

Assim, onde há tentativas para privatização do mundo, existem tentativas para a libertação do mundo. Mesmo que as grandes centralidades das cidades concentrem espaços reservados às elites, existem outras centralidades produzidas nos espaços pelas classes populares.

 

Um dos maiores exemplos das outras centralidades, que estamos tendo no momento, nesse contexto de pandemia, é a reunião das diferentes pessoas em vários pontos do território brasileiro e no ciberespaço. Reuniões de pessoas pautadas na organização e estratégias ligadas ao combate do COVID-19 e no combate ao fascismo na periferia do capital. 

 

O Instituto Marielle Franco, o Favela em Pauta e o Twitter [2] procuraram dar visibilidade para essas ações periféricas no combate ao coronavírus, através de um mapa em suas páginas, que reúne dados e informações a respeito das organizações populares nas cidades brasileiras.

 

Também se tem podido notar na efervescência das manifestações antifascismo, essa tendência natural do ser humano em subverter qualquer controle político que tente acorrentar expressões da corporalidade humana nos espaços. Tal enraizamento promovido por uma parcela pequena da sociedade, aparece latente em momentos como esse, a fim de manter as desigualdades sociais, sustentáculos do poderio dessa pequena parcela. 

 

O controle social através das políticas do ordenamento dos espaços em nome da homogeneização da sociedade, melhor se tem podido ser notado, devido ao despertar das populações para a existência de um passado escravista e patriarcal expresso na atmosfera de um mundo que se dizia desenvolvido. Estaríamos diante um despertar de consciência da sociedade em nome do rompimento com as estruturas de opressão e subalternização de sujeitos não homens e não brancos?

 

Tal resposta não parece simples e um texto não poderia respondê-la, deixemos que as respostas se expressem nos espaços públicos das cidades pelos movimentos populares, direcionados na contramão da repressão e aprisionamento dos corpos e das ideias. O fato é que tentativas de homogeneização dos usos dos espaços e das ações dos sujeitos, felizmente e historicamente tornam-se falhas à medida em que as sociedades despertam sua consciência, materializando rupturas com a ordem imposta produzindo os espaços das diferenças.

 

Maiara de Proença Bernardino é graduanda em Geografia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atualmente é pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), relacionada aos temas da área de Geografia Humana.


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Referências

[1] LEFEBVRE, Henri. Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

[2] Instituto Marielle Franco: https://www.institutomariellefranco.org/

Favela em Pauta: https://favelaempauta.com/

Quarta-feira, 24 de junho de 2020
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