Desabafo de um refugiado
Segunda-feira, 6 de julho de 2020

Desabafo de um refugiado

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Abdulbaset Jarour

 

Meu nome é Refugiado,

 

Para algumas pessoas a palavra “refúgio” significa “fugir do perigo” ou de “conceder amparo a uma pessoa refugiada”, esses significados estão corretos, mas, estar refugiado é muito mais do que isso. 

 

A palavra “refúgio”, para nós, que deixamos nossa pátria, terra, cultura, familiares e amigos é algo muito mais profundo e doloroso porque a palavra “refugiado” vem carregada de sentidos, como renúncia, esperança, medo e saudade.

 

Ser refugiado significa acessar a memória e encontrar muitos sonhos desfeitos e soterrados por uma avalanche de tristezas, de inconformidade e de dor.

 

Nosso instinto de sobrevivência nos obriga a sermos fortes, mas isso não significa que a dor não exista e isso acontece comigo e com todos os irmãos refugiados. 

 

Precisamos sufocar nossa dor em nome da resistência e da nossa sobrevivência.

 

Pensamos naqueles que amamos, pensamos naqueles que se foram e naqueles que deixamos para trás e, desta dor buscamos tirar  a força necessária para continuar lutando e quem sabe um dia, conseguirmos fazer a diferença na vida daqueles que estão a salvo, na condição de refugiados, mas que precisam de compreensão, solidariedade e amparo. 

 

E é por eles que tenho lutado, que é o que posso fazer no momento: ser uma voz para aqueles que não têm voz, erguer a bandeira do refúgio, ajudando a levar a relevância do tema aonde quer que eu vá. 

 

Aqui no Brasil enxerguei uma das suas belezas que é a diversidade, como se  o mundo residisse aqui. 

 

Muitas Nações, Etnias e Crenças Religiosas.

 

A terra é indígena, africana, asiática e europeia e os brasileiros são feitos dessa mistura de etnia. 

 

Atualmente, milhares de pessoas tiveram que deixar os próprios países por serem vítimas de guerras ou perseguições injustas, em busca de recomeçar suas vidas no Brasil e nem sempre tem a noção que enfrentarão diversas dificuldades tais como: o desafio de se comunicar devido ao fato de não conhecer idioma falado, não encontrar emprego, não ter moradia e ter grandes dificuldades de acesso aos serviços básicos tais como educação, moradia,e saúde e em especial a documentação necessária para conquistar tudo isso.

 

Além de todo esse sofrimento, agora vivemos um momento de pandemia onde essas pessoas se tornam muito mais vulneráveis e o seu sofrimento é ainda maior.

 

Até quando vão tirar vantagens de pessoas que são vulneráveis? Será que não existe uma forma de melhorarmos?

 

Estamos no tempo certo para que o ser humano pare de ser maldoso e seja mais humano.

 

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Até mesmo na pandemia tem pessoas que se aproveitam do momento de fragilidade dos outros. Será mesmo que isso não tem jeito?

 

Estamos na era do relacionamento, onde temos a tecnologia a nosso favor para fazer do mundo um lugar melhor, mas infelizmente o homem tem utilizado essa tecnologia para desenvolver novas armas e estimular novas guerras ao invés de investir na educação e acabar com a desigualdades sociais.

 

Durante a pandemia percebemos que grandes potências mundiais, que são primeiros em tecnologia e armamento mostraram seus sistemas de saúde fragilizados e com milhares de pessoas morrendo por falta de condições adequadas.

 

Pior que isso,  vimos os políticos e governantes ignorando a pandemia e dando ênfase e demonstrando preocupação com a economia do país e não dando a importância necessária às pessoas.

 

Nunca conseguiremos mudar o mundo se continuarmos a permitir que alguns políticos despreparados estejam à frente das principais decisões que envolvem as questões sociais e humanas.

 

Algumas pessoas carregam em seus discursos o ódio, o preconceito e a discriminação e isso nós não podemos deixar acontecer. Vamos nos unir, nos mobilizar e mudar o mundo exigindo equidade, igualdade e respeito pelas crenças religiosas e diversidade.

 

A vida é feita de lutas, nós deveríamos lutar em todos os sentidos e trabalhar para conquistarmos nossas coisas dignamente.

 

A realidade é que ficamos com a sensação de insegurança, medo e de preocupações básicas como não saber se teremos comida no dia seguinte.

 

A vida é como um jogo de xadrez para “eles” e nesse jogo, nós a população somos os peões e, eles são os estrategistas, são aqueles que montam as estratégias para alcançar o objetivo.

 

Estratégias essas que sacrificam os peões a qualquer custo para alcançar os objetivos criados por eles, sejam nas guerras e em todos os sentidos eles sacrificam os peões que por medo não reagem e aceitam o que lhes é imposto.

 

Criam políticas para a população se dividir e desse modo fica mais fácil controlar a massa. O maior medo deles é que o povo se una e fique contra eles assim eles perderiam o poder e a força.

 

Óbvio que nós somos diferentes em vários aspectos, porém temos o direito de nos expressar graças a democracia.

 

Para que a democracia exista temos que lutar para mostrar que existimos, que temos direitos como cidadãos.

 

Existimos quando nos unimos, quando lutamos pela mesma causa.

 

Consigo relatar tudo que falei até agora com apenas um acontecimento no qual dois  médicos franceses disseram: “Vamos para África testar as vacinas que estamos manipulando”, nessa declaração fica óbvio que eles estão comparando os africanos com ratos de laboratórios, como se os africanos não tivessem valor, como se a vida deles tivesse menor valor do que a vida das demais pessoas do mundo.

 

No passado invadiram a África, mataram e escravizaram seu povo, roubaram as suas riquezas e hoje falam da importante e respeito aos  Direitos Humanos…

 

As pessoas que foram escravizadas até hoje não se livraram da maldade e do preconceito de de quem os escravizou, como vemos com o que aconteceu em USA com a morte de Jorge Floyd, o garoto João Pedro e outros e outros e outros que morrem todos os dias anonimamente.

 

Esse é o mundo real e é assim que somos tratados. Precisamos de empatia, solidariedade e mais tolerância.

 

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De qualquer modo todos nós já sofríamos e iremos sofrer. Sofríamos antes da pandemia, agora com a pandemia e o período pós pandemia.

 

Agora com o COVID-19 estamos todos no mesmo barco. Isso nos coloca no mesmo patamar, não importa quem você seja ou o que faça, todos nós podemos ser infectados e isso demonstra que estamos todos suscetíveis ao vírus. 

 

No começo da pandemia muitas pessoas não estavam respeitando o isolamento social e nem procurando se proteger contra esse vírus.

 

E eu, que lutei tanto para trazer a minha mãe e tirá-la da guerra maliciosa da Síria e ela estava confinada, se cuidando, mas infelizmente acabou sendo infectada por esse vírus e por estar em condições de saúde fragilizada acabou tendo seu estado agravado, ficando vários dias na UTI e por fim, acabou falecendo.

 

“Consegui salvá-la guerra, mas a morte nos perseguiu até aqui no Brasil. Minha mãe escolheu a Síria para nascer e viver e o Brasil para viver eternamente”. 

 

Não temos poder sobre a morte e assim foi que Deus quis que acontecesse e aconteceu!

 

Expresso aqui o meu sentimento à todos que faleceram e aos familiares que perderam seus entes queridos vitimados por essa doença.

 

A origem desse vírus é duvidosa. Há especulações de que ele foi criado pelo ser humano para alcançar um objetivo que ninguém consegue descobrir e entender, e gerou uma grande confusão em todos os setores de nossa vida, onde surgiram discursos de políticos condenando alguns posicionamentos de esquerda ou direita, cientistas ficaram confusos durante as suas pesquisas e estudos para criar uma vacina para combater o COVID-19.

 

Quem sabe, o COVID 19 tenha chegado realmente para “castigar” a humanidade, em especial aquelas pessoas gananciosas que usam a vida dos outros para alcançarem seus objetivos, para eles a vida do outro não tem valor, eles passam por cima de tudo e de todos. 

 

Volto a falar que o COVID-19 nos colocou no mesmo barco, pois estamos todos suscetíveis a ele, pois atingiu todas as camadas da população: pobres, ricos, crianças, jovens e idosos, artistas e políticos.

 

Somos humanos, somos frágeis.

 

No final das contas, questiono os meus leitores:

 

E aí, depois dessa pandemia, será que iremos mudar? Será que vamos parar de produzir outros vírus que são: fome, a desigualdade social, as guerras. perseguições e preconceitos? Isso tudo mata muito mais do que a pandemia.

 

Vamos dar valor uns aos outros quando nos encontrarmos? Daremos valor a nossa família, amigos, as festas, na beleza que a vida é, na natureza?

 

O isolamento deveria nos ensinar a valorizar o ser humano, a valorizar a Terra a nos valorizar.

 

O dinheiro se ganha, e se perde com facilidade, mas temos apenas uma vida para ser vivida.

 

Vamos cumprir a nossa missão na Terra que é tornar um lugar melhor e nos tornarmos seres melhores, para que assim o mundo fique melhor para as próximas gerações

 

E digo em voz alta:

 

VIVA A HUMANIDADE, VIVA A UNIÃO E VIVA A LUTA PELO AMOR AO PRÓXIMO.

 

Todos nós somos filhos da mesma Terra, viva a Humanidade.

 

 

Abdulbaset Jarour tem 30 anos e está há 06 anos no Brasil. É Árabe de Aleppo – Síria, Ativista pela Causa Migratória e Vice-Presidente da ONG África do Coração


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