Os Julgamentos de Bertrand Russell
Quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Os Julgamentos de Bertrand Russell

Imagem: Reprodução internet – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Francisco Kliemann a Campis

 

Preso duas vezes e impedido de lecionar em razão de suas ideias humanistas, Bertrand Russell nasceu em 1872 no país de Gales, e apesar de não ser ensinado nas escolas brasileiras, é considerado por muitos o maior filosofo do Século XX. Ele teve uma das vidas mais interessantes entre as grandes figuras da filosofia, órfão dos pais desde os 3 anos de idade foi criado pelos avós, a contragosto dos pais progressistas que -em caso de sua morte – queriam que o filho fosse criado por amigos em uma educação fora da religião.

 

O avô de Bertrand era o Lord John Russell, presidente da assembleia constituinte britânica de 1832, que mais tarde se tornou primeiro ministro da Grã-Bretanha. Os avós educaram-no em casa, o que significou uma educação aristocrática, conservadora e profundamente religiosa. Aos 11 anos apoiado por seu irmão se apaixonou pela matemática, a qual descreveu como sua principal fonte de alegria. Quando foi para Cambridge estudou primeiramente matemática e depois combinou-a com a filosofia, os estudos provenientes dessa reunião deram origem à um dos ramos mais estudados da filosofia contemporânea, a filosofia analítica.

 

Em 1950 ganhou o Nobel da literatura em “reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento”, sua produção filosófica que compreendeu diversos escritos como o “Principia Mathematica” em parceria com o matemático A. N. Whitehead, livro de difícil compreensão, mas que estabeleceu um avanço sem precedentes no entendimento humano das relações lógicas, nele Russell e Whitehead demonstram que a matemática podia ser reduzida para algumas poucas preposições lógicas, estabelecendo-a pela primeira vez como um ramo da lógica. Seu primeiro livro de filosofia geral publicado em 1912, foi Os problemas da filosofia, que continha ideias originais provenientes do principia mathematica, mas que outrossim possuía uma linguagem mais acessível -como todas as suas obras posteriores- a iniciantes interessados no tema. 

 

Outras obras de destaque de Russell incluem Nosso conhecimento do mundo exterior como um campo para o método cientifico em filosofia (1914), A filosofia do atomismo lógico (1918), A análise da mente (1921), No que eu acredito(1925),  A análise da matéria (1927), Casamento e moral (1929), Elogio ao ócio (1935), Por que não sou cristão (1954). Em 1946 lançou aquele que considero o melhor livro de introdução à filosofia e aos grandes pensadores ocidentais, o seu História da filosofia ocidental, livro que pode ser dividido em três volumes, o primeiro falando sobre a filosofia antiga (Grega e romana), o segundo sobre filosofia católica e o terceiro sobre a filosofia moderna, começando por Maquiavel, passando por Hume, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche entre outros até chegar na sua filosofia da análise lógica. Em 1959 lançou a sua História do pensamento ocidental, com foco mais científico e compreendendo pensadores que se estabeleceram após a sua História da filosofia ocidental como o seu pupilo e um dos grandes filósofos do século XX, Ludwig Wittgenstein. Russell além de lançar e influenciar grandes mentes do século XX, como Wittgenstein e Keynes foi pioneiro ao resgatar e tornar de conhecimento público obras de grandes pensadores até então pouco conhecidos como Leibniz e Frege.

 

Crítico às ideias de Marx, por serem “Tão distantes quanto a segunda vinda (de Cristo) e com disposição a criarem guerras, ditaduras” (Russell, 1946. p.361) lecionou na China comunista e visitou a Rússia soviética, quando teve a oportunidade de conversar com Lenin, o qual descreveu como um sujeito simples, amigável, com uma excelente fluência em inglês, mas com uma grande disposição para estimular o ódio. Criticava o comunismo por, assim como as religiões, restringir as liberdades e criar uma cultura de crença no pecado e no castigo (Russell, 1925) 

 

“-O que o mundo precisa não é de dogma, mas de uma atitude de investigação científica, combinada à crença de que a tortura de Milhões de pessoas não é desejável, seja ela infligida por Stalin ou por uma divindade imaginada à semelhança dos que acreditam. (Russell, 2009, p. 175). 

 

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Mesmo sendo evidentemente contrário ao comunismo Russell era frequentemente acusado de ser comunista por seus opositores.

 

Já com certa idade teve amplitude na esfera pública internacional, em 1955 redigiu, com apoio de Albert Einstein, o Manifesto Russell-Einstein, alertando sobre os perigos da proliferação de armas de destruição em massa. Dois anos depois, em parceria com Józef Rotblat, fundou o movimento Pugwash que luta contra a proliferação de armas nucleares. Em 1962, já com noventa anos, mediou o conflito dos mísseis de Cuba para evitar que se desencadeasse um ataque militar.

 

A luta pela dignidade e os julgamentos de Russell

Agnóstico contrário a qualquer forma de religião, pacifista, defensor da igualdade de gênero e das liberdades sexuais, crítico ferrenho do colonialismo e racismo ocidental, Russell militou pelos direitos humanos e pela dignidade até o final de seus longevos quase 98 anos indo à praça pública para protestar, debater e criticar o que racionalmente entendia que estava errado na sociedade. O que levou a dizerem que Russell veio a ser o sucessor George Bernard Shawn no espaço público britânico. 

 

Sua filosofia moral possuía forte influência do racionalismo, dos avanços da ciência e da psicanálise, partia do princípio de que “a eficácia total de qualquer argumento ético reside em seu componente científico, isto é, na prova de que um tipo de conduta, mais do que qualquer outra, é o meio para alcançar a um fim amplamente desejado” (Russell, 2017, p.55)  Esse fim era frequentemente declarado por Russell, que em várias oportunidades disse que “Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade.” E o caminho para alcançá-lo era a liberdade, a eliminação das crenças e dos preconceitos através da análise minuciosa de suas razões. Sustentava que muitos dos problemas da humanidade poderiam ser eliminados por meio da educação não repressora que privilegiasse o desenvolvimento de impulsos criativos (como as habilidades artísticas, musicais e científicas) e que diminuísse impulsos que giram em torno da posse (Russell, 2013)

 

Russell afirmava de maneira irônica que o fato de uma opinião ser amplamente compartilhada não é nenhuma evidência de que não seja completamente absurda; de fato, tendo-se em vista a maioria da humanidade, é mais provável que uma opinião difundida seja tola do que sensata. Responder apenas à razão e defender seus ideais antirreligiosos, feministas e pacifistas lhe causou muitos problemas: o ativismo de Russell contra a participação britânica na Primeira Guerra Mundial levou-o a multas, perda de liberdade de circulação no Reino Unido e à não renovação de sua bolsa de estudos na Trinity College, Cambridge. Ele acabou sendo condenado à prisão em 1918 por interferir na política externa britânica -principalmente ao fato de ter argumentado que os britânicos deveriam ser cautelosos com o Exército dos Estados Unidos. Russell foi libertado depois de cumprir seis meses, mas foi ainda supervisionado de perto até o fim da guerra.

 

Foi proibido de lecionar na Universidade de Nova York em 1939, quando já colecionava uma enorme reputação no campo da filosofia e da polêmica. O juiz que o proibiu de lecionar, vetando uma decisão do conselho universitário, acatou os pedidos de uma reclamante que declarava que a sua filha que era estudante de outro curso da Universidade poderia vir a ser corrompida pelas doutrinas “imundas, imorais e lascivas” de Bertrand Russell que defendia a educação sexual de crianças, o direito ao divórcio e que as relações sexuais que não envolvessem filhos nem crianças deveriam ser vistas como um assunto puramente particular dos envolvidos. (Russell, 2009, p.195)

 

Com noventa anos de idade, em setembro de 1961 incitou a desobediência civil, participando e discursando em uma grande manifestação chamada contra o armamento nuclear chamada ban-the-bomb no Ministério da Defesa, motivo pelo qual foi condenado a prisão por 7 dias, mas a sentença foi logo anulada por conta de sua idade. Em toda a sua vida Russell sem se importar se ao ser julgado perderia cargos, pagaria multas, seria ameaçado de morte ou preso, desenvolveu sua luta pacífica pelo que acreditava ser o correto, inspirado pelo amor e guiado pelo conhecimento.

 

Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos.

-Bertrand Russell 

 

 

Francisco Kliemann Campis é pesquisador na área do Constitucionalismo contemporâneo com bolsa FAPERGS, Presidente do Diretório acadêmico de Direito da UNISC, Editor chefe do jornal acadêmico Habeas e Estudante do nono semestre de Direito da UNISC.


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Referências: 

1925, What I Believe, London: Bertrand Russell

1946, History of Western Philosophy, New York: Bertrand Russell

2013, Por que os homens vão à Guerra, São Paulo: Bertrand Russell

2009, Por que não sou Cristão, Porto Alegre : Bertrand Russell

2017, No que eu acredito, Porto Alegre : Bertrand Russell

 

Bibliografia: 

1967–1969, The Autobiography of Bertrand Russell, 3 vols., London

1999, História da Filosofia, São Paulo: Bryan Magee

2017, A conquista da Felicidade, São Paulo: Bertrand Russell

2017, História do pensamento ocidental, São Paulo: Bertrand Russell

Quinta-feira, 24 de setembro de 2020
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