Pequeno perfil de um bolsista comum
Quarta-feira, 8 de julho de 2020

Pequeno perfil de um bolsista comum

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

 

Por Igor Carlos Feitosa Alencar

 

Com a pandemia do novo coronavírus e a necessidade de isolamento social (por mais que relativizada e até negada por vozes que ecoavam do Planalto) um dos aspectos que mais causaram preocupação na população além da garantia de sua saúde, estava no sustento diante da impossibilidade de se exercer diversas atividades econômicas que provocavam ou dependiam de aglomerações.

 

 

Assim, após uma série de resistências, novamente provindas do Planalto, é aprovado no Congresso Nacional e sancionada a Lei nº 13.982, de 2 de abril de 2020 regulamentando o chamado “Auxílio Emergencial” que minimamente garantiria uma ajuda financeira inicialmente por três meses com valores de R$ 600,00 e R$ 1.200 para famílias de baixa-renda e/ou desempregados. 

 

Para além das discussões da importância do auxílio e das dificuldades e problemas enfrentados no cadastro para o benefício (a necessidade do aparelho celular, do acesso à internet, as filas nas agências da Caixa Econômica Federal, etc.) uma classe, por outro lado, se viu numa discussão paralela: os bolsistas de pós-graduação (mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos) discutiam – principalmente nas redes sociais – se efetivamente seria moral e ético solicitarem o benefício.

 

Como é sabido, as bolsas fornecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) além de não serem reajustadas desde 2013¹ sofreram inúmeros cortes desde o início do governo Bolsonaro². Mas esse não é o foco desse texto, nosso objetivo aqui é refletir sobre como mesmo após a Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) garantir o direito dos estudantes de receberem o auxílio³, partindo do óbvio de que bolsa não é renda, o debate continuava num nível da moralidade pautada numa suposta realidade que parecia não permear a cabeça de muitos: desde quando a bolsa (leia-se salário sem nenhuma garantia trabalhista), principalmente de mestrado, garante o sustento saudável do pesquisador e da sua pesquisa?

 

Provocado por esse debate, ilustrei, quase numa fábula, qual é o nosso perfil de estudante de pós-graduação no Brasil.

 

No mundo ideal pictoricamente pintado na alegoria da vida tudo segue naturalmente o seu curso: nascemos, crescemos, somos educados, vamos à escola, à faculdade e, alguns, nessa permanecem por mais um tempo. Vislumbramos o mundo do conhecimento, temos acesso a boa parte do arsenal da cultura humana produzida sobre determinada área do saber, tudo é lindo e belo: basta esforço e dedicação e o restante daí por diante se resolve.

 

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A rotina é despertar pela manhã, comer frutas cítricas, se exercitar, ler uma notícia e se dirigir à universidade, ao seu laboratório e em seu gabinete deliciar-se em leituras prazerosas e úteis à sua pesquisa em desenvolvimento.

 

Surge um pequeno problema ou dúvida, se dirige a coordenação do seu curso e prontamente é atendido, suas indagações são sanadas, preenche dois formulários e, caso queira, seu recurso está garantido para um trabalho de campo; se assim preferir, carros da universidade estão disponíveis na data mais confortável para se deslocar a lugares necessários para se realizar sua pesquisa e, ainda, não há preocupação nenhuma quanto a participação em eventos para divulgar suas produções: seu programa de pós-graduação garante o valor da inscrição, passagens, hospedagens e diárias.

 

Em resumo, tudo está no seu lugar e a única preocupação do bolsista está estritamente ligada ao desenvolvimento da sua pesquisa, suas angústias não ultrapassam questões teórico-metodológicas que ainda apresentam certas falhas e expõem defasagens em sua formação que, novamente sob esforço e dedicação, facilmente se tornam resolvíveis.

 

Esse mundo pictórico, alegórico, colorido não me parece permear grande parte dos estudantes de pós graduação nesse momento. Tudo parece certo, como cantou Caetano, “como dois e dois são cinco”.

 

Não interessa aqui fazer juízo de quem efetivamente teve oportunidade de assim desenvolver seus estudos e sua vida, mas cabe, e não podemos nos eximir, da importância em falar de que muitos de nós passamos longe desse perfil.

 

Somos o perfil do bolsista comum que faz parte da primeira geração da família com acesso ao ensino superior, que passou por greves e mobilizações estudantis por condições de estudo em suas respectivas universidades, por apoio à pesquisa, ensino e extensão desde os primórdios formativos.

 

Que para acessar um programa de pós-graduação abriu mão de seu lugar de origem, com a cara e a coragem deserda para outras cidades com poucas garantias e um mundo de sonhos que facilmente se desmancham ao primeiro sinal apocalíptico de fim de bolsas, de incentivo e da própria universidade enquanto patrimônio público.

 

Somos filhos daqueles que as mães choraram ao telefone ao saber que entramos num mestrado ou doutorado e ao conseguirmos uma bolsa a resposta enfática era “fico feliz, agora poderá me ajudar!”.

 

Aos que tem de contar o que se consome, o que se utiliza para viver e conciliar isso com necessidades da própria pesquisa (ir a um evento, comprar bibliografia, fazer trabalho de campo) sob a divisão de um recurso pequeno que há de ser partilhado para suprir necessidades familiares muitas vezes quilômetros distantes de onde nesse momento se isola.

 

Não escrevo isso para pedir empatia, nem que se coloquem no lugar do outro. É consciência de saber de onde viemos, onde estamos, para onde ainda podemos ir e, principalmente, onde jamais queremos estar.

 

Parafraseando, tal qual no título, Belchior: que o lattes lhe seja leve.

 

 

Igor Carlos Feitosa Alencar é licenciado em Geografia pela Universidade Regional do Cariri; mestrando do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba


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Notas:

[1] http://www.anpg.org.br/04/02/2019/o-reajuste-das-bolsas-de-pos-graduacao-e-urgente-e-necessario/

[2] https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/portaria-da-capes-corta-bolsas-de-diversos-programas-de-pos-graduacao1

[3] http://www.anpg.org.br/17/04/2020/direito-dos-pos-graduandos-garantido-bolsista-capes-pode-ser-beneficiario-da-renda-emergencial/

Quarta-feira, 8 de julho de 2020
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