Lugar de mulher é onde ela quiser?
Quarta-feira, 15 de julho de 2020

Lugar de mulher é onde ela quiser?

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

 

Por Flora Maria Brito Pereira

 

Todo ano eleitoral se retoma a discussão sobre a participação das mulheres nas eleições. Apesar de 52,5% do eleitorado ser composto por mulheres, dos mais de 5 mil Municípios brasileiros, apenas 11,7% são comandados por mulheres. Na Bahia, dos 417 Municípios, 56 tem uma mulher à frente do Executivo. Uma das razões para existirem tão poucas mulheres como gestoras municipais, tem raiz no patriarcado, que estabeleceu que o espaço público não é o espaço destinado para as mulheres. Pensamento que permeia entre muitos e muitas até os dias atuais.

 

Os desafios para participar do espaço político são inúmeros e, quando as mulheres conseguem ser eleitas; além dos desafios referentes à gestão do Município, se deparam com o de serem respeitadas enquanto mulheres. A partir da pesquisa realizada pelo Instituto Alziras – Perfil das Prefeitas no Brasil (2017-2020)¹, das dificuldades enfrentadas por ser mulher na política, destacam-se duas: 53% das prefeitas já sofreram assédio ou violência política pelo fato de serem mulheres e 23% já sofreram desmerecimento de seu trabalho ou de suas falas.

 

Em pesquisa realizada numa rede social da Prefeita e da Prefeitura de um Município baiano, referente aos comentários nas lives realizadas pela gestora no período de 22 de março de 2020 até 01 de junho de 2020; num total de 17 (dezessete) lives, foram observados 16 (dezesseis) comentários que acometem a gestora em questões pelo fato dela ser mulher ou desmerecendo seu trabalho e suas falas.

 

Alguns comentários comparam o trabalho da gestora com o trabalho de gestores de Municípios próximos, depreciando o trabalho da mesma e enaltecendo o trabalho dos daqueles. Chama a atenção que há um Município próximo que também é gerido por uma mulher; mas, não existem comentários comparando o trabalho das duas gestoras. Há, ainda, comentários irônicos sobre os conhecimentos da gestora, sobre sua competência à frente do Município, sua sexualidade e sobre suas falas. 

 

Não se trata aqui de cercear o direito das/os eleitores/as fazerem suas críticas e reivindicações; tendo as redes sociais se configurado como mais um espaço para o exercício da cidadania; mas, uma análise sobre como essas críticas tomam o caminho sutil da violência política de gênero.

 

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A violência política pode atingir homens e mulheres, especialmente aqueles/as que exercem um mandato eletivo. No entanto, observa-se que a violência política atinge de modo diferenciado homens e mulheres. Desde o início da candidatura, nota-se a dificuldade das mulheres para desenvolverem suas campanhas, seja por falta de recursos financeiros e falta de apoio do próprio partido ou pelo descrédito dos familiares e companheiros/as, que vai desde dificultar a realização dos trabalhos domésticos até mesmo a ausência de voto na candidata.

 

 A violência ainda se configura, quando para cumprir a cota exigida pelo sistema eleitoral brasileiro, os partidos inscrevem candidaturas de mulheres sem o seu consentimento ou conhecimento e as mesmas, não recebem nem sequer o seu próprio voto; isso quando não respondem por fraudes nas suas campanhas por não terem sido instruídas a respeito de como gerir os recursos de campanha.

 

Ultrapassados esses desafios e alcançando um lugar no executivo ou legislativo, a violência política contra a mulher ganha novos contornos, a exemplo da tentativa de silenciamento, como a ocorrida com a vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro; ou da falta de apoio ás suas propostas com o intuito de prejudicar o mandato. As eleitas são vistas como pessoas incapazes de apresentar propostas ou que serão facilmente cooptadas por seus pares. Tudo como parte de uma estratégia que comprove que mulher não serve para estar no espaço público.

 

A participação feminina na política é direito fundamental, que garante a igualdade de direitos políticos entre homens e mulheres; tendo estas direito a uma candidatura com condições de disputar em igualdade com as candidaturas masculinas e, assim, garantirem a conquista do cargo eletivo.

 

Uma frase muito utilizada pelas mulheres é que “o lugar de mulher é onde ela quiser”; sendo assim, as mulheres têm direito a se candidatarem e poderem exercer com dignidade e respeito o espaço público que conquistaram, pois uma vida sem violência, inclusive sem violência política por questão do gênero, é direito de todas as mulheres.

 

 

Flora Maria Brito Pereira é especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, Advogada. Coordenadora do CREAS no Município de Itaparica – Bahia.


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Notas:

[1] Pesquisa Perfil das Prefeitas no Brasil (2017-2020). Disponível em http://prefeitas.institutoalziras.org.br/ Acesso em 03/06/2020.

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