Como utilizam a falácia retórica “sinédoque” para ganhar um argumento
Quinta-feira, 25 de junho de 2020

Como utilizam a falácia retórica “sinédoque” para ganhar um argumento

Imagem: Tomaz Silva / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Plínio Vieira

 

Sinédoque é figura de linguagem na qual parte de algo é tomado como o todo. Há uma relação de continência e conteúdo, há parte de alguma coisa que se relaciona com algo maior. Os exercícios retóricos a partir da sinédoque são usados como recurso de generalização de um suposto conhecimento particular a ser comunicado. 

 

São exemplos de uso de sinédoque: o homem é mau (alguns homens são maus, não todos); o cidadão de bem (sensos humanos são ora bons, ora maus. Podem até ser mais bons do que maus, mas não há como garantir que alguém seja, em todo lugar e em todo tempo, bom ou mau); o brasileiro é alegre (alguns brasileiros são alegres, talvez até a maioria, mas fala-se da alegria como se fosse totalidade); a Lava Jato combate a corrupção (a Lava Jato combate uma espécie de corrupção, cometida por um grupo concreto, selecionado de um todo complexo); você está contra o Brasil (você está contra algo ou alguém que se diz a favor do Brasil, não contra o país inteiro, pois também é parte dele).

 

Veja-se, a sinédoque auxilia na construção de símbolos retóricos gerais, que de fato são mais restritos do que o locutor/interlocutor tenta dispor. Saber sobre a sinédoque é conhecimento importante para desvelar falácias retóricas. O saber vindo de sinédoque é formado por preconceitos e tentativas de popularizar rótulos, antes mesmo de qualquer investigação concreta que confirme ou negue tais hipóteses particulares. Essas hipóteses são escamoteadas, para que pareçam ser teses gerais. Faz-se um salto retórico de conjecturas, para figurá-las como se fossem conclusões.

 

Um remédio para a sinédoque consiste usar generalizações e restrições de lógica, com as palavras todo(s)/nenhum, algum ou alguns, e parte de(o,a), para verificar a validade do que o locutor/interlocutor propõe, conforme o que é provável e o que é improvável. Seguem exercícios para verificação. Todos os homens são maus (improvável, pois não é possível reunir todos os homens do mundo e demonstrar essa qualidade em todos) v. Algum homem é bom (provável, pois posso conhecer e demonstrar algum homem bom). Todos os brasileiros são alegres (improvável) v. Algum brasileiro não é alegre (provável). Você está contra todos os brasileiros/todo o Brasil (improvável, pois seria contraditório um brasileiro estar contra si, ou contra todas as opiniões de um país, inclusive a própria. Somente um elemento estranho ao Brasil poderia estar contra “o Brasil” e isso se daria por uma guerra estrangeira, não por política interna. No caso, é do discurso da guerra simbolizar uma oposição interna como se fosse ameaça similar a uma estrangeira, de guerra. Provavelmente por isso líderes autoritários pensem, com muita pobreza de juízo sobre partes e o todo, em usar exércitos e polícias armadas contra manifestantes desarmados) v. Você está contra alguns brasileiros/parte do Brasil (provável, pois há brasileiros com interpretações e opiniões diferentes, que podem ou não ser antilógicas, contraditórias. É possível estar contra parte das opiniões em um país, mesmo que se divirja de todas as demais que não seja a própria – diverge-se da maior parte e se é a menor parte). Mesmo com tais exercícios, ainda haverá aqueles que acreditarão que certas generalidades preconceituosas são verdadeiras. Esta atitude é marcada por quem faz de seus preconceitos um tipo de crença não necessariamente religiosa, mas postos costumes e/ou vontades no posto soberano, posição inatacável. Tais costumes e vontades preconcebidas são impassíveis de crítica e não são afetados por algo científico, nos argumentos que possam e devam ser criticados, para que tenham coerência e se aperfeiçoem. É mais fácil e pragmático figurar uma realidade construída por conceitos particulares generalizados, simples e aparentemente seguros, do que confrontar mobilidades e oposições de outras partes no processo popular. É mais fácil ter prejuízos prontos para serem usados, para se chegar às mesmas respostas, do que fazer investigações e se verificar que é verdadeira uma resposta que não agrada aos costumes e vontades daqueles que se aplicam em prejulgamentos. Mais uma vez: a sinédoque é um recurso do tipo quid pro quo (tomar uma coisa pela outra), termo aqui mais conhecido como quiprocó. É um atalho, um corte de passos que leva de uma proposição, hipótese real ou imaginária, direto à conclusão, sem passar pelo caminho da investigação fática e sem demonstrar tal caminho concreto. A magia da sinédoque está na capacidade de transfigurar, de uma coisa para a outra, algo que “pode ser” em “aquilo que é com certeza”.

 

Quando o locutor/interlocutor nota que a sinédoque não satisfaz, não persuade, exige-se profundidade nos argumentos. Disso, surgem os argumentos retóricos fundados na matriz da quantidade, da maioria e da minoria, do mais e do menos. Com esses recursos, aquilo que tenta se comprovar se expõe por uma suposta maioria (argumento forte, há frequência de acontecimentos notáveis). E o que se deseja refutar, é posto como uma minoria (argumento fraco, são raros os acontecimentos notáveis). Logo, as proposições estão num campo de disputa do que se verifica ou não, com mais ou menos frequência, e como este tipo de conhecimento ajudará na realidade esperada, ajudará em uma futurologia. E é possível formular conhecimento verdadeiro, seja por estatísticas de fontes diversas, seja por fatos notórios, reiterados, que vêm a público.

 

A retórica não é saber normativo, do tipo “dever ser”, mas daquilo que ocorre, e daquilo que se interpreta, qualitativamente, como “ser”. Como é deste modo, pode ser o caso de alguns argumentarem que há uma maioria, enquanto que outros argumentam que se trata de uma minoria. O remédio neste tipo de caso é uma verificação externa, real da coisa. Cite-se como exemplo as manifestações contra Temer. O interino, mais de uma vez, usou do argumento da minoria, para buscar reduzir a oposição que estava nas ruas. Mas de fato eram vistas manifestações massivas, uma maioria. Por outro exercício com o mais e o menos, pode-se dizer que, embora não seja provável dizer que toda a polícia do estado do Rio de Janeiro seja assassina de inocentes, inclusive de crianças (pois seria sinédoque e injustiça com diversos policiais individuais que fazem bons trabalhos), é provável que, com um método fundado mais em confronto e menos em informação, alguma criança será morta num futuro próximo, e que tal fato se dará em alguma comunidade, para onde se faz escolha política de confronto.

 

Outros exemplos de sinédoque: quando em uma manifestação de rua há confusões pontuais, mas se ataca a massa inteira do movimento social. Por analogias que evidenciam mais claramente a falta de rigor do método de generalização: houve uma briga em um show, todos ali seriam briguentos e o show precisaria acabar; houve um furto no supermercado, todo mundo seria preso para averiguação. Ora, é necessária a consciência das partes de um todo e, em seguida, das proporções das partes no todo, conforme aquilo que for possível demonstrar, provar. Daí, sim, é possível partir para propostas de regulagem: o que aumentar e o que reduzir (alterar); ou mesmo que parte somar ou destacar, de modo perene, da essência da coisa (acrescentar ou extinguir). Por isso também o conhecimento sobre a sinédoque traz noção de quando uma parte é ou não passível de concessão pelo todo. Quando é ou não parte possível de surgir perenemente associada ou dissociada a um todo. Isto, conforme o todo, mais do que por mera hipocrisia discursiva, aceita ou refuta intransigentemente tal parte como integrante dele mesmo. Último exercício para se pensar a sinédoque: afinal, é ou não o governo atual composto por parte golpista? Em que proporção? É capaz de expurgar tal parte golpista, definitivamente, ele mesmo? Ou a assume como parte inseparável de si, aceitas tais ideias pelas demais partes do todo? 

 

Em suma, o juízo de maioria e de minoria, do mais e do menos, cabe à interpretação do locutor/interlocutor, e cabe ao ouvinte concordar ou refutar, com base na realidade que puder demonstrar e nos argumentos que for capaz de construir e provar. A aposta do texto é que o leitor possa entender como funciona a formação discursiva popular de gêneros preconceituosos, a partir de situações particulares, com uso de sinédoque. Tais gêneros são figurações, conhecimento aparente, que são hipóteses pretendidas como teses. Notar isso permitirá ao leitor compreender reais, ou ao menos razoavelmente estimadas, dimensões das partes do objeto que analisa – relação de verificação da parte como o seu todo. E, assim, quando é possível ou não falar em maioria ou minoria, quando se pode ou não provar que aquilo que se propõe pode ser tido como conhecimento provavelmente abrangente e verificável por qualquer um. Fazê-lo por fatos e feitos, não por mera dissertação imaginativa.

 

 

Plínio Vieira é mestre em Filosofia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS – UFRJ; Graduado em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito – UFRJ, título cum laude; Graduado em Comunicação Social, jornalismo, pela UNESA – Niterói.

 


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