“A sua vergonha é o nosso orgulho”
Quarta-feira, 1 de julho de 2020

“A sua vergonha é o nosso orgulho”

Imagem: Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Tiago Duque

 

A busca por direitos, legítima e necessária, enreda-se comumente por caminhos tortuosos e estreitos que podem fazer o seu poder transformador perder a sua força. Aquilo que pode parecer bastante “controverso”, “anormal”, “crime” em um dado momento histórico, pela luta em busca de reconhecimento, logo depois encontra-se como absolutamente “consensual”, “normal” e “legalizado”. Isso, em nada quer dizer conquista definitiva daquilo que realmente se buscava. Conforme nos ensina Virginie Despentes ao pensar sobre as mulheres, e me parece aplicável para outras experiências subalternas, “compreender os mecanismos da nossa inferiorização e as maneiras através das quais nós temos nos convertido em nossos maiores vigias é compreender os mecanismos de controle de toda a população” (2016, p. 24).

 

A luta por direitos em torno da chamada “diversidade sexual” pode ser um exemplo dessas movimentações que vão perdendo parte da sua força conforme se vai avançando nas conquistas e, cada vez mais, autovigiando-se. Isso porque as ciladas da assimilação são sedutoras diante das exigências e perigos apresentados àquelas pessoas que, porque são vulneráveis, tentam conquistar seus direitos negados. Afinal, ainda que as leis e demais normas institucionais sejam valiosas, pelo impacto positivo e simbólico que produzem, “são absolutamente insuficientes para acabar com os preconceitos gerados pelas diferenças sexuais e de gêneros. E os preconceitos, tanto do Estado como da sociedade em geral, podem inclusive voltar a crescer mesmo depois das leis pró-LGBT” (COLLING, 2015, p. 119).

 

Lembro-me das discussões potentes realizadas em encontros temáticos dominicais no Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual, há pouco mais de dez anos. Organizávamos, em Campinas (SP), uma das “paradas” em comemoração ao “orgulho” de ser lésbica, gay, bissexuais, travesti ou transexual, mas incomodávamos com a ideia de nos orgulharmos da nossa sexualidade e gênero. Esse incomodo não era com o desejo ou com a identidade, mas com o que ele e ela poderiam tornar-se, especialmente quando tentativas de se tornar iguais aos “Outros” eram postas em prática na busca por reconhecimento. Então, porque não valorizar o que dizem que nos diferencia identitariamente e não tentar orgulhosamente defender uma suposta igualdade/semelhança?

 

Essa nossa postura militante do Grupo Identidade corrobora o que mais tarde li em “Problemas de gênero”, de Judith Butler: “a desconstrução da identidade não é a destruição da política; ao invés disso, ela estabelece como políticos os próprios termos pelos quais a identidade é articulada” (2003, p. 213). Ora, porque a celebração tinha que ter o foco em uma espécie de sentimento interno individualizado (orgulho), ainda que em um movimento coletivo, com um forte valor no mérito pessoal que apela pela igualdade/semelhança? A positividade da visibilidade não poderia lançar olhares para um “Outro” e não exclusivamente para um “eu”? Mesmo porque, como lembra a transfeminista Helena Vieira, “a história dos corpos que desviam e escapam sempre caminhou como sustentáculos da opressão dos corpos que estavam na luz. Isso é muito importante de se ter em mente” (2018, p. 366).

 

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O orgulho, também entendido como honra, parecia-nos conservador por não problematizar a produção do estigma, mas, pelo contrário, buscar negá-lo. O estigma é mais potente para denunciar as normas e convenções que nos ameaçam, que deslegitimam os nossos direitos e nossas próprias vidas, do que o sentimento, muitas vezes higienizador, do “orgulhe-se porque não tem nada de errado com você”. E qual o problema da errância diante da norma hegemônica que nega as diferenças? O efeito da vergonha na vida de pessoas tidas como subalternas envolve desigualdades silenciadas, desinteresse, isolamento e, muitas vezes, a falta de acessos públicos. Por isso, Michel Warner (1999) aponta que o seu efeito, enquanto política, é a dominação heterossexual. Sendo assim, vamos torcer essa política da vergonha para acabar com os efeitos dessa dominação. Não se trata de substituir uma dominação por outra, mas pensarmos em como a diferença pode e deve tornar o espaço da equidade, da luta por justiça social e novas moralidades. 

 

A produção das diferenças, no que se refere a “diversidade sexual”, passa pelo estigma, e, negando a vergonha, pode encontrar um lugar confortável no orgulho, sem mais se incomodar com o que segue sendo elencado como perigoso, pecaminoso, ameaçador, desapropriado, imoral, escandaloso e/ou passível de não ser enlutado. Foi então que chegamos a uma frase para o cartaz do evento que organizávamos que ainda segue urgente: “A sua vergonha é o nosso orgulho”.  O que queríamos estampar na rua, durante a nossa marcha por mais direitos, era o quanto a vergonha que pudéssemos gerar nos preconceituosos parecia ser a seta para o caminho de uma maior transformação. 

 

Assim, hoje, ainda tão imersos nesse clima de “homens de bens”, “patriotas não arrependidos”, “soldados presidenciais”, “falsos profetas”, “mitos irresponsáveis”, “respeitáveis brasileiros” precisamos comemorar a vergonha que ainda somos capazes de produzir, porque falta muito para que possamos envolver todo o mundo em novos projetos de vida, novos mundos possíveis, outros direitos que não somente esses que os heterossexuais já têm e nos faltam. Lidar com o estigma, e não se envergonhar dele, pode ser um caminho interessante, ainda que o símbolo do estigma não seja tão consciente, nem tão manipulável (MISSE, 1981). Mas, se formos juntos, esse desafio torna-se menor, pois deixa de ser um projeto particular. 

 

Penso que, mais do que somente comemorar os poucos direitos, deveríamos celebrar a vergonha dos que nos ameaçam. Enquanto existir, a partir da “diversidade sexual”, a possibilidade de provocar, pelo estigma, os valores conservadores, autoritários e assimilacionisas de “tudo isso que tá aí” haverá o que celebrar. Isso é sinal que estamos resistindo e, ao mesmo tempo, ainda temos que caminhar, não para sermos aceitos, mas para ampliarmos os direitos já conquistados para direitos mais criativos e ainda a serem sonhados. Quem sabe assim marchemos em busca de nos tornar uma sociedade mais diversamente justa, plural e democrática? 

 

 

Tiago Duque é professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul


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Referências Bibliográficas

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

COLLING, Leandro. Que os outros sejam o normal. Tensões entre movimento LGBT e ativismo queer. Salvador: EDUFBA, 2015.

DESLANDES, Virginie. Teoria King Kong. São Paulo: n-1 edições, 2016.

MISSE, Michel. O estigma do passivo sexual. Um símbolo do estigma no discurso cotidiano. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.   

VIEIRA, Helena. “O transfeminismo como resultado histórico das trajetórias feministas”. In: HOLANDA, Heloisa Buarque. Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade. 2ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 351-367

WARNER, Michael. The trouble with normal. Sex, politics and the ethics of queer life. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data, 1999

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