“Mudar o país com as próprias mãos e lutar por dias melhores”
Quinta-feira, 17 de setembro de 2020

“Mudar o país com as próprias mãos e lutar por dias melhores”

Imagem: Asael Peña / Unsplash

 

 

Por Maurício Henrique Smith Freire Lé e Tássio Santos Silva

 

Há de se pensar que tal qual a fábula da Verdade Saindo do Poço, o Brasil vive hoje um momento parecido com o cenário pintado por Jean-Léon Gerôme em 1896. O Corona que a princípio demonstrava apresentar baixo nível de letalidade, insurge das mazelas adormecidas do mundo trazendo consigo arautos esquecidos de uma humanidade em vias de ensaio. Com o exponencial crescimento de mortes no Brasil pela doença, discute-se a disposição da população para enxergar verdades nuas e cruas, ou continuarem como Narcisos achando feio o que não é espelho, ou melhor, dinheiro. Os esquecidos do porão estendem suas vozes na esperança de que seus lamentos sejam ouvidos ante às falsas promessas de um capitalismo utópico, enquanto o preço dos corpos se molda pela rentabilidade do clube de sádicos stakeholders fascinados pela globalização perversa.

 

A similaridade entre o Corona e o conto de fadas dos irmãos Grimm, certamente faz pensar se as disfuncionalidades de uma sociedade desigual foram outrora mensageiras de um mal por vir. Certamente uma carapuça haverá de travestir-se, tão logo, uma cuca para racionar e repensar – se não, tarde demais – acerca das estruturas doentias que pregam um estilo de vida moderno rapineiro e insustentável, em um sistema autodestrutivo onde consumir é parâmetro para existir.

 

A 8ª economia do mundo, dona de um dos maiores PIBs da ordem mundial econômica, sustenta sob sua face uma desigualdade social orquestrada historicamente. Vírus mortais rememoram um Brasil entre muros físicos e simbólicos, subserviente às mazelas urbanas, à fome, à precariedade e a exploração trabalhista. O desemprego atinge 11,9% milhões de pessoas, e a taxa da informalidade chega aos 40,7% dos empregados no país: índices que por sua vez não dialogam para com a possibilidade de manter-se saudável em plena quarentena. Não para as maiorias ironicamente transformadas em minorias pela ordem social dominante. Ficar em casa é um luxo, e manter-se afastado é virtude para os deuses do Olimpo dentro de seus apartamentos estocados, espaçosos e munidos pelos necessários aparatos de sobrevivência. Segundo dados do IBGE (2016), o Brasil tem cerca de 11,4 milhões de pessoas vivendo em favelas – chamados de aglomerados subnormais – e que por sua vez, operam na normalidade sob os morros tropicais. Subnormalidade esta que se traduz na linguagem dos cotidianos intransponíveis encontrados nos ônibus lotados, no cativo ao trabalho, na subsunção ao capital, nos meandros urbanos e num açoite que conta com a cegueira de Deus e a fixação do diabo.

 

A partir do golpe de 2016 contra a democraticamente eleita presidenta Dilma Roussef iniciamos um quadro de entrevistas com verdadeiros vampiros da potência nacional. Como um grande cavalo-de-tróia verde e amarelo, escrito “democracia” com cinzas da Constituição e sangue de indígenas, quilombolas e favelados, no ápice do paradoxo, “o governo do povo” morre sem nunca ter existido com um discurso de promovê-lo. Diferente da flor do poema de Drummond[1], a pouca ascensão social proporcionadas por anos de políticas da estrela vermelha (portanto, automaticamente, comunista), não furou nem o nojo, nem o ódio das classes mais altas. A verdade é que nem o Carnaval, nem o Coronavírus podem ser iguais para todos, em um país que empresários lucram milhões por ano com entregadores de comida, de aplicativos, famintos, que por sua vez não são salvaguardados pelo discurso, contraditoriamente, contrahegemônico. Enquanto cientistas sociais e membros de partidos progressistas se contentam em escrever notas de repúdio e debater com seus reflexos, sempre em suas zonas de confortos, esquecem-se que compaixão, vem de pathos, que em grego, que significa sofrimento, compartilhar o sofrimento, inclusive com os desiguais e desprivilegiados. Sentados em suas pilhas de papéis de currículos lattes julgam quem acreditou nas ideias do outro lado, sendo que nunca se preocuparam em apresentar as suas. Fakenews são gratuitas.

 

Dentro de seus corredores do medo as mídias sociais operam como palcos de disseminação de ideias e profecias aterrorizantes. Se nunca, em nenhuma época, existiu uma geração tão bem (e tão mal) informada quanto a nossa, agora precisamos conviver com as incertezas dos piores dias melhores. Neste grande-bolão-às-cegas, estilo Bird Box[2], de como será o mundo pós-pandemia, gurus, historiadores e comediantes, que vão de Yuval Harari e Lilian Schwarz à Fábio Porchat fazem suas apostas. Alguns fazem referência à Hobsbawm, juram que é assim que nascerá o século XXI, com um evento marcante, soluços e um “novo normal”. Enquanto, no agora, médicos e profissionais da saúde através de meios possíveis e impossíveis (telemedicina) puxam para baixo a curva de casos confirmados que tende a subir. Ações populares fazem jus ao bordão “nós por nós” e se fazem presente onde quem deveria não se faz, promovem brigadas, limpam as ruas por conta própria, organizam ações coletivas de ajuda a moradores de rua. Cientistas recém-condenados à fogueira, em tempos de terraplanistas, tem a missão secular de produzir uma vacina em tempo recorde e, nós, torcer para que ela seja acessível, universal, sem patentes, sem fronteiras e sem todas as outras coisas que só existe em acordos jurídicos e políticos (leiam-se papéis) com a finalidade de segregar.

 

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Um novo mundo está em gestação, e não se sabe ainda os porvires que acompanharão as asas lúgubres deste corvo de Poe[3]. Segundo o relatório da Foreign Police: o descaso das organizações internacionais bem como dos governos, principalmente o brasileiro, vigora o nascimento de um embrião obcecado pelo realismo defensivo, por um nacionalismo burro em vias de fascismo, pela hiper-coisificação dos trabalhadores e pela descartabilidade de corpos inúteis aos novos ditames do capitalismo pós-pandemia. Há tempos, todo favelado anda se enroupando de Oz, para lutar contra criminalização da pobreza, a fome e agora o covid-19. 

 

Desconfia-se se esta fratura patológica promoverá uma ruptura no nascedouro do atual sistema produtivo e societal. Mas agora ouve-se apenas o estrondo impotente das estirpes deixadas à sua própria sorte sem fortuna, onde o crescimento de casos não é manobra do acaso, mas uma consequência de decisões governamentais – e quase que, diferente da cloroquina, prescrita.

 

Do alto do cume do bairro da Graça[4], ricos em suas torres feitas de papel higiênico e usura, ignoram os amontoados de corpos sem sobrenome e capital, em vias do grau zero de revolução. A pobreza sem precedentes e o acesso desigual à bens e serviços, desmascaram o mito da democracia liberal pondo em jogo a ebulição da luta de classes. A espoliação urbana deflagra-se permitindo esquemas e constituições outrora esquecidas. No país bonito e tropical de Jorge Ben Jor, Deus é vendido aos mais pobres e a natureza aos mais ricos. Os caixões da cidade de Bacurau[5] estremecem suas superfícies amadeiradas e o acertar de contas incita a subversão e gritos anunciadores de uma possível guerra civil. Não se sabe até quando os desprovidos se manterão nos estoques das vitrinas da hedonista sociedade de consumo. 

 

O imaginário tupiniquim recalcado no seio do ornitorrinco brasileiro subleva o paradoxo da 4ª pessoa incorporado pela diáspora amedrontada com os mitos e verdades da conveniência neoliberal ao qual demonstra-se insuficiente para lidar com as demandas que tratam-se de vidas e não de números. Vistos como “os ninguéns” do conto de Eduardo Galeano[6], “(…) não são seres humanos, são recursos humanos. (…) não têm cara, têm braços. (…) não têm nome, têm número”. São vidas que constroem postos, fábricas, portos, casas, escolas, hospitais, fazendas, conglomerados econômicas e bancos, mas ainda assim atém-se ao paradigma da obsolescência programada: não valem nem o quanto produzem.

 

Para que a vida não seja pouca, fita-se o muito das utopias. E para tanto, diagnósticos depressivos não valem de nada senão quando preconizadores de alternativas sistemáticas de enfrentamento. A literatura é larga e muito rica em contra-racionalidades que narram caminhos aparentemente melhores até mesmo do que os de Javé[7].  Desde as prerrogativas do movimento anti-cap até os princípios da economia solidária, Mujica e outras figuras públicas apregoam a necessidade de superação do atual modelo de produção hiperprodutivista e hiperconsumista. Quem sabe um sistema eco-socialismo-feminista-e-antirracista, como propõe Boaventura de Sousa Santos, incluir as diferenças e ultrapassar os mecanismos da necropolítica e do darwinismo social, desconstruindo conceitos que não funcionam na prática, como liberdade de mercado, meritocracia, democracia e igualdade, em um sistema em que poder econômico significa poder político. O lado de cá, que segue como um quebra-cabeças de um zilhão de peças – enquanto o outro lado segue utilizando umas das táticas de guerra mais antigas que existe (divide et impera) – precisa não só se unir, como uma grande drusa contra os podres poderes, mas também se reinventar. Como afirma Enrique Dussel o ego cogito necessita desgarrar-se do ego conquiro para a superação da política rotineira do ressentimento propagadora do individualismo personalista que abandona a ideia de solidariedade humana e abraça a competitividade animalesca sem precedentes. A decadência do homem público de Richard Sennett tem de regressar reanimando imperativos categóricos que se adequem ao póstero bem-viver universal. Consiste no ato otimista e pragmático de escrever novos capítulos sobre o firmamento e dar boas respostas a Nelson Rodrigues sobre como a vida pode ser, indo além do que ela já é.

 

É hora de reverter esta balança e inverter a política de relacionamento entre sociedade civil e governo, lançando mão à Chico de Oliveira. Chega a hora de se mudar o país com as próprias mãos, chega o momento dos ricos repensarem sobre a opulência de seus privilégios, a classe média sobre a iniquidade de sua inobservância, e quanto aos pobres, fazer o que sempre fizeram: lutar por dias melhores.

 

 

Maurício Henrique Smith Freire Lé é bacharel Interdisciplinar em Humanidades pelo Instituição de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia; Graduando em Administração – Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia EAUFBA, pesquisador do grupo de pesquisa Qualidade do Ambiente Urbano em Salvador (QUALISALVADOR).

 

Tássio Santos Silva é bacharel Interdisciplinar em Humanidades pelo Instituição de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia; Graduando em Direito – Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (FDUFBA); pesquisador do grupo de pesquisa Qualidade do Ambiente Urbano em Salvador (QUALISALVADOR).


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Notas:

[1] Poema “A Flor e a náusea” de Carlos Drummond de Andrade.

[2] Filme “Bird Box” lançado em 2018, dirigido por Susanne Bier.

[3] Poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe.

[4] Bairro de classe média alta em Salvador, Bahia.

[5] Filme “Bacurau”, lançado em 2019 dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

[6] Eduardo Galeano em “O Livro dos Abraços” (1989).

[7] Filme “Narradores de Javé” lançado em 2004 dirigido por Eliane Caffé.

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