Mestiço: como descolonizar a antropologia
Sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Mestiço: como descolonizar a antropologia

Imagem: EBC – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Coluna da Rede Brasileira de Saberes Descoloniais

Por Cleiton de Jesus Rocha

 

Pensar o processo de descolonização é necessário a antropologia, principalmente devido ao motivo de como o saber antropológico foi engendrado e ao mesmo tempo como a antropologia reproduz uma lógica de colonialidade – podemos dizer que as práxis antropológicas e a práxis da colonialidade estão politicamente imbricadas. Mas, ao mesmo tempo outra práxis está presente na antropologia – quem faz e escreve a antropologia? – é produzida por sua maioria por pessoas brancas. Dessa forma, esse trabalho tem como objetivo articular três dimensões: A primeira de ordem pessoal-coletiva, a segunda de posição/território político e econômico, e última posicional idade de pesquisador/universo da pesquisa.

 

Acho que a questão está como o meu pensamento é e (foi) formado, e como minha autoridade discursiva perpassa pelas ideias e pelas mãos dos brancos. Venho de uma universidade periférica (Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, que fica na Amazônia oriental), de uma população de 850 mil habitantes onde 74, 5 % é formada por pretos/pardos no Amapá, como colocado por FANON (1983)¹ a própria identidade dos negros (pretos e pardos) perpassou e foi desconfigurado pela perspectiva dos brancos. Se ver nesse caso, e ver-se na ótica do dominador. Para citar um exemplo, sobre o processo de desigualdade, a educação foi negada para a minha tataravó, bisavó e avó. E para sustentar a casa, as coisas vieram do terreno (da agricultura familiar). Esses fatores fazem por si mesmo eu estar num contexto de ser decolonial. E fato de eu estar, ser e fazer antropologia já é um processo de descolonizar o próprio campo da antropologia. Certa vez em uma conversa com uma amiga preta que está fazendo mestrado na Universidade de São Paulo- USP em antropologia, disse, que para nós não é interessante em meio aos instrumentos de poder mostrar as nossas fraquezas diante dos escolhidos da academia ou das (os) professoras (os), estávamos nos referindo ao domínio dos idiomas. 

 

Eu não sei francês e inglês, na visão da academia brasileira – um ser descartável, como assim você não sabe outros idiomas? (por ironia idiomas colonialistas) duas ordens se apresentam a primeira de como a nossa acadêmica reproduz uma lógica de colonialidade, e a outra diz respeito de como manter um poder colonial interno, que possa reproduzir uma lógica de conveniência entre os estabelecidos que produzem o conhecimento antropológico. 

 

Tanto nos país do sistema-mundo como nós países que foram postos a periferia, a antropologia é feita por mãos brancas. 

 

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Pensando o desafio de analisar a minha pesquisa. Algo que vem me provocando é que ocupar o campo da antropologia, faz-me ser decolonial, por um simples motivo, falo de baixo para cima, quem olha de baixo conhece os caminhos, o terreno, becos e por onde se deve ou não passar. Tem uma visão de como pode derrubar e superar os obstáculos, quem está em cima tem uma visão panorâmica, sabe e imagina o tormento de uma possível queda, e jogo uma provocação de quem precisa incorporar o pensamento decolonial são os brancos, ou seja, entendo aqui a decolonialidade como um processo de oposição a colonialidade do poder/ser. Mas, é necessário fazer uma crítica com critérios, ou mesmo que a própria branquitude considera o termo  branco é um rótulo “impreciso”. 

 

Assim, faz-se necessário desenhar o “rótulo impreciso”. Para ficar claro dessa vez quem são os brancos, e não ficar no imaginário, a branquitude é herdeira direta da colonização, são os filhos dos donos das pessoas que foram escravizadas, filhos dos latifundiários, e herdeiros de um certo capital religioso que foi estruturante no processo de subjugação e na sociedade de classes os donos do capital, os empresários. Para além de herdar o patrimônio, herdaram o capital social – simbólico, herdaram a cor branca. Assim, as vezes os brancos não se veem como brancos, por quê se pensam como universais e iguais. Sendo que, eles mesmos estabeleceram as hierarquias através do racismo científico. Ou seja, branco é uma posição de poder (a antropologia brasileira é um instrumento de reprodução do poder) para ficar mais inteligível no imaginário. Talvez esse texto seja mais sobre vocês (brancos) do que sobre mim. Nesse caso de ordem política, mas para ter autoridade discursar nas regras dos brancos e feitas pelos brancos (epistemologia ocidental) o “bagulho” precisa está na ordem teórica – epistemológica. Assim, para agradar a percepção colonial e poder incorporar dispositivos de legitimidade irei descrever minha pesquisa.  

 

Eu estudo a religião como temática, e mais especificamente o pentecostalismo e juventude num bairro periférico da cidade de Macapá.  Algumas questões são importantes para problematizar uma de ordem de posição a (o) antropóloga (o) com o discurso autorizado e o campo (universo) da pesquisa. Como analisar um contexto onde a violência policial, desigualdade, racismo e ausência de políticas públicas habitacionais estão presentes? Ao mesmo tempo como descrever um grupo plural e diversificado, todavia, que ganha força no campo político e os líderes do movimento usam sua posição para implementar um projeto conservador que ataca as minorias? Ou seja, como ter simpatia pelo o que se está pesquisando sendo que eu não tenho nenhuma simpatia ou afinidade. Como criar uma análise que, de certa forma não venha fortalecer politicamente o movimento pentecostal no campo político? 

 

Mas, ao mesmo tempo possa ser levado a sério os evangélicos dentro da sua pluralidade, que são em sua maioria pobres e negros? Ou seja, minha posicionalidade e o campo da pesquisa perpassa por uma ordem política contemporânea. Esses pontos levantados, são interessantes, no sentido, de tentar compreender um movimento religioso pentecostal que tem impulsionado a sociedade brasileira a transformações, no campo político e nos pontos referentes no sistema-simbólico-religioso. 

 

De acordo com o artigo do VIVEIROS DE CASTRO (2012)² a transformação da transformação é o deslocamento de ordens epistemológicas, temáticas e teóricas que perpassou e perpassa a antropologia. A transformação da transformação que deveria ser incorporada pela antropologia igualmente era de ordem de produção, ou seja, porquê não começar a descolonização da antropologia por quem faz a antropologia, ou seja, pode o subalterno (“objeto”) fazer antropologia? Assim, como colocado por (MIGNOLO, 2010, p.17) “la noción de desprendimiento guía el vuelco epistémico decolonial hacia una universalidad-otra, es decir, hacia la pluriversalidad”³, assim el desprendimiento é um movimento no processo de descolonizar o conhecimento, logo, porque não levar a sério as produções dos subalternos, por quê não se trabalhar e citar os trabalhos dos subalternos?

 

 

Cleiton de Jesus Rocha é mestrando Pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGAS UFRGS; Pesquisador no Núcleo de Estudos de Religião – NER e licenciado em Sociologia Pela Universidade Federal do Amapá -UNIFAP


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Notas:

[1] FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983. 

[2] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Transformação na antropologia e transformação da antropologia. Revista Mana. abril 2012. P 151 a 171.

[3] “A noção de desprendimento guia a reviravolta epistêmica decolonial em uma direção de universalidade-outra, assim um movimento de pluriversalidade.” Tradução do autor MIGNOLO, Walter. Desobediência Epistêmica: retórica de la modernidade. Lógica de la Colonialidad y Gramática de la Descolonialidad. Buenos Aires, Ediciones del Signo, 2010.

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