Os Guardas de Crivella
Sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Os Guardas de Crivella

BG: Collectie Nederland – Imagem: Antonio Cruz / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Luís Delcides R Silva

 

Intimidação, agressão , gritaria , censura a TV Globo e manipulação de cidadãos humildes e irritados com a situação caótica no serviço público do Rio de Janeiro

 

 

O título é uma alusão a uma passagem bíblica encontrada no primeiro livro das Crônicas , capítulo 9[1], e conta a história dos guardas das portas da entrada da Tenda do Encontro e no texto bíblico há uma imensa descrição de cada guardião, com as suas respectivas funções e as localidades de cada uma das saídas e  dos materiais acondicionados em cada um dos recintos da referida Tenda.

 

Esta breve descrição é para relatar o feito do Rei Salomão ( 970 – 931 a.C) ao listar os nomes e suas ocupações. Trocando em miúdos, é uma espécie de Portal do período Hebreu. Mas, em 2020, em terras tropicais, no continente Sul Americano, encontra-se um Prefeito,  Cristão, religioso e que também tem os seus Guardiões. Só que estes com funções totalmente diferentes dos Guardiões das Portas da Tenda do Encontro do Povo Hebreu.

 

Os Guardiões tupiniquins, ou melhor: os “Guardiões do Crivella” intimidam a imprensa, peitam jornalistas e ficam raivosos quando veem câmeras, microfones, bloquinho e caneta. Ah, se avistam um microfone com a marca da Rede Globo, a raiva toma conta a ponto de estes seres atrapalharem o trabalho de quem transmite a informação em tempo real. Sem contar os xingamentos e os gritos de “Globo Lixo!”. 

 

De acordo com o site G1[2] , os tais “Guardiões” não se identificavam como funcionários públicos ao abordar pacientes e repórteres e faziam plantão na porta de hospitais municipais da Capital Fluminense para intimidar usuários e repórteres sem crachá funcional.  Um dos “Guardiões”, sem saber que estava sendo filmado, adentrou nas dependências de uma unidade de saúde e colocou o crachá visível para todas as pessoas.

 

Conforme as informações mencionadas na referida matéria acima mencionada, trata-se de uma organização montada com funcionários da prefeitura, recebem salários do contribuinte  e funciona nos grupos de Whatsapp com escalas diárias, horários rígidos e ameaças de demissão. Para agravar a situação, a alta cúpula governamental também estava presente em um dos grupos onde foi localizado o telefone do Prefeito Marcelo Crivella em um dos grupos e este parabenizava os seus subordinados pelas ações feitas em frente aos hospitais municipais cariocas.

 

Guardiões na Educação 

Ao fazer um levantamento no portal UOL[3] a atuação dos Guardiões de Crivella está em grupos de mães de alunos de uma escola municipal e em grupos de expositores de feira artesanal e um dos integrantes do grupo descobriu que uma das mães arrolada em um dos grupos não tinha sequer filho matriculado na unidade escolar.

 

A “mãe”, de acordo com as informações do portal, ganha R$ 6,6 mil reais por mês brutos da prefeitura para atuar a favor do prefeito. Ou seja, conforme as palavras da Vereadora do Rio,  Teresa Bergher (CIDADANIA), o prefeito criou uma milícia de cabos eleitorais para impedir criticas a sua gestão, pagos com dinheiro público. 

 

Os “Guardiões” também atuam em feiras culturais e ainda as controlam onde expositores precisam pagar R$ 135,00 para participar da feira. A feira da Tijuca foi autorizada e cancelada na quinta-feira.

 

Manipulação Guardiã

Outra matéria do portal UOL[4] faz menção a atuação dos Guardiões em outros eventos, especialmente a entrega de cestas básicas e participação em inaugurações. Quando o grupo esteve – de acordo com as informações originárias do grupo de Whatsapp – em entregas de cestas básicas aos alunos da rede pública e seus membros tentavam convencer as pessoas a elogiarem a ação.

 

O grupo também ia para inauguração de obras, manifestações convocadas pelo prefeito e ir pra igreja. Mesmo se o guardião não tivesse um credo religioso, era obrigado a frequentar o evento por causa da presença da autoridade municipal.

 

Leia também:

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O que diz o prefeito?

Em matéria no portal do jornal O DIA[5] o Prefeito Marcelo Crivella inicia a sua resposta no ataque a Rede Globo ao dizer que ela age como um partido politico de oposição, que divulga notícias falsas e os cidadãos apenas comparece para orientar e esclarecer os funcionários ao evitar as falsas informações proferidas pela Globo com algum risco de morte. 

 

O alcaide carioca ainda é enfático ao dizer que as acusações não cabem a ele e também não é responsável pelo constrangimento sofrido pelas Organizações Globo por suas reportagens e diz: “Vou governar até o último dia, pautado pelo sagrado interesse do povo, sem recuar, sem me agachar e sem temer”.

 

A luz da Lei 

Um dos princípios fundamentais e basilares da Constituição está posto no artigo 1ª, inciso II:

 

II – a cidadania;

 

Portanto, não cabe os “Guardiões” os “anjos protetores” do alcaide fluminense protegerem das criticas, blindá-lo de possíveis reclamações dos cidadãos e estes, ao verem repórteres nas ruas e quando são abordados, expõe a real situação vivenciada no serviço utilizado – seja de saúde, educação e arte.

 

Ao mencionar Antonin Artaud[6]

 

…” As palavras tem ou não seu poder de ilusão. Elas tem seu valor próprio… (…) Uma espécie de solenidade dolorosa se desprende de todos os movimentos. Pouco a pouco o circulo se fecha. Estes movimentos, que pareciam a primeira vista gratuitos, pouco a pouco o seu alvo se desdenha, aparece…” 

 

Logo, não faz sentido manipular, iludir pessoas. Não basta fechar o cerco e colocar um veículo de comunicação como inimigo da sociedade, a ponto de usar sofismas para convencer um cidadão simples, de pouca instrução e dizer sem a mínima propriedade que a emissora Globo é a TV Funerária, como declarou o próprio Presidente da República em uma das suas falas no “chiqueirinho” do Alvorada e essa forma grotesca de julgamento é bastante presente nos simpatizantes e nos seguidores religiosos de Marcelo Crivella.

 

Ao olhar para a letra da Lei, há o art. 5º, inciso VIII, da Constituição Federal: 

 

VIII – Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou politica, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se  a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

 

Ademais, o inciso XIII, da referida Carta Magna: 

 

XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, oficio ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

 

Portanto, não cabe aos Guardiões blindar um representante eleito pelo povo por este ter o dever de prestar informações, zelar e responder pelos danos causados a terceiros, conforme está no art. 37, §8º  e ferir a livre manifestação do pensamento, criação e expressão, conforme está no art. 220 , ambos da Constituição Federal.

 

 

Luís Delcides R Silva é estudante de Direito pela FMU, Pós-graduado “lato sensu” em Marketing e Comunicação Integrada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie,  Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela FIAM/FAAM, Jornalista. 


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Notas:

[1] Biblia on line, NVI. Disponível em: < https://www.bibliaonline.com.br/nvi/1cr/9>. Acesso em 11 de setembro de 2020. 1 Crônicas 9:17-29: Os guardas das portas eram: Salum, o chefe, Acube, Talmom, Aimã e os irmãos deles, sendo até hoje
os guardas da porta do Rei, a leste. Salum era o chefe. Esses eram os guardas das portas que pertenciam ao acampamento dos levitas.
Salum, filho de Coré, neto de Ebiasafe e bisneto de Corá, e seus parentes, os coreítas, guardas das portas, responsáveis por guardar as entradas da Tenda, como os seus antepassados tinham sido responsáveis por guardar a entrada da habitação do Senhor.
Naquela época, Finéias, filho de Eleazar, estivera encarregado dos guardas das portas, e o Senhor estava com ele.
Zacarias, filho de Meselemias, era o guarda das portas da entrada da Tenda do Encontro.
A soma total dos escolhidos para serem guardas das portas, registrados nas genealogias dos seus povoados, era de 212. Eles haviam sido designados para esses postos de confiança por Davi e pelo vidente Samuel.
Eles e os seus descendentes foram encarregados de vigiar as portas do templo do Senhor, o templo chamado Tenda.
Os guardas vigiavam as portas nos quatro lados: norte, sul, leste e oeste.
Seus parentes, residentes em seus povoados, tinham que vir de tempos em tempos e trabalhar com eles por períodos de sete dias.
Mas os quatro principais guardas das portas, que eram levitas, receberam a responsabilidade de tomar conta das salas e da tesouraria do templo de Deus.
Eles passavam a noite perto do templo de Deus, pois tinham o dever de vigiá-la e de abrir as portas todas as manhãs.
Alguns levitas estavam encarregados dos utensílios utilizados no culto no templo; eles os contavam quando eram retirados e quando eram devolvidos.
Outros eram responsáveis pelos móveis e por todos os demais utensílios do santuário, bem como pela farinha, pelo vinho, pelo óleo, pelo incenso e pelas especiarias.

[2] G1 Rio. “Guardiões do Crivella” não se identificavam como funcionários da prefeitura ao abordar pacientes e repórteres. Rio De Janeiro, 03 de setembro de 2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/09/03/guardioes-do-crivella-nao-se-identificavam-como-funcionarios-da-prefeitura-ao-abordar-pacientes-e-reporteres.ghtml> Acesso em 11 de setembro de 2020.

[3] UOL. “Guardiões de Crivella” também atuavam na Educação e Feiras Artesanais. Santos, 07 de setembro de 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/09/07/guardioes-de-crivella-atuam-tambem-na-educacao-e-em-feiras-artesanais.htm > Acesso em 11 de setembro de 2020.

[4] UOL. ‘Guardiões’ também atuavam em outros eventos da agenda de Crivella , diz TV. Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/09/02/guardioes-tambem-atuavam-em-outros-eventos-da-agenda-de-crivella.htm Disponível em 11 de setembro de 2020.

[5] O DIA. “’Guardiões do Crivella”: Prefeito se manifesta pela primeira vez e ataca a Globo. Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2020. Disponível em: https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2020/09/5981928–guardioes-do-crivella—prefeito-se-manifesta-pela-primeira-vez-e-ataca-globo.html#foto=1 > Acesso em 11 de setembro de 2020. 

[6] ARTAUD, Antonin. Linguagem e Vida. Ed. _ . Editora Perspectiva. São Paulo, 1970. P. 30

Sexta-feira, 18 de setembro de 2020
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