Rafael Castilho: “Qualquer analista apressado irá dizer que a campanha Russomano irá desidratar”
Quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Rafael Castilho: “Qualquer analista apressado irá dizer que a campanha Russomano irá desidratar”

Imagem: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

 

Por Rafael Castilho

 

Cometerá um erro inicial decisivo quem fizer analises da eleição municipal para prefeito de São Paulo baseado somente na série histórica recente.

 

 

É preciso levar em conta as transformações ocorridas no eleitorado conservador. Esse eleitorado tem sido sacodido e virado do avesso, não somente pelas circunstâncias políticas que vêm mudando com alguma velocidade, mas também porque esse eleitorado é o mais afetado pelas inteligências de redes. Não que as outras fatias do eleitorado sejam imunes aos consensos construídos – de dentro pra fora ou de fora pra dentro – nas redes sociais. Mas se olharmos com alguma atenção os acontecimentos recentes e se formos minimamente observadores e pacientes, perceberemos que ele é mobilizado e atingido à ferro e fogo pelas redes sociais. Na verdade, certa fatia do eleitorado conservador é comido com farinha pelos gabinetes do ódio, que devem estar espalhados nos escritórios secretos do mundo.

 

Ao falar de eleitorado conservador, duas ou três eleições atrás na cidade de São Paulo, no imaginário estaria o morador do centro expandido, de classe média (para alta), preocupado com seu bem-estar nos limites do que cerca sua experiência urbana. Hoje é bem mais complexo.

 

Só agora, quase em outubro, o cenário começa a se assentar. Só agora vou me arriscar também a tentar entender o que pode acontecer. Começando pelo fim. Não quero ser precipitado em descartar o atual prefeito Bruno Covas. Mas é certo que ele terá que se revirar do avesso para ganhar essa eleição. Sua tarefa será especialmente difícil. Terá o maior arco de alianças, o maior tempo de tevê, a máquina na mão, mas tudo isso pode ser insuficiente.

 

Qualquer analista apressado irá dizer que ao longo da campanha Russomano irá desidratar, sofrerá um grande ataque, irá se confundir, tem telhado de vidro, não tem grande apoio partidário, nem tempo de eleição. Irá sucumbir.

 

Lembro bem quando participei de uma mesa de debates em março de 2018 e um analista de grife, com um sorriso satisfeito, me desacreditou quando eu disse que o Brasil estava prontinho para eleger o Bolsonaro e que a questão seria apenas o desempenho do próprio Bolsonaro. Ele se antecipou dizendo que o atual presidente iria desidratar e que certamente o Alckmin ocuparia seu lugar de direito no segundo turno.

 

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Não estou me desfazendo da análise do professor. À ocasião, a conclusão era mais do que razoável. Mas existem algumas peças nessa engrenagem que já não são iguais.

 

A questão não é necessariamente o Russomano, suas capacidades como candidato, seu partido ou tempo de tevê.

 

O PSDB ganhou imensa força no Estado de São Paulo (e como desdobramento com alcance nacional) se qualificando como catalizador do eleitorado antipetista. Lembrem-se, o PSDB não é originalmente um partido da direita conservadora, ao contrário, surgiu como um partido de centro ou de centro-esquerda, dependendo do entendimento. Porém, começou a vencer eleições em São Paulo (e perder também) no bojo da polarização com o PT.

 

O que ocorre hoje não é muito diferente do que ocorreu no final da década de 90, ou seja, uma canibalização de espaços políticos no campo conservador. Maluf, representante máximo desse eleitorado, verdade seja dita, até hoje amado por parte da população de São Paulo, foi defenestrado para a consolidação do PSDB como representante da direita e centro-direita paulista. Para não complicar demais a cabeça e não nos desgastarmos com os conceitos, tudo se resumiu durante as últimas décadas em ser o antipetismo. Muitas eleições foram ganhas, não só no município, mas no estado de São Paulo, com o PSDB se posicionando como antipetista. Nessa eleição em que o Dória precisou disputar segundo turno com um candidato que não era do PT, soube cavucar no imaginário do eleitorado paulista e transformar o Márcio França em “Márcio Cuba”. Dória se vestiu de “BolsoDória” e o resto da história vocês já conhecem.

 

As eleições em que o PSDB não participou do segundo turno na cidade de São Paulo foram justamente àquelas em que não conseguiu se qualificar como a candidatura antipetista. Em 1996, Serra ficou de fora do segundo turno que foi disputado por Celso Pitta (eleito) contra Erundina (PT). Em 2000, o PSDB que tinha Geraldo Alckmin como candidato, ficou de fora da disputa contra Marta Suplicy (PT), que foi eleita vencendo o Paulo Maluf. Em 2008, o PSDB mais uma vez ficou de fora. Alckmin, com todo nome já construído, ficou de fora do segundo turno que foi disputado (e vencido) por Kassab, contra Marta Suplicy (PT).

 

O PSDB foi eleito em São Paulo em 2004, com José Serra vencendo Marta Suplicy no segundo turno e João Dória em 2016 vencendo em primeiro turno. Em ambas as eleições, o PSDB se elegeu como oposição às gestões petistas na prefeitura de São Paulo.

 

Em resumo, Bruno Covas terá muitas dificuldades na eleição. Covas, assim como seu avô, nunca foi propriamente um político de direita. O candidato optou por concorrer declaradamente como um candidato de centro, defendendo inclusive o resgate do centro democrático na política, ideia inclusive que considero fundamental para que o país não mergulhe nas sombras do fascismo de uma vez.

 

Porém, até o momento, não há nenhuma sinalização de que o eleitorado esteja disposto a se movimentar para o centro. Pelo menos não até essa data.

 

Por que dessa vez Russomano tem chance?

 

Bruno Covas, além de uma gestão que não deixa nenhuma marca simbólica, tem um imenso calcanhar de Aquiles. A rejeição de João Dória. Seria meio caminho andado para Covas se essa rejeição ao nome do Governador partisse apenas do eleitorado “comunista bolivariano”. Mas a rejeição mais nociva vem do eleitorado Bolsonarista que vê o governador como um traidor.

 

Sim, nas redes irrigadas pelos múltiplos gabinetes do ódio, a palavra de ordem é arrancar o couro de Dória.

 

Como o tempo nos ensina a perder a ingenuidade, claro que não é somente a questão da “traição”. A política historicamente aceita bem algumas traições e desarranjos, desde que as circunstâncias exijam escolhas práticas. Mas o caso de Dória é mais complicado.

 

Assim como o PSDB abriu espaço na base do trator para arrancar o eleitorado conservador do malufismo, no atual momento estamos presenciando outro processo. O Bolsonarismo está eliminando, um a um, seus concorrentes no polo político de direita. Aniquilou Moro, depôs Witzel e vai pra cima de Dória. O concorrente de Bolsonaro hoje não é o Lula. O atual presidente até se anima com a possibilidade de uma nova polarização com o PT nas eleições. Um governo que não tem nada para entregar certamente procurará entreter a sociedade com esse embate entre o candidato de Deus e das famílias, contra o candidato do diabo e dos comunistas gays e drogados.

 

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Para não permitir que a esquerda ganhe na capital paulista, ameaçando as famílias cristãs e invadindo nossas vastas propriedades, o eleitorado bolsonarista (que está muito mais amarrado, marcado, chipado e encoleirado do que o eleitorado tucano) está em vias de procurar uma alternativa. É possível sim que Russomano se beneficie disso.

 

Quer dizer que Russomano irá ganhar? Não necessariamente. Quer dizer que Covas está fadado a ser derrotado? Também não, mas vai ser difícil e suado ganhar esse voto da direita chipada.

 

A grande surpresa? Toda essa disputa de foice (sem martelo) pelo eleitorado conservador que terá sua guerra particular no primeiro turno, dará fôlego e espaço para crescimento da candidatura Boulos.

 

Propositalmente deixei isso para o final.

 

Boulos irá surpreender e fará uma votação histórica. Querem saber se tem chance de vitória? É bem difícil. Mas não é impossível.

 

Boulos não terá a briga que estará ocorrendo na direita. Irá catalisar o eleitorado de esquerda na cidade. Ainda não é totalmente conhecido, mas já está partindo de bons números. Sua pauta é popular. Não é só um candidato de Vila Madalena. Será chamado de invasor de propriedades. Ora, alguém já viu essa cidade, historicamente cruel, com tanta gente morando debaixo da ponte, e com tantos outros trabalhadores ameaçados de ir para o relento?

 

Se Covas crescer e com ele crescer a ideia de uma alternativa de centro, Boulos fará sua votação respeitável e sairá bem do processo eleitoral.

 

Se a eleição for para os extremos, como tem ocorrido recentemente, Boulos pode ser segundo colocado e ir para um segundo-turno.

 

Se o segundo turno for contra Russomano, tudo pode acontecer.

 

 

Rafael Castilho é  sociólogo, pós graduado em Política e Relações internacionais e em Gestão Pública. É coordenador de projetos na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo FESPSP.

 


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