Deus, armas e família: a tragédia anunciada
Terça-feira, 1 de setembro de 2020

Deus, armas e família: a tragédia anunciada

Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

 

 

Por Cauê Bouzon Machado Freire Ribeiro

 

Notícias apontam que o tripé ideológico do novo partido político de Jair Messias Bolsonaro será: Deus, armas e família[1]. Parece brincadeira, piada de mau gosto, mas é a verdade. Deus e arma estão postos lado a lado na formação do “Aliança pelo Brasil”.

 

 

Alguns mais otimistas podem pensar que quem realmente crê em Deus não irá cair nesse papo furado, até porque Deus não representa, em nenhuma religião, arma, tiro, violência. Muito pelo contrário, em qualquer linha religiosa Deus é sinônimo de amor, luz, vida.

 

Mas os mais otimistas estão errados. Esta ligação entre Deus, armas e família, que, à primeira vista, parece bizarro e obviamente não convincente, foi capaz de fazer com que o militar reformado chegasse ao cargo de Presidente da República.

 

Explico: após a enxurrada de fakenews que iam desde a mamadeira em forma de pênis até plantações de maconha em Universidades Públicas, Bolsonaro e sua trupe conseguiram angariar votos de quem mais teme que estes absurdos sejam reais, os evangélicos.

 

Importante registrar, neste ponto, que nada tenho contra os evangélicos, apesar de muito ter contra pastores que se valem da fé alheia para enriquecer. Estes crentes, entretanto, são costumeiramente vítimas de notícias falsas que os atingem mais intensamente por serem conservadores no que diz respeito ao uso de drogas e a novas composições familiares.

 

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Prova disso é que foram os evangélicos quem elegeram o atual presidente da república. O antropólogo Ronaldo de Almeida, em artigo publicado na obra “Democracia em Risco” deixa isso bem claro.[2]

 

No supracitado texto, apresenta duas tabelas interessantíssimas para podermos entender o fenômeno da eleição de um ser totalmente insano para o cargo mais importante do Poder Executivo nacional. A primeira tabela mostra a distribuição dos votos válidos por tipo de religião. A fonte é Pesquisa Datafolha, de 25 de outubro de 2018. Segundo a pesquisa, 69% da comunidade evangélica, repita-se: abalada e enganada com notícias falsas sobre mamadeiras de piroca nas creches do país, votou em Bolsonaro.[3]

 

Em porcentagem este número já é bem expressivo, mas quando transformado em número de votos é capaz de traduzir o motivo da vitória do candidato eugenista. Esses quase 70% significam mais de 21 milhões e meio de pessoas, mais precisamente 21.595.284, como aponta a tabela 2. Esta mesma tabela mostra que a diferença de votos, na comunidade evangélica, entre Haddad e Bolsonaro é de mais de 11 milhões e meio de pessoas, pontualmente 11.552.780.[4]

 

A diferença total de votos, ao final da contagem, entre os candidatos que chegaram ao segundo turno, foi de quase 11 milhões (10.715.086). Logo, foram esses 11 milhões e meio que fizeram a diferença. Foram os mais de 21 milhões de crentes em Deus que saíram de casa para votar no satã. Isto só se explica pelas fakenews muito bem direcionadas. Sabiam quem atingir e como, e atingiram. 

 

Agora, astutamente, tentam a mesma estratégia para a formação de um novo partido político. Vai dar certo, infelizmente. Enquanto não nos desfizermos das amarras da falta de leitura e de senso crítico, notícias falsas e até mesmo Deus serão utilizados para a permanência do poder na mão do diabo.

 

 

Cauê Bouzon Machado Freire Ribeiro é pós-graduando em Direitos Humanos no Círculo de Estudos Pela Internet (Curso CEI). Pós-graduado em Direito Processual Civil pelo Complexo de Ensino Renato Saraiva (CERS)/Universidade Estácio de Sá.


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Notas:

[1] Disponível em <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/11/21/interna_politica,808106/novo-partido-de-bolsonaro-defende-deus-armas-e-oposicao-ao-comunismo.shtml> Acesso em 13 de ago. de 2020.

[2] ALMEIDA, Ronaldo de. Deus acima de todos. In: Democracia em risco?: 22 ensaios sobre o Brasil hoje. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras. 2019. p.35.

[3] ALMEIDA, Ronaldo de. Deus acima de todos. In: Democracia em risco?: 22 ensaios sobre o Brasil hoje. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras. 2019. p.37.

[4] ALMEIDA, Ronaldo de. Deus acima de todos. In: Democracia em risco?: 22 ensaios sobre o Brasil hoje. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras. 2019. p.38.

Terça-feira, 1 de setembro de 2020
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