Entre Lulinha “paz e amor” e Ciro, consideremos o Freixo?
Terça-feira, 1 de setembro de 2020

Entre Lulinha “paz e amor” e Ciro, consideremos o Freixo?

Imagens: Agência Brasil e Luis Macedo / Câmara dos Deputados – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

Confesso que o título deste artigo não me desceria bem até pouquíssimo tempo atrás. Sempre tive dificuldade em aceitar que um progressismo moderado, aberto ao diálogo e à prática de coalizões, não fosse o caminho. Sempre critiquei posturas como a de Freixo de lançar a sua candidatura à Presidência da Câmara dos Deputados em seu primeiro mandato como Deputado Federal em um contexto no qual o campo progressista estava (e ainda está) seriamente debilitado, fraturado. Nunca aceitei bem o fato de que os deputados estaduais e federais do Rio se candidatassem a Prefeito e os vereadores a Governadores, de modo a preservar os seus mandatos no legislativo e sempre dividirem o campo progressista nas eleições majoritárias. Imagino que houvesse, de minha parte, um certo conservadorismo em meu progressismo, se é que isso faz algum sentido. 

 

No entanto, tentando compreender o que tem marcado o campo da política eleitoral e institucional dos últimos tempos, mudei a minha forma de pensar a irreverência desta forma de se fazer política que se sintetiza bem em Marcelo Freixo. Apenas faço um esclarecimento: da mesma forma que em um outro artigo chamei de “lulismo” um fenômeno maior que Lula, quando falo em “Freixo”, me refiro a algo maior que a personalidade política do Deputado Marcelo. Explico (e só posso fazer isso à luz do bolsonarismo).

 

O bolsonarismo é um fenômeno novo na política. Porém, ele agrega elementos inéditos àquilo que se tem de mais reacionário na política tradicional. O bolsonarismo é uma forma de se fazer política determinada pelo personalismo, e até aqui não há nada de novo. Já tivemos o getulismo, o janismo, o lulismo. Entretanto, o bolsonarismo agrega a este personalismo uma espécie de intransigência dialógica, já que o seu modo de fazer política nega o pressuposto da política, que é o diálogo. O bolsonarismo opera uma espécie de rompimento de todas as formas de diálogo possíveis, já que ele não dialoga com a sua base congressual, razão pela ela é frágil; não dialoga com o STF, razão pela qual é incapaz de compreender os motivos de suas “derrotas”; não dialoga com a base social não bolsonarista, razão pela qual só recebe apoio quando paga; não dialoga com a oposição, por isso tem de se valer de dossiês, chantagens e práticas difamatórias via “gabinete do ódio”, ao invés de conciliar. 

 

E é interessante que o bolsonarismo é algo que se descola de Jair Bolsonaro. Esta figura é tosca e frágil intelectualmente, não só intelectualmente, mas moralmente, socialmente e politicamente. Mas, paradoxalmente, o bolsonarismo é uma força extrema no imaginário social que dispensa do diálogo. Aliás, o diálogo é assumido como o inimigo do bolsonarismo. Uma vez que o diálogo poderia contribuir para desmentir toda a série de simplificações absurdas da realidade promovidas pela propagação de notícias falsas (que é mais um elemento da essência bolsonarista), dialogar passou a ser “coisa de comunista”. Não se sabe o que é comunismo. Não se sabe mais o que é o diálogo. Tomaram a mentira como a “verdade revelada” pelo messias. 

 

Diante disso, surge a questão: se uma pessoa se fecha ao diálogo, há sentido em tentar dialogar? O pressuposto do diálogo é a existência de lados abertos a ele. Logo, a resposta a esta pergunta é bastante óbvia. 

 

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Com isso, a provocação colocada no título deste texto deve ser assumida como ponto de partida. Quando coloco o nome do Lula ou do Ciro, não se trata de toma-los literalmente. Lula sequer foi candidato nas últimas eleições. Poderia ter colocado Haddad, Camilo Santana, FHC ou Anastasia. Esses são nomes que apostam em um modelo de governo pautado em um consórcio entre o capital e o desenvolvimento de políticas públicas. Evidente que nem todos dão a mesma importância ao segundo elemento do consócio, mas ainda assim apostam nele. Noutros termos, tentam o diálogo, mediado pelo governo, entre polos intransigentes. No entanto, um destes polos resolveu se fechar ao diálogo, aderindo ao movimento bolsonarista que é fechado ao diálogo em sua essência. Logo, se quando um não quer, dois não brigam, quando um não quer, não há diálogo. Simples assim.

 

Quando penso em Freixo (e poderia colocar aqui Boulos, Olívio Dutra, Heloísa Helena), vejo nomes que são capazes de ultrapassar a barreira imposta. Pensando especificamente em Freixo, trata-se de um político que é dotado de uma grande intransigência e fechamento dialógico nas situações que demandam esta característica. Ora, quando se trata de combater milícias, não há como dar cabo a esta empreitada como o lema “Freixinho paz e amor”. A milícia mata. A milícia influencia sem diálogo. A milícia está no Planalto. 

 

Igualmente no que diz respeito ao Boulos, não há como aceitar transigir quando se está diante de uma realidade na qual pessoas não possuem o mínimo para uma vida digna. E, além de não possuírem o mínimo, são tratadas como “foras da lei” por exigirem o que lhes é um direito. É interessante notar que pessoas que possuem todos os direitos constitucionais e infringem a lei sejam tratadas com parcimônia, ao passo que pessoas que não possuem o básico sejam consideradas “arruaceiras” ou “invasoras”. 

 

Mas a relevância de condutas como a destes políticos não se esgota em intransigência. Quando são abertos canais de diálogo (e não se exige a concessão do mínimo), eles são capazes de debater. O Freixo se propõe (e já o fez) a debater com os policiais o fato de eles serem agentes e sujeitos de Direitos Humanos, e não inimigos destes direitos. Ora, se a polícia que mais viola estes direitos é a que mais sofre violações, este ciclo tem de ser quebrado para que os policiais possam retornar às suas casas sem medo. Freixo dialoga sobre isso e não apenas nos comitês partidários para os já convertidos, mas nos quartéis. 

 

No passado, imagino que a política baseada na conciliação entre polos irreconciliáveis fosse o caminho. E é por isso que FHC conseguiu fazer um governo estável. É por isso que o Lula abriu mão de sua intransigência e de sua capacidade de mobilização, tendo feito um grande governo. E é por isso que Haddad teria sido um grande Presidente em 2010. No entanto, sinto que o diálogo, neste momento, não é um caminho possível. Quando um polo intransigente dos reacionários se radicaliza, o campo progressista pode se “endireitar”, abrindo mão do básico. Mas pode fazer diferente. Pode forçar uma radicalização para o outro lado, forçando o real à reabertura do caminho do diálogo. A política deixou de ser a “luta pelo melhor argumento” (que claramente o Haddad possuía) e passou a ser “a luta pela vida”. Imagino que o campo progressista deve se transformar naquilo que o bolsonarismo acha que a esquerda é (combativa, intransigente, perigosa e transformadora), sob pena de a esquerda deixar de ser progressista. Está na hora de deixarmos o “paz e amor” do Lulinha no passado, já que não é com “paz e amor” que se faz frente às “arminhas” ou ao “fuzilamento da petralhada toda”. 

 

Imagino que seja a hora de mobilizações para o combate às milícias que tomaram o Planalto. Imagino que seja a hora de combater o capital especulativo que nega direitos básicos aos vulneráveis. E o Freixo já enfrentou milícias sem jamais pegar em armas ou infringir a lei. Boulos combate o capital imobiliário especulativo diariamente sem tirar vidas. O Lula (antes do “paz e amor”) parou o maior distrito industrial do país por meses. E fizeram isso sabendo a hora de retomar o diálogo. 

 

Diálogo pressupõe predisposição a ele. Essa predisposição só será criada pela mudança na realidade. Pensemos em mudar a realidade.

 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.


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