Um humor cubano?
Quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Um humor cubano?

Imagens: Reprodução Internet – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Rodrigo Veloso Silva

 

A piada não é essa, mas em 2020, o Governo Federal usou sua comunicação oficial para hostilizar um comediante.

 

 

As imitações de Marcelo Adnet são referência no contexto político desde 2018, ano em que tutorial dos candidatos[1], foi um dos poucos alívios cômicos dessa eleição tão turbulenta. Nesse contexto, o comediante afirmou ter recebido diversas ameaças, uma tentativa de “censura”. Contudo, a novidade é que um canal oficial de comunicação do Governo resolveu tecer a represália.

 

Em entrevista[2] (ainda em 2018), Adnet falou sobre esses ataques às imitações, e a resposta hoje soa quase como um prenúncio:

 

“Acho que a censura como a gente conheceu no passado é difícil. Isso geraria uma reação muito grande da sociedade civil. Mas agora há uma censura diferente, como a que está sendo feita comigo. Tentativas de intimidação, coerção e ameaças são uma forma de censura. Fiz um número de comédia e fui ameaçado de morte por mais de uma pessoa. Essa censura é uma realidade. As pessoas estão sendo agredidas ou morrendo nas ruas, assassinadas por sua posição política. Não é que em 1º de janeiro vai virar. O Brasil já está numa situação de ameaça grande à democracia. Parece uma coisa incontrolável, há uma vontade de sair dando tiro na cara dos outros. Há uma ideia de se armar para matar pessoas que cometem crimes. Há uma luta dos cidadãos de bem contra as pessoas do mal. É uma simplificação grotesca da sociedade brasileira”.

 

O humor, em sua essência tem diversas funções sociais. Fato é, a obviedade da constatação que ele pode ser crítico, sarcástico e questionar o status quo pelo exagero, tornando assuntos “complexos” risíveis.

 

O irônico, é que semanas antes desse episódio, Marcelo Tas perguntou a Adnet, no Programa Roda Viva, se seu posicionamento político não interferiria na sua carreira de comediante. Como se as ações humanas tivessem que ser sempre isentas, imparciais para que fossem genuínas ou tivessem qualidade.[3]

 

Fechando com chave de ouro a pergunta de Tas, ele questiona sobre comediantes em Cuba e China e afirma que eles não existem nesses países. Uma redução clara e talvez resultado de nossa consciência política, que prefere levar todos os pontos ao seu extremo para compreendê-los, ou atacá-los.

 

Para aqueles com memória falha como a de Marcelo Tas, é preciso lembrar: Antes de a Venezuela ser um exemplo a não ser seguido, o foco era Cuba. Em meados de 2014, qualquer coisa que possuísse um viés progressista, ou taxado como esquerda, era refutado com um “vai pra Cuba!”. A frase imperativa era mais que um insulto, soava como uma praga. O anti-petismo ficava cada vez mais claro e o conceito deturpado de comunismo se propalava exponencialmente.

 

Faz se necessário lembrar também de como Tas ganhou destaque. O programa CQC ficou sob seu comando durante anos, e sempre trouxe notícias com cunho político. O programa deu destaque ao parlamentar Bolsonaro, e um de seus ex-integrantes, Rafinha Bastos fez a mea culpa[4], pelo programa ter divulgado e ganhado ibope com a ascensão de Bolsonaro. Vale a pena citar aqui o artigo de Maurício Stycer:

 

“Não estou dizendo que Bolsonaro seguiu as regras e lições de Roger Stone. Mas, intuitivamente, levou adiante várias delas. Compreendeu que “CQC” e “Superpop” entre outros, lucravam (pontos no Ibope) com a exibição de suas ideias consideradas ultrajantes e não parou de repeti-las na TV. Apostou no papel de anti-sistema, reproduziu fake news (o “kit gay”, por exemplo) e nunca fez questão de parecer bonzinho. Raramente foi confrontado nestes programas. E quando foi, o objetivo era apenas elevar a temperatura da polêmica, e não esclarecer qualquer coisa. Foi um casamento perfeito.”[5]

 

Vale lembrar que o CQC também apresentou ao Brasil um humorista que já agradou ao Presidente, fazendo até mesmo papel de cabo eleitoral, e hoje parecem não ter tanta afinidade: Danilo Gentilli, um dos grandes pregadores do “politicamente incorreto”. E para que não restem dúvidas sobre a expressão:

 

“Em síntese, a cultura de esquerda é politicamente correta, e é produzida e legitimada pela universidade, e a da direita é politicamente incorreta, precisando de outra instância de legitimação, já que a universidade está tomada pelo pensamento crítico. Daí o politicamente incorreto estar marcado pelo signo da revolta, sendo atraente para jovens que tomam o anti-intelectualismo como sinônimo de um pensamento que se volta”.[6]

 

A campanha Bolsonarista surfou na comicidade de sua candidatura, apropriou-se da vontade intensa de Ibope pela imprensa e trouxe esse conceito de politicamente incorreto para próximo de si. Vale lembrar de outro comediante que agrada ao Governo: Márvio Lúcio, que parodiou Bolsonaro enquanto ele se esquivava de perguntas sobre a queda do PIB brasileiro, fazendo o comediante oferecer bananas à imprensa.[7]

 

O apelido de “mito”, por exemplo parece ter ganhado força com o comediante:

 

“Da mesma forma, não se incomodou com a paródia que Márvio Lúcio, o Carioca, fez dele no “Pânico”. Ao contrário, entendeu claramente que a piada com o “Mito” revertia a seu favor, numa prova, como diz Stone, que entretenimento e política caminham de mãos dadas em alguns circuitos. ”[5]

 

Atualmente, alguns confundem a imprensa “imparcial” com assessoria, confundem o humor livre e crítico com aquele que é leniente e pró-governo. Confundem uma sátira com ataque pessoal, como bem demonstrou o secretário de cultura em suas redes sociais.[8]

 

Nesse interim, o humor cubano seria como Marcelo Tas tentou sugerir a Adnet, um humor censurado, controlado. O que é ou não engraçado fica a cargo do Governo, seria um humor “autorizado”, subserviente. Porém, é difícil esperar algo de um Governo que não compreende conceitos básicos e direciona críticas e ataques a indivíduos a partir de piadas.

 

 

Rodrigo Veloso Silva é acadêmico de direito na Universidade Estadual de Montes Claros.


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Notas:

[1] Tutorial dos candidatos, por Marcelo Adnet. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vW7WCQLKyPE&list=PLEWpSGR4paOo3JiojHxGupSO6Ma6U1iez.

[2] ISTOE. Fazer humor ficou mais perigoso. Disponível em: https://istoe.com.br/fazer-humor-ficou-mais-perigoso/. Acesso em 11 de setembro de 2020.

[3] FOLHAUOL. Marcelo Tas rouba protagonismo de Adnet na repercussão do Roda Viva. Disponível em: https://telepadi.folha.uol.com.br/involuntariamente-marcelo-tas-rouba-protagonismo-de-adnet-na-repercussao-do-roda-viva/. Acesso em 11 de setembro de 2020

[4] O Bolsonaro é culpa do CQC! Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lREZJreTc4c. Acesso em: 11 de setembro de 2020

[5] Maurício Stycer. Qual foi o papel de CQC, Superpop e Pânico na popularização de Bolsonaro. Disponível em: https://tvefamosos.uol.com.br/blog/mauriciostycer/2018/10/29/qual-foi-o-papel-de-cqc-superpop-e-panico-na-popularizacao-de-bolsonaro/. Acesso em 11 de setembro de 2020.

[6] Josnei Di Carlo e João Kamradt. Bolsonaro e a Cultura do Politicamente Incorreto na Política Brasileira. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/TeoriaeCultura/article/view/12431. Acesso em 11 de setembro de 2020.

[7] OTEMPO. Bolsonaro coloca humorista para distribuir bananas a jornalista. Disponível em: https://www.otempo.com.br/politica/bolsonaro-coloca-humorista-para-distribuir-bananas-a-jornalista-veja-o-video-1.2305812. Acesso em 11 de setembro de 2020

[8] OGLOBO. Mario Frias se irrita com imitação de Adnet e ofende ator nas redes: ‘Bobão’. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/mario-frias-se-irrita-com-imitacao-de-adnet-ofende-ator-nas-redes-bobao-24625688. Acesso em 11 de setembro de 2020.

Quarta-feira, 16 de setembro de 2020
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