A Farmácia de Bolsonaro 
Terça-feira, 28 de julho de 2020

A Farmácia de Bolsonaro 

BG: Arquivo / Agência Brasil – Imagem: Marcello Casal Jr / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Luís Delcides R. Silva

 

Cloroquina, Anitta, ‘lives’ com caixinha azul na mão. Os mistérios de um agenciamento entre os signos e a significações dessas conexões medicamentosas ineficazes

 

 

O título é uma alusão ao ensaio “Farmácia de Platão” escrito pelo filósofo franco-argelino Jaques Derrida (1930-2004) e foi publicado originalmente na coletânea “La dissemination” (A disseminação) de 1972. Portanto, a palavra chave durante todo o texto deste autor é phármakon, que faz sair dos rumos, das leis gerais, naturais e habituais e cria um vinculo da escritura com o mito ao romper genealogicamente e ao mesmo tempo distancia-se da origem.

 

A questão em si discutida na obra de Derrida não é apenas os efeitos químicos que as medicações apresentam aos sujeitos em si – não se podem denominar clientes, pois o filosofo franco-argelino tratou a questão em si em um agenciamento entre individuo e medicamento.  Logo, é necessário descrever as inúmeras linguagens e mensagens transmitidas e codificadas quando um sujeito como o Presidente Jair Bolsonaro apresenta a Cloroquina, uma medicação conhecida para pacientes com lúpus e agora o vermífugo  Annita como uma possível solução para a Covid-19.

 

Para Derrida [1], a mensagem é uma fala necessária e a língua apenas representa  um pensamento divino já formado, um desígnio decretado. Ao atentar para os escritos do filosofo, é possível associar ao bordão incansavelmente proferido pelo presidente: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e o gesto recente do levante da caixinha de Cloroquina durante a cerimonia de cerramento da bandeira nacional em frente ao palácio da alvorada.

 

O alcaide do planalto central está infectado com a Covid-19 desde o dia 7 de julho e agora não pode atender a imprensa em seu cercadinho e muitos de seus seguidores, admiradores e bajuladores. Nessas duas semanas – teve o primeiro teste, depois o segundo e agora o terceiro teste positivo para o vírus – foram feitas várias lives, inclusive durante as madrugadas ao administrar a cloroquina e sempre com a caixinha à mostra para todos os seguidores de sua página nas redes sociais.

 

A novidade da farmacinha do Capitão, além da famigerada Cloroquina, é a Annita, um vermífugo usado para combater vermes e este está sendo administrado durante o tratamento do presidente para a covid-19 e de acordo com  as pesquisas, tanto um quanto o outro não tem eficácia comprovada para o combate ao vírus.

 

Essa relação entre o presidente infectado e as medicações vai muito mais além de uma busca pela cura. Ao remeter aos escritos de Derrida, quando o autor faz menções sobre o deus da escritura é o deus do phármakon e trata ambos como uma cadeia de significações. Não é apenas remédio, é um produto que produz e repara, é um apelo a virtude mágica de uma força a qual se domina mal os efeitos.

 

Não há comprovação científica para o uso da cloroquina e muito menos da Annita. O presidente utiliza as duas medicações e segundo este, sob orientação médica. Logo, se ambas medicações dessem resultados positivos, o resultado de seu teste seria negativo e não positivo para Covid-19. Logo, há uma relação estranha aos “jogos de palavras”, as atitudes do presidente do país em relação a obstinação pelas medicações, a insistência pela produção e a adoção do ministério da saúde das referidas medicações para o tratamento do vírus, sob a justificativa da alta produção pelo exército brasileiro.

 

Após o resultado positivo do terceiro teste feito pelo presidente e o uso continuo das medicações sem eficácia para o combate ao vírus, há um agenciamento linguístico-maquínico das relações consumeristas entre medicação-sujeito. As lives apresentadas pelo presidente, ao comparar com os escritos de Derrida, “ O remédio farmacêutico é essencialmente nocivo porque é artificial. O phármakon é um suplemento perigoso que entra por arrombamento exatamente naquilo que gostaria de não precisar dele e que ao mesmo tempo se deixa romper, violentar, preencher e substituir.”

 

Qual será o próximo item da Farmácia de Bolsonaro? Troca do ministro “interino” da saúde ou a administração de mais um medicamento?  A cor-pictural do phármakon é tão nociva e se deixa romper mediante a uma politica de cuidado e transparência como a dos ministros de saúde anteriores e esta foi substituída pela provisoriedade mesclada com autoritarismo e sigilo de dados. Há muita coisa por trás dos vídeos de cloroquina do Capitão.

 

 

Luís Delcides R. Silva é estudante de Direito pela FMU, pós-graduado lato-sensu em Marketing e Comunicação Integrada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Graduado em Jornalismo pela FIAM-FAAM. Membro dos grupos de pesquisa:  Direito, Ética e Democracia, Globalização das Relações Internacionais Privadas e Crimes Virtuais.


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Notas:

[1] DERRIDA, Jaques. A Farmácia de Platão. Tradução: Rogério da Costa. Ed_. Ed. Iluminuras. São Paulo,2005.

Terça-feira, 28 de julho de 2020
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