O desmentido de Bia Doria
Terça-feira, 4 de agosto de 2020

O desmentido de Bia Doria

Imagem: Fredy Uehara – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Luiza Azevedo Duarte

 

Na quinta-feira, dia 3 de julho, a socialite Val Marchiori publicou uma entrevista feita com Bia Doria, primeira-dama do estado de São Paulo, que viralizou nas redes sociais em razão de seu conteúdo discriminatório contra a população em situação de rua.[1]

 

 

Ao conversarem sobre os projetos sociais desenvolvidos por Bia, a mesma afirmou que não seria correto “chegar lá na rua e dar marmita e dar porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. Porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua”. Val complementa com a seguinte colocação: “Você estava me explicando e eu fiquei passada. Eles não querem sair da rua porque em um abrigo eles têm horário para entrar, eles têm responsabilidades, limpeza, e eles não querem, né”. Bia concordou e declarou que a pessoa em situação de rua quer “receber, ela quer a comida, ela quer roupa, ela quer uma ajuda e não quer ter responsabilidade”.

 

Para entender as nuances deste discurso, que não é nem um pouco inédito na sociedade brasileira, é imprescindível analisar dois aspectos: “quem fala” e “de quem se fala”. Primeiro, observa-se que as enunciadoras são duas mulheres cis brancas pertencentes a uma elite econômica privilegiada e que se beneficiam diariamente das estruturas do sistema em que estão inseridas. Bia Doria é ainda presidente do Fundo Social de São Paulo sendo responsável por promover ações de solidariedade para a população em situação de rua.

 

Segundo, sobre “de quem se fala?”, interessa trazer  o processo de criação e anulação de estranhos da obra “O Mal Estar da Pós Modernidade”, de Zygmunt Bauman. Para o autor, esses estranhos englobam as pessoas consideradas “diferentes”, as que transgridem a ordem determinada e não se encaixam no mapa cognitivo, moral e estético do mundo. De acordo com o sociólogo: “Todas as sociedades produzem estranhos. Mas cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira, inimitável[2]. As pessoas em situação de rua, majoritariamente negras, são parte dos estranhos produzidos especificamente por uma sociedade capitalista racista. É sobre esses estranhos que as duas mulheres se referem: sempre objetos de discursos, nunca sujeitos deles; sempre massa homogênea, nunca indivíduos particulares. 

 

Por escancarar violências e desigualdades que são constantemente negadas e evitadas, homens, mulheres, idosos, adolescentes e crianças que vivem em situação de rua causam desconforto, incômodo, medo e vergonha nos domiciliados. Eles trazem à tona verdades que ameaçam o status quo e por este motivo devem ser anulados. 

 

Bauman ressalta que há duas estratégias distintas e complementares para enfrentar a desordem e este mal-estar causado pelos estranhos. A primeira é de caráter antropofágico, buscando a total assimilação desses estranhos e sua incorporação ao tecido social através da retificação de anomalias. A segunda estratégia é a de caráter antropoêmico, que nas próprias palavras do filósofo intenta “vomitar os estranhos, bani-los dos limites do mundo ordeiro e impedi-los de toda comunicação com os do lado de dentro[3]. O objetivo é a total exclusão dos estranhos através do confinamento dos mesmos dentro de guetos, ou ainda, quando se demonstrar necessário e oportuno, a literal destruição física desses estranhos. 

 

É com este paradigma em mente que a entrevista de Bia Doria deve ser analisada. A primeira dama dá uma orientação muito clara aos ouvintes: não se deve dar marmita às pessoas em situação de rua para que assim se convençam a procurar acolhimento em abrigos públicos. No entanto, é preciso ressaltar que, de acordo com a nota oficial lançada pelo Ministério dos Direitos Humanos[4], somente a cidade de São Paulo tem 33.808 famílias em situação de rua (Cadúnico, março de 2020) e as vagas para acolhimento não chegam nem a 18.000. Além disso, as péssimas condições de infraestrutura da maioria desses abrigos e os inúmeros casos de abusos morais e maus tratos perpetrados por agentes públicos nestes locais acabam por afastar a população usuária. Não basta dar um teto para essas pessoas, é preciso proporcionar condições dignas e atendimento humanizado.

 

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Observa-se também que este pronunciamento de Bia Doria parte do pressuposto de que a situação de rua é uma escolha e ainda entende a privação alimentar como uma tática válida de convencimento e direcionamento desta escolha. O antropólogo Tomás Henrique de Azevedo Gomes Melo, que realizou um estudo etnográfico com a população de rua de Curitiba, adverte sobre esta problemática: “As narrativas da “escolha” devem ser tomadas com cuidado. Na maioria dos casos em que ela se anuncia vem acompanhada de uma trajetória em que se vive uma série de violências.”[5]

 

O processo de ruptura que leva uma pessoa antes domiciliada à rua é normalmente composto pela correlação de fatores como adição a drogas, desemprego, graves problemas familiares e casos de sub-registro. No entanto, é preciso sempre lembrar que há uma diversidade de narrativas tão grande quanto a própria população de rua[6]. Um fator comum, entretanto, pode ser explicitado: a rua não é escolha a priori de ninguém, mas se torna o espaço de sobrevivência e manutenção de relações sociais próprias para muitos que se vêem sem outra opção.

 

De acordo com a teoria do trauma do psicanalista Sándor Ferenczi é justamente a desautorização relativa a uma experiência subjetiva violenta que possui efeitos traumáticos desestruturantes. Os professores Karla Patrícia Holanda Martins e Daniel Kupermann trabalham muito bem com este tema no texto “Fome: o umbral da vergonha”, citando Hannah Arendt para explicar que se a “ação pertence ao âmbito político dos negócios humanos, a sua negação estaria relacionada à violência e à deterioração do político, à negação da palavra, enquanto ponto fundamental do reconhecimento de nossa condição humana”. Por este motivo, ao ratificar e fortalecer este desmentido social – o da rua como “atrativo” – Bia Doria revitimiza o próprio grupo vulnerabilizado que deveria assistir.

 

Por todo o exposto até aqui, resta evidente o quanto as declarações da primeira dama flertam com a estratégia antropoêmica de aniquilação dos estranhos abordada por Bauman. Na verdade, ela enxerga os abrigos como espaços propícios para a exclusão física destes estranhos, que juntamente com as prisões e manicômios, deixam as cidades “limpas” para que socialites como Val Marchiori possam andar despreocupadas sem sentir o desconforto de seus privilégios. Ainda, ao estimular a não distribuição de quentinhas a primeira dama abre brecha para uma política de aniquilação física destes estranhos, através da inanição. 

 

Aqui, cabe bem a colocação de Evando Nascimento: vivemos em uma Necrópole e “os governos se encarregam de decidir quais vidas merecem ou não serem preservadas, e quais devem ser sacrificadas.”[7]. Os processos de criação e anulação de estranhos abordados por Bauman e as nuances da necropolítica estudada por Achille Mbembe personificam a frase dita pelo líder indígena Ailton Krenak: “Somos piores que a Covid-19”. 

 

No entanto, ao mesmo tempo em que existem inúmeras Bias Dorias, também existem outras práticas sociais como a de Ronaldo Bressane. Uma situação vivenciada pelo escritor pode ajudar a se vislumbrar caminhos mais esperançosos. O jornalista relatou seu encontro casual com uma aniversariante em plena quarentena da seguinte forma: “Ei, moço da máscara?” Paro e a encaro. Por que tá todo mundo usando máscara? Vindo do mercadinho, explico à jovem travesti: epidemia, corona, perigo etc. Suas roupas estão sujas e seu cabelo parece duro como o de um playmobil. “Poxa, obrigada por ter olhado na minha cara”, ela sorri, banguela. “Vejo todo mundo de máscara mas as pessoas correm de mim. Olha hoje é meu aniversário. Você me ajuda a comprar um xampu? É R$14” Por acaso é exatamente o que tenho na carteira e dou a ela. Passo-lhe também uma das três máscaras que acabei de comprar na banca de jornal. Lembro dos áudios que circularam pelo whats no começo da pandemia: não saia de casa, os moradores de rua se tornaram violentos e estão atacando as pessoas. A realidade, no entanto, é bem diferente ”.[8]

 

Este diálogo evidencia o quanto foi significativo para a jovem travesti ser olhada e ouvida. Parece banal, mas não é. Ronaldo Bressane compreendeu aquilo que Bia Doria e Val Marchiori não entendem: caridade é pouco, as pessoas em situação de rua necessitam de dignidade. Elas precisam ser vistas, enxergadas, escutadas. Elas precisam de afeto, do reconhecimento de suas subjetividades, potencialidades e sonhos. Somente assim o indivíduo em situação de rua poderá transpor a condição de estranho que lhe foi imposta e exercer o seu direito de ser simples e complexamente quem é e deseja ser.

 

 

Luiza Azevedo Duarte é Graduanda em Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Graduanda em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Estagiária Voluntária na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.


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Notas:

[1] Para visualizar o vídeo da entrevista e obter maiores informações, ver: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/03/bia-doria-diz-que-nao-se-deve-doar-marmitas-para-moradores-de-rua-porque-eles-gostam-de-ficar-nas-ruas-e-um-atrativo.ghtml.

[2] BAUMAN, Zygmunt.“O Mal Estar da Pós Modernidade”; p.23.

[3] BAUMAN, Zygmunt.“O Mal Estar da Pós Modernidade”; p. 24-25.

[4] Para maiores informações, ver https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/07/03/damares-critica-bia-doria-e-defende-alimentacao-a-moradores-de-rua.

[5] MELO, T.H.D.A.G. “A Rua e a Sociedade: articulações políticas, socialidade e a luta por reconhecimento da população em situação de rua”; p. 44

[6] MELO, T.H.D.A.G. “A Rua e a Sociedade: articulações políticas, socialidade e a luta por reconhecimento da população em situação de rua”; p. 49

[7] NASCIMENTO, Evando. “Notas sobre o coronavírus e a sobrevivência das espécies”, acesse em: https://n-1edicoes.org/033.

[8] Para ler a matéria completa, ver https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/06/escritor-conta-o-que-viu-e-ouviu-de-seus-vizinhos-na-quarentena.shtml?fbclid=IwAR2S0tBdWa7862hqPWSlvo2QxUMOs5eFoonHa-fVhkfH7eCH7fRNOfwY-qQ

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