As 1001 mortes do neoliberalismo
Terça-feira, 1 de setembro de 2020

As 1001 mortes do neoliberalismo

Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Arthur Harder Reis

 

Escapar, simular, contornar a morte não chegam a ser nenhuma novidade na literatura. Chicó e João Grilo, escaparam de Severino de modo muito ardiloso:

João Grilo: Um momento. Antes de morrer, quero-lhe fazer um grande favor.

Severino: Qual é:

João Grilo: Dar-lhe uma gaita de presente.

Severino: Uma gaita? Pra que eu quero uma gaita?

João Grilo: Pra nunca mais morrer dos ferimentos que a polícia lhe fizer.

[…] 

Severino: Eu só acredito vendo.

[…]

João Grilo: Agora vou dar uma punhalada na barriga de Chicó.

Chicó: Na minha não!

João Grilo: Deixa de moleza, Chicó. Depois eu toco na gaita e você fica vivo de novo! [Murmurando, a Chicó]. A bexiga, a bexiga! Acena pra Chicó, mostrando a barriga e lembrando a bexiga, mas Chicó não entende

[…]

João Grilo: Homem, sabe do que mais? Vamos deixar de conversa. Tome lá! Morra, desgraçado! 

Dá uma punhalada na bexiga. Com a sugestão, Chicó cai ao solo, apalpa-se, vê a bexiga e só então entende. Ele fecha os olhos e finge que morreu.

João Grilo: Está vendo o sangue?

Severino: Estou. Vi você dar a facada, disso nunca duvidei. Agora, quero ver é você curar o homem.

João Grilo: É já!

Começa a tocar na gaita e Chicó começa a se mover no ritmo da música, primeiro uma mão, depois as duas, os braços, até que se levanta como se estivesse com dança de São Guido.

Severino: Nossa Senhora! Só tendo sido abençoada por Meu Padrinho Padre Cícero! Você não está sentindo nada?

Chicó: Nadinha![1]

 

Simular a morte, por outro lado, para ganhar em vida é justamente o que o Frei sugeriu a Julieta:

Frei: Espere, pois vislumbro uma esperança,

Que exige execução desesperada,

Pois é o desespero que ela evita.

Se, antes de casar com o conde Páris,

Você tem forças para se matar,

Então creio que há de enfrentar bem

Morte falsa que evita essa vergonha.

Se pra escapar pensava em se matar, 

Se quiser arriscar, dou-lhe o remédio.[2]

 

Embora o plano do Frei não tenha se desenrolado como esperado, a pertinência da sugestão é válida. Aliás, mesmo que a morte não tenha sido evitada, ainda assim, em sua companhia, Brás Cubas escreveu um romance:

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.[3]

 

Há, entretanto, morte ainda mais curiosa. Trata-se da morte do neoliberalismo. Robert Kurz em 1993 proferira uma palestra intitulada As luzes do mercado se apagam: as falsas promessas do neoliberalismo ao término de um século em crise[4], pouco depois, em 2004, Theotônio dos Santos publicou Do terror à esperança: auge e declínio do neoliberalismo[5]. Não passou muito e a Crise de 2008 deu as caras. O “retorno do Estado” parecia inevitável, o Ocuppy[6] não deixava dúvidas. Em 2013, o economista liberal Thomas Piketty[7] alertava: é necessário que o Estado intervenha, caso contrário as desigualdades vão chegar em níveis insustentáveis. Caso não tenha me escapado grandes indignações, até a atual pandemia o neoliberalismo passara tempos relativamente tranquilos, apenas com suas críticas mais habituais.[8]

 

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No entanto, em nível internacional, as consequências e efeitos imediatos da pandemia e da quarentena não deixariam dúvidas. Aliás, como disse mais acima, a morte do neoliberalismo é realmente curiosa. Não obstante, para Cédric Duran[9] trata-se de sua segunda morte. Em nível nacional, somadas às ações do Governo Federal decorrentes da pandemia, a recente “debandada” do ministério chefiado por Paulo Guedes parece ser outro sinal indubitável da derrota neoliberal nos trópicos.[10]

 

Ao leitor mais atento deve parecer mais ou menos claro que: há algo de errado na morte do neoliberalismo. Ou não: o leitor igualmente atento pode sugerir que trata, apenas, do movimento de perdas e ganhos de uma classe e outra, com seus avanços e retrocessos. Ou, também, da alternância natural do jogo democrático, ora mais Estado, ora menos Estado. 

 

Antes de prosseguir, ressalto que minha postura aqui não busca decretar o que se deve e o que não se deve entender por neoliberalismo (o que seria uma tarefa inglória e impossível). Mas, sim, chamar atenção para as diversas falsas mortes do neoliberalismo. 

 

Ademais, não é minha pretensão dizer se o neoliberalismo sobrevive à maneira de João Grilo e Chicó, que oferecendo a gaita mágica benzida por Keynes oferece o retorno do Estado. Ou se ao modo do Frei e Julieta, que percebendo a necessidade de “morte” para uma vida feliz ulterior aceita fingir-se de falecido por uma noite. Tampouco se tenha morrido mesmo, e se inspirando em Brás Cubas seja um “defunto sistema”. 

 

Jogo luz em uma leitura do neoliberalismo realizada por Pierre Dardot e Christian Laval[11]. Para os franceses: 

A tese defendida por esta obra é precisamente que o neoliberalismo, antes de ser uma ideologia ou uma política econômica, é em primeiro lugar e fundamentalmente uma racionalidade e, como tal, tende a estruturar e organizar não apenas a ação dos governantes, mas até a própria conduta dos governados. A racionalidade neoliberal tem como característica principal a generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação. O termo racionalidade não é empregado aqui como um eufemismo que nos permite evitar a palavra “capitalismo”. O neoliberalismo é a razão do capitalismo contemporâneo, de um capitalismo desimpedido de suas referências arcaizantes e plenamente assumido como construção histórica e norma geral da vida. O neoliberalismo pode ser definido como o conjunto de discursos, práticas e dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens, segundo o princípio universal da concorrência.

 

Inspirados nos trabalhos de Michel Foucault, e a “conduta das condutas”, defendem que o neoliberalismo se instalou, de modo profundo, como uma “razão política única”[12]. Nas palavras de Rodrigo Turin[13]:

Como sugerem Dardot e Laval, não se trata mais do sistema de um partido único, mas sim de uma razão política única, dentro da qual os partidos de esquerda e direita são cada vez mais forçados a se adequar graças aos dispositivos disciplinares do mercado financeiro. […] Sua força está justamente na naturalidade com que os conceitos e suas condutas são incorporados pelos indivíduos e pelas instituições, como se não houvesse escolhas. Na sua “eficaz” invisibilidade, vamos incorporando a destemporalização, a desmobilização, a despolitização e a desideologização tecnificada que trazem consigo.

 

Entendê-lo, portanto, como uma racionalidade pode ser extremamente fértil à compreensão adequada daquilo que representa em sua totalidade. Ainda que supostamente superado por uma maior intervenção do Estado não podemos deixar de nos questionar se essa intervenção objetiva romper com as estruturas vigentes ou se, pelo contrário, apenas oportunamente se impõe como forma de garantir sua manutenção. 

 

É deste modo que busco contribuir, sem maiores pretensões, ao debate. Refletir sobre como o neoliberalismo aparentemente morre tanto e ainda assim continua vivo é fundamental para sua superação concreta. Ainda mais aos seus afoitos carrascos. 

 

Concluindo, peço que o leitor compreenda mais uma longa citação. Termino com as mesmas palavras que Dardot e Laval encerraram A nova razão do mundo

O fundamental é compreender que nada pode nos eximir da tarefa de promover outra racionalidade. É por isso que a crença de que a crise financeira anuncia por si só o fim o capitalismo neoliberal é a pior das crenças. Talvez agrade aos que pensam ver a realidade antecipar-se a seus desejos sem que precisem mexer um único dedo. Seguramente conforta os que encontram motivo nisso para congratular-se por sua “clarividência” passada. No fundo, é a forma menos aceitável de renúncia intelectual e política. O capitalismo neoliberal não cairá como uma “fruta madura” por suas contradições internas, e os traders não serão a contragosto os “coveiros” inopinados desse capitalismo. Marx já dizia com força: “A história não faz nada”. Existem apenas homens que agem em condições dadas e, por sua ação, tentam abrir um futuro para eles. Cabe a nós permitir que um novo sentido do possível abra caminho. O governo dos homens pode alinhar-se a outros horizontes, além daqueles da maximização do desempenho, da produção ilimitada, do controle generalizado. Ele pode sustentar-se num governo de si mesmo que leve a outras relações com os outros, além daquelas da concorrência entre “atores autoempreendedores”. As práticas de “comunização” do saber, de assistência mútua, de trabalho cooperativo podem indicar os traços de outra razão do mundo. Não saberíamos designar melhor essa razão alternativa senão pela razão do comum.[14]

 

 

Arthur Harder Reis é graduando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul


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Notas:

[1] SUASSUNA, Ariano. Auto da compadecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. p. 89-92.

[2] SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. p. 88.

[3] ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2019. p. 55.

[4] KURZ, Robert. As luzes do mercado se apagam: as falsas promessas do neoliberalismo ao término de um século em crise. Estudos Avançados, São Paulo, v.7, n. 18, p. 7-41, 1993.

[5] SANTOS, T. Do terror à esperança: auge e declínio do neoliberalismo. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2004.

[6] HARVEY, David et al. (orgs.). Ocuppy: movimento de protestos que tomaram as ruas. São Paulo: Carta Maior, Boitempo, 2012. 

[7] PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. 

[8] BECKERT, J. The exhausted future of neoliberalism: from promissory legitimacy to social anomy. Journal of Cultural Economy, v. 13, n. 3, p. 313-330, 2020. Beckert, todavia, reconhece que apesar das dificuldades de sustentação do neoliberalismo (salienta que pertinentes ao norte global) não há muitas alternativas no horizonte.

[9] DURAN, Cédric. La segunda muerte del neoliberalismo. In: Viento Sur, Madrid, 22 jul. 2020. 

[10] MILZ, Thomas. Cortaram as asas do Guedes. In: Deutsche Welle, 23 abr. 2020. 

[11] DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. p. 17.

[12] Nos lembrando do “pensamento único” discutido por Milton Santos. Cf. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Livro vira-vira 2. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011.

[13] TURIN, Rodrigo. Presentismo, neoliberalismo e os fins da história. In: ÁVILA, Arthur; NICOLAZZI, Fernando; TURIN, Rodrigo. (orgs.). A História (in)Disciplinada: teoria, ensino e difusão do conhecimento histórico. Vitória: Editora Milfontes, 2019. p. 266.

[14] Dardot, Laval, op. cit. p. 402.

Terça-feira, 1 de setembro de 2020
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