Tocar onde dói? A “cultura do cancelamento”
Terça-feira, 4 de agosto de 2020

Tocar onde dói? A “cultura do cancelamento”

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Mailô de Menezes Vieira Andrade

 

Na década de 1970 as feministas passaram a interrogar, em especial nos Estados Unidos, se viviam(os) em uma cultura do estupro (sem aspas). É que elas notaram uma constante tensão entre repúdio e aceitação das violências cometidas contra as mulheres, que ainda se observa pela categorização destas mulheres entre “honestas” e “desonestas”, “boas” ou “más”, de “família” ou “prostitutas”, sendo apenas as primeiras reconhecidas como vítimas genuínas de estupro (e outras violências masculinas) pela sociedade e pelo sistema penal. 

 

Identificar a existência de estruturas de poder como socialmente construídas e, portanto, modificáveis, integra o pensamento feminista desde a sua segunda onda, durante a qual o movimento antiestupro se articulou. Em meio a um paradigma mais amplo de debates sobre “natureza” versus a “cultura” no conhecimento e nas ciências humanas, a ideia de que existe uma cultura do estupro foi elaborada para indicar que tal crime não é oriundo de uma suposta natureza humana – e por isso podemos pensar na possibilidade de viver em sociedades sem estas violações –, mas decorrente de uma socialização que naturaliza, incita e aceita a violência contra as mulheres (ANDRADE, 2018). Nesse contexto, a expressão emergiu simultaneamente em inúmeras fontes como uma parte significativa da militância antiestupro para denunciar que o estupro é uma prática social culturalmente construída, estimulada e, também, admitida. 

 

A cultura do estupro é difundida e, hoje, amplamente empregada pelos feminismos em especial para fins de mobilização política – e tem sido eficiente para denunciar o padrão de responsabilização das sobreviventes de estupro pela violência sofrida (HERMAN, 1994; BUCHWALD et al, 2005; WILLIAMS, 2007; RENTSCHLER, 2014; ANDRADE, 2017; CAMPOS et al., 2017; PISCITELLI, 2017; SOUSA, 2017). 

 

Enfim, recorre-se à categoria para estabelecer uma contraposição ao discurso de hediondez do estupro que contrasta com uma prática paradoxal em relação a este crime: ele é teoricamente repudiado, mas praticamente aceito. Tal condescendência é observada em afirmações que dão conta que a sobrevivente, se não provocou a violação por estar na rua ou usando roupas curtas, no mínimo a mereceu. Como bem afirmou bell hooks (2005): vivemos em uma cultura que condena e, ao mesmo tempo, celebra o estupro (HOOKS, 2005, p. 295).

 

Neste cenário, a categoria questiona e denuncia a tolerância ao estupro refletida em discursos não raras vezes culpabilizadores das sobreviventes para afirmar que vivemos em meio a uma cultura do estupro. Mais que isso, esta percepção impulsiona ao rompimento com um silenciamento histórico em torno de violências sofridas pelas mulheres.

 

Meio século depois, pessoas públicas afeitas a críticas bradam pela existência de uma “cultura do cancelamento” das quais seriam “vítimas” (e, aqui, as aspas são minhas).  Mas o que seria tal “cultura”? E, se ela existir, a quem atinge? 

 

Em reportagem recente (24/07/2020), a revista Veja fez uma longa matéria de capa sobre práticas de cancelamento que supostamente destruiriam reputações, afirmando que “ninguém escapa do fenômeno da internet”, colocando no mesmo patamar diversas pessoas, entre genocidas, transfóbicas, agressores de mulheres e influenciadores da internet que foram tão somente criticados.  Segundo a reportagem da revista assinada por dois homens brancos “o ato de cancelar é uma tomada de posição radical diante de uma conduta que se julga censurável”[1] e se constitui enquanto uma “ameaça concreta”. Ameaça concreta a que? À carreira destas notórias pessoas (e a imagem pública que cultivam). Não uma ameaça concreta à vida ou integridade física, psíquica e moral como a que a violência doméstica representa ou causadas por ataques LGBTfóbicos ou racistas, tudo isto parece ser irrelevante perto dos contratos que os já ricos e poderosos podem perder.

 

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Na capa da Veja, as imagens do médico e escritor Dráuzio Varella, uma das figuras públicas mais respeitadas no Brasil, ao lado de Cristovão Colombo, histórico genocida, J.K Rowling, assumidamente transfóbica, Johnny Deep, que agrediu sua ex companheira, Sérgio Moro, juiz inquisidor que foi peça fundamental na eleição do atual presidente, Woody Allen, que casou com a enteada e foi acusado de estuprar a própria filha, entre outras/os figuras ditas “polêmicas” (mas que, em realidade, possuem um histórico de violência com minorias políticas, sobretudo em suas declarações). Segundo a reportagem, o que têm em comum é que foram vitimadas pela “inquisição” da internet. 

 

Vale lembrar que alguns dias antes (17/07/2020) veio a público um “manifesto contra a cultura do cancelamento”, assinado por famosos e internacionais “jornalistas e acadêmicos […]contra ‘clima de intolerância’”[2] e em favor da liberdade de expressão, comparando um contexto em que pessoas cujas vidas foram atravessadas por violências cobram responsabilidades e têm nas redes sociais a possibilidade de ter suas vozes – e críticas – ecoarem com a inquisição – período histórico que vitimizou cruelmente muitas mulheres.

 

Poderia afirmar que estamos diante de certa desproporcionalidade argumentativa, como aquela que temos no Código Penal ao atribuir penas mais severas aos crimes contra o patrimônio do que aos crimes contra a pessoa. Mas, parece-me mais acertado sugerir que se trata mesmo de desonestidade intelectual.

 

Nesse sentido, questiono: estamos diante de um comportamento hegemônico, o “cancelamento”, a ponto de podermos utilizar o sentido de “cultura”, que, ao que parece, é emprestado do pensamento feminista através da categoria da cultura do estupro? As pessoas teoricamente “canceladas” estão sofrendo com o escárnio público, caindo no esquecimento, sendo punidas…? A cultura do estupro pode coexistir com a “cultura do cancelamento”?

 

E, ainda, quantos filmes o Woody Allen, uma hipotética “vítima” desta “cultura” maléfica, lançou nos últimos anos? Quanto tempo Gabriela Pugliesi se ausentou da internet (um mês?)? E Felipe Neto não possui cada vez mais engajamento?

 

A afirmação de que vivemos em uma “cultura do cancelamento” se apresenta, não como denúncia de uma realidade violenta, e sim como um dos movimentos reativos mais censuráveis dos últimos tempos: é, simplesmente, backlash[3] contra críticas dos que não estão acostumados a ser responsabilizados pelas atrocidades que falam e violências que cometem. A categoria “cultura” serve à expressão “cultura do cancelamento” na atualidade da mesma forma que serviu aos projetos coloniais no século XIX, estando em função da masculinidade, da branquitude, da cisheteronormatividade, do capital, do imperialismo. 

 

Não existe uma “cultura do cancelamento”. Nós não vivemos em uma “cultura do cancelamento” – e certamente estas figuras públicas que vestiram a carapuça da vitimização não são as que sofrem com possíveis consequências de práticas nocivas na internet. Os que sofrem com os efeitos de destruição de reputação (e privação de liberdade e, não raras vezes, da vida) não são os ricos e poderosos que perdem contratos diante da internet, mas, sim, àqueles em quem incide com a força e contundência o poder punitivo estatal que, sabemos, tem raça, classe social e endereço.

 

Sim.

 

É hora de dar um basta. No backlash. E nas violências que acometem nossos corpos e subjetividades, que impedem nosso devir no mundo, que limitam nossas liberdades de ser e estar.

 

 

Mailô de Menezes Vieira Andrade é doutoranda em Direito Penal pelo PPGD/UERJ, mestra em Direitos Humanos pelo PPGD/UFPA e advogada do Instituto Maria da Penha


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Notas:

[1] Disponível em: https://veja.abril.com.br/entretenimento/anitta-drauzio-varella-moro-rowling-pugliesi-cancelamento/

[2] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/07/leia-manifestos-sobre-cultura-do-cancelamento-e-liberdade-de-expressao.shtml

[3] Segundo o dicionário de vocabulário da língua inglesa, backlash significa uma reação adversa a uma ocorrência política ou social. Disponível em: https://www.vocabulary.com/dictionary/backlash#:~:text=The%20original%2C%201815%20meaning%20of,figurative%20meaning%20came%20into%20use.

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