A surpreendente potência do filme indiano: “A Costureira dos Sonhos”
Sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A surpreendente potência do filme indiano: “A Costureira dos Sonhos”

Imagem: Divulgação – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Quem já não ouviu a seguinte frase: “Sonhar é de graça”? No capitalismo, entretanto, mesmo o ato de imaginar novas possibilidades de realidade pode custar caro aos sujeitos que estão à margem do sistema.  

 

 

Em 2019, as salas de cinema alternativas do mundo foram apresentadas ao mais novo filme da cineasta, roteirista e produtora cinematográfica indiana Rohena Gera: “A Costureira dos Sonhos”. O enredo do longa-metragem se passa na cosmopolita cidade de Mumbai, um dos principais centros econômicos da Índia pós-colonial. A trama gira em torno da figura de Ratna, uma jovem que se tornou viúva logo cedo (o que na sua vila de origem significa “cair em desgraça”). Morando com os seus sogros e vivendo das sobras dos mesmos, Ratna recebe a autorização do casal para ir trabalhar na região central de Mumbai onde consegue uma ocupação, através de conhecidos, no apartamento de um jovem engenheiro chamado Ashwin. Ashwin é membro de uma família rica do país e retornou dos EUA, onde estava estudando e escrevendo um livro, para trabalhar com seu pai no ramo da construção civil. A priori, inicia-se uma distante relação empregada-patrão.

 

Ratna tem algumas funções importantes na residência de luxo de Ashwin: limpar os cômodos e objetos, lavar as roupas do patrão, abrir as portas para as visitas, servir bebidas e cozinhar as refeições. Além disso, ela dorme no local de trabalho durante a semana para que nada falte à Ashwin. Em meio a esse cotidiano moroso de tarefas domésticas, a protagonista se apercebe da tristeza do seu patrão: a noiva indiana de Ashwin desistira do casamento e ele passa a mergulhar em uma intensa angústia. Se os dramas de Ratna são pela sobrevivência e pelo sonho irrealizável de um dia ser estilista, as questões de Ashwin são fundamentalmente existenciais, próprias de quem já possui todos os privilégios possíveis em uma sociedade fortemente estratificada. 

 

Em meio a esse caos, Ratna vai se sensibilizando cada vez mais com as convenções familiares nas quais Ashwin está envolto e passa a lhe dar alguns conselhos informais. Ao mesmo tempo lhe pede permissão para frequentar aulas de corte e costura durante a tarde enquanto ele estiver fora. Ashwin permite, pois diferentemente de sua mãe conservadora, ainda consegue ver Ratna como um ser humano. Mesmo pobre e rebaixada, Ratna resolve alimentar a esperança de que há um lugar reservado para si no mundo da moda – fato que nos comove enquanto espectadores dos 99 minutos do filme – e que ela só necessita começar de algum lugar. Percebendo a sua obstinação, Ashwin (o detentor de capital social da estória) decide ajuda-la, lhe oferecendo uma máquina de costura nova. Mas seu presente simboliza mais do que a solidariedade de um homem rico para com uma mulher pobre. É o início de idas e vindas regadas de afeto e complexidade.

 

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Além de mostrar toda a potência do cinema indiana moderno (“A Costureira dos Sonhos” foi apresentado no Festival de Cannes do último ano), Rohena Gera nos provoca a pensar algumas questões dentro de um romance aparentemente “inocente”. A primeira delas é a forte divisão de classes existente não apenas na sociedade indiana, mas em todos os países capitalistas periféricos; divisão essa que anula as possibilidades de realização de grande parte da população despossuída. Para alguns é dado o direito de ser aquilo que se quer ser: médico, engenheiro (como Ashwin), juiz, apresentador de TV, pesquisador, ator/atriz e de mudar a sua posição conforme os sabores da vontade; para outras são negadas todas as formas de “vida vivida” com prazer: o trabalho só pode ser lido na chave da dor e do pagamento necessário, nunca da construção de uma narrativa que faça sentido para si. Ratna é empregada porque Ratna deve ser empregada, mas seus talentos e potências de escolha são outras e não encontram lastro na realidade, ainda que ela faça todos os esforços necessários para sair do lugar.

 

Já a segunda grande questão que o filme nos traz é o fenômeno, próprio ao nosso modo de produção, em que os sujeitos que realizam o trabalho braçal passam a ser vistos como espécies de objetos decorativos do ambiente onde atuam. Em absolutamente todas as organizações de estudo e trabalho que frequentamos temos faxineiros, limpadores de vidraça, jardineiros, copeiros, seguranças, entre outros, que preparam o terreno para que outros profissionais possam realizar as suas atividades equilibradamente. Mas são eles muitas vezes pessimamente remunerados e considerados indignos de receber sequer um “Bom dia” ou um “Obrigado” dos seus interlocutores. Várias são as cenas do filme que nos incomodam ao retratar isso. Ratna é destratada seguidamente seja por falar quando os familiares de Ashwin não julgam adequado seja por derrubar uma bebida no vestido de uma das amigas do patrão. Sua consideração enquanto pessoa é anulada: Ratna é uma máquina de preparar e servir aos “vencedores da vida”. É como se sua atividade não fosse um trabalho como qualquer outro, mas um dever moral carente de mérito.

 

Lembro aqui da cena mais recente a chocar frações da opinião pública brasileira: um entregador de aplicativo vítima de racismo de um dos seus clientes brancos e ricos (chamado de “lixo” por conta da sua cor da pele e ao denunciar o comprador, acusado de ter “inveja” das famílias que moram em mansões compradas muitas vezes pelo espólio da corrupção). Mas o que seria de nossa elite incapaz de resolver qualquer problema prático como se deslocar em automóveis do ano para buscar a sua própria comida sem o “povo” que tanto odeia e lhe entrega as refeições na mão?  Embora Gera tenha feito a opção de dar enquadramentos mais agradáveis na reta final do longa-metragem – esvaziando a crítica social – como o romance entre Ahswin e Ratna que não é desenvolvido por conta das óbvias diferenças de classe entre os dois e o novo emprego que Ratna obtém a partir de indicação de Ashwin, a verdade é que ao se permitir sonhar, no seu lugar enquanto mulher e enquanto miserável, Ratna passa pelo intenso sofrimento que é manter a própria subjetividade aprisionada a um lugar de incômodo que fica entre aquilo que é o necessário e aquilo que é o ideal. Por isso mesmo a importância de enterrar os discursos da “meritocracia”.

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Bacharel em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).


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