O Bolsista Após a Colação de Grau
Quinta-feira, 16 de julho de 2020

O Bolsista Após a Colação de Grau

Imagem: Agência Brasil

 

 

Por Pedro Henrique Garcia Ayrolla Molina Simon

 

Esse texto não tem a intenção de ser uma verdade absoluta e muito menos uma generalização sobre a vida de todo aquele que foi conseguiu uma bolsa de estudos para cursar o ensino superior. O texto a seguir é baseado nas minhas percepções pessoais, isto é, a perspectiva de um jovem advogado formado por uma universidade de elite através de uma bolsa do ProUni. 

 

 

No ano de 2014 eu ingressei na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo após ter sido aprovado no processo seletivo do ProUni, através do ENEM. A PUC-SP é uma universidade de elite e quando digo elite não estou me referindo necessariamente à elite intelectual, mas sim à elite financeira, afinal, é ínfimo o número de famílias que pode pagar R$ 3.350,00 (três mil trezentos e cinquenta reais) de mensalidade, ou seja, é irrisório o número de famílias que consegue quitar todas as suas despesas com moradia, transporte, alimentação e saúde e ainda “sobrar” essa quantia para manter seu filho estudando em um dos melhores e mais tradicionais cursos de direito do país.

 

No dia 15 de fevereiro de 2018, Michele Alves, então formanda de Direito da PUC/SP, fez um belíssimo discurso dirigido a todos os alunos e alunas bolsistas de sua universidade na noite da colação de grau. Eu me formei um depois da Michele e as suas palavras ainda eram atuais e, feliz ou infelizmente, aquelas palavras continuaram atuais para turma que se formou depois de mim e permanecerão pertinentes a tantas outras que virão, pois a vida de um aluno bolsista em uma universidade frequentada majoritariamente por ricos foi, é e será difícil por muito tempo.

 

A palavra resistência pode ter se tornado comum e, talvez, um clichê, mas ainda é a que melhor define a vida de um bolsista em uma universidade da elite. É a melhor definição porque resistência é aptidão para suportar dificuldades, é ato de resistir, de não ceder e tampouco sucumbir é sinônimo de oposição, reação, de recusa de submissão à vontade de outrem. Em suma: resistir é lutar. 

 

Nós, alunos bolsistas, lutamos quando surgiram as primeiras listas bibliográficas das mais variadas disciplinas e nos deparamos com os preços assustadores dos livros e com a quantidade gigantesca de dinheiro que teríamos que gastar com xérox. Dinheiro, aliás, que sequer sabíamos se nossos pais teriam.

 

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Lutamos quando tivemos que comprar, a muito muito custo mesmo, nossas primeiras roupas sociais. Particularmente, lutei quando ouvi, em um dos meus estágios, alguns colegas comentando sobre o preço de suas gravatas Ferragamo que, acreditem, eram mais caras do que o valor somado das roupas e sapato que eu usava. Lutamos também quando muitos de nós, embora com vontade de realizar estágios em órgãos públicos, tivemos que optar por jornadas mais longas em escritórios pois era o que mais ajudava nas contas de casa.

 

Sou filho de uma professora que criou dois filhos sem a presença de seus pais. Nunca passei necessidade porque, na maioria das vezes, minha mãe tirava dela e dava para os filhos. Tive ajuda de uma tia para me manter em São Paulo e, graças a ela, tive o privilégio de poder morar próximo a faculdade, o que já me permitiu superar uma luta que tantos colegas bolsistas tiveram que enfrentar até o último ano da faculdade: as incontáveis horas perdidas no transporte público de São Paulo para conseguir chegar à universidade.

 

Muitos dos meus amigos bolsistas foram os primeiros de suas famílias a ingressar em uma universidade e enfrentaram lutas mais árduas e complexas do que eu, o que evidencia a heterogeneidade desse grupo de estudantes.

 

Entretanto, os anos foram passando e as dificuldades foram se tornando mais evidentes. Com o tempo, a desigualdade extrema em que vivemos foi escancarando cada vez mais a sua cara: oportunidades de estágio que exigiam inglês, espanhol, francês fluentes e saber mandarim seria um diferencial! E a realidade do mundo profissional foi, aos poucos, sabotando as esperanças de tantos que, como eu, acreditavam que o acesso à universidade nos permitiria acessar as melhores vagas disponíveis no famigerado mercado de trabalho. Ledo engano. 

 

Apostamos alto em algo que não dependia só de nós. E, infelizmente, o pós-formatura pode gerar muita frustração e desesperança na vida do, agora, ex-bolsista. 

 

Indicações, contatos, famílias influentes, um tio juiz, uma tia promotora, um pai desembargador, um amigo da família com um império na advocacia ou mesmo o império da própria família em outra área. Um mercado cujas vagas exigem um estudo continuado e a vontade de continuar estudando e não ter condições de arcar com os custos de uma especialização, um mestrado, um curso de extensão. Tudo isso vem como um meteoro nas expectativas do bolsista recém-formado. 

 

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Então, o que esperar? Como lidar com essa frustração que pode nos afligir?

 

Não é uma tarefa fácil, mas, basicamente, devemos transformar essa frustração e essa raiva pela desigualdade que continua a nos perseguir em luta. Lutar para democratizar o acesso à universidade e o acesso dos bolsistas ao mundo profissional, fazer com que nossa simples presença gere incômodo, provoque reflexões e, de uma forma boa, cause desconforto e mal estar naqueles que nunca pararam para reconhecer os seus privilégios.

 

Nossa trajetória comprova o que boa parcela da sociedade brasileira recusa aceitar: em uma sociedade desigual e injusta como a nossa não há como se falar em meritocracia! A não ser, é óbvio, que se ignore a realidade gritante da maioria da nossa população periférica e marginalizada!

 

A formatura foi apenas um novo degrau na nossa luta. Após esse marco precisamos batalhar, ainda mais, para demonstrar que justiça social não é esmola, é, na verdade, reparação social.

 

Aqueles que, assim como eu, receberam financiamento do Estado para estudar têm o dever moral retribuir à sociedade o que foi investido em nós. Temos o dever de lutar para que os espaços acadêmicos e de poder sejam ocupados por mais pessoas como nós.

 

Persistir na tentativa de ocupar os espaços de poder. Lutar dia-a-dia para preencher os quadros dos grandes escritórios de advocacia, ocupar cargos na magistratura, promotoria e tantas outras carreiras jurídicas. Precisamos pintar o sistema de justiça de povo. Só assim conseguiremos ter um sistema de justiça transformador e que não contribua para manutenção da desigualdade com esse olhar ainda elitista. 

 

Como faremos tudo isso? Sinceramente? Ainda não sei. Mas sei que persistir, mesmo com a frustração batendo à porta, é um início. Mario Sergio Cortella já prescreveu: a coisa mais importante que podemos ter na vida quando não temos nenhuma outra coisa é a esperança. Mas não é a esperança do verbo esperar é a esperança do verbo esperançar¹. Continuemos lutando!

 

 

Pedro Henrique Garcia Ayrolla Molina Simon é advogado graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sócio do escritório de advocacia Rueda & Rueda Advogados.

 


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Notas:

[1] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IGWgnsscBmQ. Acessado em 09.07.2020.

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