Analisando os discursos do Estado durante a pandemia sob a ótica de Foucault
Segunda-feira, 27 de julho de 2020

Analisando os discursos do Estado durante a pandemia sob a ótica de Foucault

Imagem: Divulgação – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Matheus Soletti Alles

 

O filósofo Michel Foucault em aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 02 de dezembro de 1970 registra que o discurso estaria longe de desarme do desejo e da pacificação da política e que, pelo contrário, poderia ser a natureza reflexiva do espelho do desejo onde se desperta a inquietação no praticante do discurso e no ouvinte de supor batalhas, vitórias, dominações e inúmeras circunstâncias que provocam animosidade.

 

Contudo, o que desperta a atenção nesse debate, categoricamente no delicado cenário atual, não é somente o que chama Foucault de sistemas de exclusão externos do discurso, como a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade, mas, precisamente, os termos apresentados como sistema interno de exclusão de controle e limitação do discurso: o comentário, o autor e a organização da disciplina.

 

O comentário atua como reprodução daquilo que seria definido como “texto primeiro” o qual consiste nas narrativas ditas e conservadas por revelar aspectos de mistério e riqueza cuja transcende até mesmo uma natureza exclusivamente material. Com efeito, a função do comentário residiria na seguinte atribuição:

 

[…] o comentário não tem outro papel, sejam quais forem as técnicas empregadas, senão o de dizer enfim o que estava articulado silenciosamente no texto primeiro. Deve, conforme um paradoxo que ele desloca sempre, mas ao qual não escapa nunca, dizer pela primeira vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto, não havia jamais sido dito.¹

 

É mediante essa exegese que pode ser constatado o ponto central de reflexão deste texto, em relação à operacionalidade do discurso e a disseminação do comentário no papel exercido pelo Estado, como soberania, por seus cidadãos e seus reflexos na saúde coletiva em meio a pandemia pelo novo coronavírus.

 

Ciente que informações fidedignas sobre a pandemia, seus efeitos e a metodologia para a prevenção do contágio pairam, em um primeiro momento, na confiança depositada pelo indivíduo no Estado, ocorrendo uma presunção científica da veracidade de suas orientações.

 

No entanto, nesse cenário sobressai o Estado através do poder, atrelado ao exercício da mencionada premissa pelos seus representantes, que também são seres humanos. Aqui se encontra a natureza da ordem do discurso como ponto contrário a pacificação política por intermédio do liame assimétrico entre o indivíduo que representa a soberania e a coletividade e ao indivíduo que o levou a essa representatividade.

 

Os denominados chefes de estado, assim como os demais sujeitos posicionados em relações de poder informacional durante a pandemia, serão aqueles que exercerão, na visão de determinada comunidade, a produção do texto primeiro.

 

Doravante o discurso, através de um sistema interno, como exercício do poder e dos reflexos do texto primeiro, propiciará o desenvolvimento do texto segundo, sendo o comentário propriamente dito, em que ocorre de forma incansavelmente repetitiva, provocando uma série de desdobramentos.

 

Nessa senda, se pergunta quais seriam os efeitos do texto primeiro, produzido pelo poder do Estado, e do texto segundo, como a propagação do texto primeiro através do comentário, pelos cidadãos, na saúde coletiva durante o delicado cenário produzido pela contaminação global do coronavírus.

 

Explico: a conduta dos governantes tem como ponto referencial a reprodução ou racionalidade do povo, provocando um liame de incerteza através daquilo que Foucault definiria como vontade da verdade obtida através do discurso. 

 

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Especificamente, as contrariedades provocadas por aqueles que produzem o texto primeiro provocam conflituosos comentários, que refletem em discursos que possuem o condão de contrariar a razão consistente na produção científica sobre formas de prevenir a disseminação do Sars-Cov-2.

 

Verifica-se, pois, uma o desvio de uma outra forma de controle e delimitação que definem os sistemas de exclusões internas do discurso – a figura do autor.

 

O autor legitima-se ante ao princípio de agrupamento do discurso, sendo unidade e origem das matérias circunscritas ao texto primeiro. No entanto, nota-se, no que tange ao discurso político, que a figura do autor caminha para um distanciamento do embasamento científico, por mais que ainda aja como sujeito indicador da verdade.

 

A escrituração da cientificidade necessária ao autor como produtor do texto primeiro implicaria em favorecimento do comentário baseado no senso comum em que ocorreria o enfraquecimento de seu sistema de exclusão contraposto referente à organização das disciplinas – surgindo a terceira classificação do sistema de exclusão interno do controle do discurso. 

 

Assim, prejudicar a organização das disciplinas na ordem do discurso significaria contrariar sua noção como princípio de concordância ou sistematicidade.

 

No caso concreto, o enfraquecimento da disciplina e a desvirtuação de uma visão positiva do autor são vistas através dos desdobramentos do discurso do texto primeiro e do poder, mediante uma fidúcia primária, que podem ocasionar aumento do número de contaminados pelo coronavírus em decorrência da aglutinação de pessoas em determinado lugar, não utilização de equipamentos de proteção, como máscaras, dentre outras características que são, deveras influenciadas, através do exame sobre o indivíduo que praticou o texto discursado.

 

De forma comparativa aos estudos de Foucault, poderia ser constatada a mácula ao discurso verdadeiro, como ponto científico que poderia – de fato – conter os efeitos adversos pela disseminação do coronavírus. 

 

O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua firma liberta do desejo e liberta do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa; é a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de massacrá-la.²

 

Dessa forma, racionaliza-se ao deparar-se perante a problemática exposta uma forma de produção do discurso verdadeiro em situação pandêmica, em que se apresenta uma inversão de noção da produção do texto primeiro para que surjam reflexos positivos de comentário.

 

Assim, o combate a disseminação informacional prejudicial à saúde dos seres humanos, através do desvio da finalidade do autor na prática do discurso e da produção do comentário em detrimento da organização das disciplinas perpassa pela necessidade de produção de uma conduta técnica pelos representantes do Estado. 

 

Com efeito, como proposta, apresentar-se, retorno da significação do autor do discurso como ser cientifico, através da organização das disciplinas para que o comentário reproduzido, possa refletir em práticas altruístas no enfrentamento à pandemia, de forma coletiva. 

 

Portanto, a construção de uma sociedade fraterna, de natureza preventiva e protecionista aos seus cidadãos demanda, de forma contemporânea, que ocorra a valorização da produção cientifica e o respaldo do labor constituído pelos estudiosos da área, principalmente pelo campo da saúde, de maneira indistinta.

 

 

Matheus Soletti Alles é advogado, mestrando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pós-graduando lato sensu em Direito do Trabalho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Planejamento Tributário pela Faculdade Brasileira de Tributação (FBT)

 


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Notas:

[1] FOUCAULT, Michel (1926-1984). A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 02 de dezembro de 1970 / Michel Foucault; tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. p. 24.

[2] FOUCAULT, Michel (1926-1984). A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 02 de dezembro de 1970 / Michel Foucault; tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. p. 19.

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