As tecnologias racistas da branquitude na onda de debates
Segunda-feira, 27 de julho de 2020

As tecnologias racistas da branquitude na onda de debates

Imagem: Gabe Pierce / Unsplash – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Taisa Lima de Amorim e Jessé de Oliveira Neto

 

O assassinato de George Floyd, ocorrido em maio do corrente ano nos EUA em mais uma morte injustificada praticada pelo Estado, seguido de protestos “violentos”, colocou a temática racial em pauta no mundo todo, inclusive aqui, no país da suposta democracia racial.

 

 

Com isso, no Brasil, pessoas e instituições se apressaram em expor um posicionamento público para exibir o status de antirracistas. Assim, as redes sociais foram inundadas de imagens pretas legendadas com o famoso Black Lives Matter, em português, Vidas Negras Importam. Assim, de sobressalto, o silêncio ensurdecedor que durante tanto tempo ignorou as inúmeras vidas negras dizimadas de tantas formas no Brasil parecia ter chegado ao fim.

 

A nível institucional, começaram as lives, os webinários, os bate papos, dentre outros formatos de encontros com o objetivo de discutir o racismo. Mas o que parecia inovador, na verdade era lugar comum, apenas antecipado no calendário, com fins de se ajustar ao tema que estava em alta[1]. Pela primeira vez, os eventos Check List[2] estavam acontecendo fora de novembro e maio. O que parecia promissor no início, começou a se mostrar mais uma armadilha da branquitude.

 

O que vimos foi que algumas tecnologias racistas foram utilizadas em muitos desses eventos, numa tentativa de brancos manterem os termos e os limites de profundidade da discussão, de modo que o lugar de privilégio não fosse questionado, e a fragilidade[3] e ignorância branca não fossem seriamente discutidas, ou sequer mencionadas.

 

A primeira tecnologia observada foi a prática de convidar pessoas negras com quem mantém relações afetivas ou hierárquicas e que estejam dispostas a ser didáticas, para que elas possam falar sobre as suas dores, sobre como é difícil ser negro nesse país, numa perspectiva individual. Ou seja, estas pessoas somente estão autorizadas a expor situações em que o racismo chegou a elas com personagens específicos, relatos em que é fácil identificar uma pessoa com intenção de ser racista, quase não sobrando espaço para discutir o racismo enquanto sistema de poder atuando a nível institucional e estrutural.[4]

 

Um roteiro comum:  pessoas negras “incentivadas” a reviver situações de racismo pelas quais passaram durante a vida, ali, diante de pessoas brancas que expressam toda sua culpa branca infrutífera, deixando claro que sentem vergonha, se desculpando por seus antepassados e pedindo dicas rápidas de como combater esse grande mal.

 

Além disso, se colocam no lugar de aluno, trazendo situações de seu cotidiano e perguntando: “Eu fui racista fazendo isso?”. Colocando a pessoa negra como uma espécie “Wikipreta” para ensinar tudo de mais básico sobre a temática.

 

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Esse movimento expressa certa ambiguidade na dinâmica branca, em que por um lado reconhece que pode reproduzir racismo apenas por estar inserido em uma sociedade estruturalmente racista, mas enfatizando seu bom coração, sua nobre intenção de desconstruir seus preconceitos.

 

Debates como esses não são planejados para que brancos possam relatar sobre como as relações raciais garantem um série de privilégios, inclusive, aquele que permite que ele não precise se pensar enquanto sujeito racializado. Nesse ponto, o conceito de lugar de fala é distorcido para afirmar que branco não pode falar sobre racismo, mesmo que autoras como Djamila Ribeiro explique que lugar de fala não é sobre conteúdo, mas sobre não falar a partir do lugar do outro.

 

Em suma, ocorre que o branco não quer falar de seu lugar de opressor e/ou privilegiado, preferindo o lugar de pseudo telespectador. Há um só gesto o branco lucra muito, tanto no tocante a autopromoção como pessoa/instituição de bom coração, como pela manutenção da estrutura racista vigente, pois passam a expor o evento como suficiente para atestar seu antirracismo, ainda que este se encerre na superficialidade.

 

No final, não sobra tempo para aprofundar sobre o tema, mas “tudo bem”, pois é sempre importante um primeiro passo. Em novembro darão outro primeiro passo, em maio de novo. Não há intenção em avançar na caminhada do antirracismo. Somente há primeiros passos!

 

Aqui não poderia deixar de lembrar a fala de Marcos Queiroz, que ao comentar a participação de Silvio Almeida no Roda Viva, expôs sua percepção de que ocorreu um movimento branco de contenção da discussão, obstaculizando o aprofundamento da temática, apesar de todo brilhantismo e didática do entrevistado: 

 

“Silvio, muito obrigado por essa noite. você é inspiração total. Da melhor força que a luta negra produziu.

 

Brancos: EDUQUEM-SE, para que a gente não fique sempre na “introdução ao racismo” em todos os lugares que somos convidados a falar. O tempo de viver na eterna infância acabou.”[5]

 

Nesse ponto é importante destacar que não faz parte do objetivo desse texto criticar as pessoas negras que participam desses eventos, tampouco estabelecer certo e errado na abordagem delas. Mas sim, colocar luz sobre as tecnologias racistas que permeiam tais discussões.

 

Outra tecnologia racista presente nesses eventos é a de impossibilitar que a figura da negrinha atrevida[6] tenha voz, como no famoso conto de Lélia Gonzalez[7] em que a reação da negrinha acabou com o circo de boa intenção à brasileira. Afinal  de contas, não adiantaria nada controlar os limites da temática com a escolha dos participantes, mantendo a discussão no campo emocional e enchendo de perguntas básicas, se em dado momento alguém pode apontar o racismo do evento e da instituição.

 

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No contexto dos eventos em questão, isto se materializou por meio do bloqueio de comentários em lives nas redes sociais, e mesmo em eventos restritos, de modo que o link para participação somente fosse compartilhado para pessoas que estivessem no nível de radicalismo aceitável para os brancos que coordenavam as reuniões.

 

Após toda essa reflexão, o retrato que fica é de uma pessoa branca sentada confortavelmente na cadeira da direção, decidindo a hora do espetáculo começar, que atores participam, o conteúdo de suas falas, o nível de interferência da platéia e o momento final, garantindo os aplausos.

 

O mais impressionante de tudo isso é que basta um minuto de prosa com esses brancos pra perceber que eles não tem conhecimento nenhum sobre a temática racial. Estão, como sempre estiveram, alheios a toda epistemologia já construída sobre o racismo. A maestria com que dirigem esse espetáculo é pautada na ignorância branca. Uma ignorância militante que não precisa estudar nada sobre branquitude porque sabe visceralmente o que precisa fazer para garantir a perpetuação de seus privilégios.[8]

 

É possível que algum branco desavisado tenha persistido na leitura até esse ponto, e esteja ouvindo sua própria fragilidade branca ressoando indignada em sua cabeça: “Nossa, mas toda iniciativa de brancos tá errada?!”; “O que eles querem, afinal?”; “Não reconhecem a vontade de mudança de brancos?”; e blá, blá, blá… 

 

Aqui vai uma explicação de brinde pra vocês: Discussões verdadeiramente antirracistas não podem ter início no palco, pois exigem passos anteriores. Antes de tudo, há que se reconhecer, de forma direta, concreta e expressa, o racismo que habita a instituição, sem deturpar o conceito de racismo estrutural para amenizar sua responsabilidade. Na prática, significa assumir que seus eventos e referências teóricas são, majoritariamente, brancocentrados. 

 

Há, ainda, que se estabelecer um compromisso concreto e contínuo de combater o racismo inerente à instituição e aqueles que a construíram. Ou seja, trazer pessoas negras para a mesa nos eventos cuja temática não é o racismo, para os cargos de liderança, para ocupar as estantes com autores negros e negras.

 

Evidente que os exemplos listados não esgotam o percurso do antirracismo. Mas são passos iniciais e indispensáveis, sem os quais todo evento dito antirracista não passará de atuação falaciosa. Vale deixar bem escurecido que esses passos são mais que iniciais, porque precisarão ser revisitados continuamente. Significa dizer que a branquitude não se libertará facilmente do “brilhantismo” de sua ignorância. Há que se deparar sempre com a própria fragilidade, reconhecê-la, revisitá-la.

 

 

Taisa Lima de Amorim é graduada em Psicologia pela FAFIRE, Residente em Saúde da Família na Secretaria de Saúde da Prefeitura de Recife.

 

Jessé de Oliveira Neto é pós-graduando em Direito Processual Penal (ibccrim-Coimbra), graduado em Direito pela UNICAP, pesquisador em relações raciais e advogado


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Notas:

[1] Importante destacar que tivemos debates que abordaram a temática com profundidade, como por exemplo da live: Branquitude, racismo e subjetividade, no canal Fala, diversidade!, no youTube.

[2] Lia Vainer Schucman, em A questão racial e a “política do checklist, define eventos “checklist” como aqueles organizados apenas para cumprir tabela, de modo que a mesa ou o simpósio sobre racismo acontecem em horários complicados para a comunidade acadêmica, nada nobres, quase como um “desconvite”. Muitas vezes ignorando a importância da presença de um representante negro – ou de especialistas – para “pensar” o evento e colaborar na produção dos roteiros e discussões.

[3] Termo desenvolvido pela pesquisadora Robin DiAngelo, para caracterizar a dificuldade de pessoas brancas em discutir questões raciais.

[4] Como explica Evandro Piza “certamente há muito que se pesquisar sobre a problemática interação entre arranjos sociais e opções individuais, porém, o racismo não é apenas um problema da maldade humana, de um indivíduo ou de uma nação. Os intelectuais negros (as) têm demonstrado que conceitos como racismo institucional, racismo epistêmico, branquidade, etc. substituem com vantagem cognitiva o debate sobre “corações impuros” e sobre as diferenças reificadas no senso comum sobre padrões nacionais de relações raciais” DUARTE, Evandro C. Piza. Dossiê Especial – Direito Penal, Criminologia e Racismo. Editorial: Direito Penal, Criminologia e Racismo. REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS CRIMINAIS, v. 135, p. 17-48, 2017.

[5] https://twitter.com/marcosvlqueiroz/status/1275258800036028423

[6] O conto de Lélia Gonzalez narra um evento em que brancos protagonizam o lançamento de um livro sobre racismo e convidam pessoas negras para serem telespectadoras, sem se preocupar em trabalhar o próprio racismo. Até que uma negrinha atrevida passa a expor as contradições do evento.

[7] Epígrafe de abertura do texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira”. In: Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1983. Também encontrado no artigo de Felipe Freitas em:: https://cadernosdoceas.ucsal.br/index.php/cadernosdoceas/article/view/252

[8] Como discorre Charles W. Mills: “[…]Imagine uma ignorância que resiste. Imagine uma ignorância que revida. Imagine uma ignorância militante, agressiva, que não deve ser intimidada, uma ignorância que é ativa, dinâmica, que se recusa a desaparecer tranquilamente – de modo algum confinada ao iletrado, ao sem educação, mas propagada nos níveis mais altos da terra, de fato se apresentando despudoradamente como conhecimento.”

Segunda-feira, 27 de julho de 2020
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