Desconstrução do pensamento chega pela literatura de mulheres negras
Segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Desconstrução do pensamento chega pela literatura de mulheres negras

Imagem: Acervo Lélia Gonzalez

 

Coluna da Rede Brasileira de Saberes Descoloniais

Por Fábio Borges do Rosario

 

Nossas cantoras–filósofas em pretuguês[1] deputam que somos herdeiros do legado imposto pelos colonizadores, mas que a desconstrução desta herança chega quando armados com o repertório que impuseram na expectativa de nos assimilar, gritamos Yatunde. A mãe África e a madre América nos fornecem a energia, o ase, a força emanada dos ancestrais que fundaram nossas cidades e aldeias e também de todos que com a vida resistiram à escravização e o extermínio de nossas etnias.

 

Quiçá, se lermos, ouvirmos, escrevermos e falarmos a partir das escrituras negras[2], as pessoas leitoras ou ouvintes – para além do que foi dito por alguns filósofos – perceberão como a língua portuguesa funcionou para os ewes, fons, yorubanos, benguelas, etc, como uma ferramentar etnopigmentar de reconstrução de suas vidas assombradas e destruídas pelo sequestro em terras africanas e transporte para as terras americanas, como construção de uma via de solidariedade no sofrimento e fraternidade que soçobrasse as antigas rivalidades étnicas e apontasse rotas de fuga tais como os quilombos ou outras formas de resistência; ou mesmo nos casos em que as diferenças étnicas não foram superadas, a língua funcionou como ferramenta aglutinadora das singularidades de uma mesma etnia para a formação de irmandades religiosas ou outras formas de resistência que serviam como propulsionadoras da solidariedade e fraternidade.

 

A língua, portanto, foi ressignificada e apropriada como arma de sobrevivência e resistência existencial e cultural, individual e coletiva – solicitando o idioma recebido violentamente do colonizador e disseminando-o como o pretuguês do samba, do jongo, da capoeira, do candomblé, da quimbanda, da umbanda, do batuque, dos quilombos, etc., nestes inúmeros acontecimentos garantidores da continuidade da vida e resistência a morte.

 

Nossa ancestralidade diante da morte ousou anunciar a urgência e emergência da desconstrução das instituições que eram criadas em nosso país. Inúmeras foram as denuncias que o nascente Estado-nação fundava-se no sofisma da superioridade pigmentar das etnias brancas e impulsionava a segregação, assimilação e extermínio das singularidades pretas e amarelas. A resistência as políticas assimilacionistas, segregacionistas e de extermínio ocorreram nas aldeias, nas senzalas, nos quilombos, nas favelas, nas periferias, etc.

 

A luta que empreenderam é narrada por nossas griots que conversam com seus fantasmas, seus espectros. Nossos mortos não retornam para obsidiar[3]. Antes, habitam nossas matas, encruzilhadas, rios, cachoeiras, pedreiras, etc., e os reconhecemos como caboclos, pretos-velhos, boiadeiros, exus, etc. Talvez, a relação que estabelecem ao conectar vivos e mortos depute o apelo pela confissão institucional dos crimes contra a humanidade que o país cometeu e ainda comete contra seus descendentes.

 

E os seus descendentes que não aceitam a assimilação é que anunciam que desconstrução chega quando se põe em questão a soberania da universidade ou do Estado-nação, isto é, ao conceito de soberania que remete não apenas ao direito internacional, aos limites do Estado-nação com sua pretensão de soberania, mas também a história da república que via discursos jurídicos-políticos consagrou a ideia do sujeito como cidadão soberano, livre e responsável na tomada de decisões.

 

Assumir a negritude é denunciar que o sujeito soberano foi confundido com o homem branco europeu, e que tal confusão obsidia a paridade na relação com as mulheres brancas e com as mulheres e homens negros, com as mulheres e homens amarelos, com as mulheres–trans e com os homens–trans, e etc.

 

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Quando descrevemos que a república atual é condicionada pelo racialismo e racismo étnico e pigmentar, assim como pelo sexismo e outras formas de opressão, queremos explicitar as aporias da sociedade ocidental, isto é, as encruzilhadas[4] que tangenciam as tomadas de decisão. E se os filósofos europeus tradicionalmente desconfiam das encruzilhadas, nós a reconhecemos como a morada de Bara.

 

Bara, Ogun, Matamba, Gongobila, Sobo, Nanã, isto é, Orisas, Voduns e Inkisses atravessaram o Atlântico junto com os seus súditos. Nestas paragens co-habitam matas, encruzilhadas, rios, cachoeiras, pedreiras com os caboclos, pretos-velhos, boiadeiros, exus, etc. Quiçá, anunciem que sempre ser herda mais de um legado quando diferentes etnias se unem na construção de uma república que tenha por horizonte a democracia por–vir, a hospitalidade in–condicional.

 

Elegbara rompe a relação espaço–tempo através da militância das pessoas negras na universidade e apela a desconstrução desta instituição quando transforma as experiências individuais ou coletivas das pessoas pretas brasileiras em objeto de pesquisa acadêmica, gesto que questiona a pretensa impessoalidade e neutralidade do cientista, assim como o distanciamento entre pesquisador e objeto. Talvez, estas pesquisas operem[5] uma antropologia que sem rejeitar a intelecção adote a compreensão, que não apenas relate sobre o outro, mas que compreenda, interaja, que aceite que ambos – pesquisador e pesquisado – estão em projeto.

 

Ou, estas obras ultrapassem a perspectiva dos filósofos europeus, quando destinam seu apelo por uma nova antropologia, por um novo olhar para o outro – o negro – aos homens brancos. As pessoas negras vivem o desvio e o deslocamento que o pensamento europeu apenas tateava, não basta mudar o olhar, é necessário que nós, os outros, assumamos as investigações que nos eram dirigidas e apontemos novas questões, um novo horizonte.

 

E como desconstruir a atual relação hostil? Como desconstruir os espaços formadores? Como desconstruir o pensamento? A desconstrução já está, já chegou, é o que chega, é o im-possível que chega apelando novas relações no país, novos acontecimentos.

 

As singularidades negras brasileiras cotidianamente deputam acontecimentos[6]. E, esperamos que os acontecimentos cheguem apelando à hospitalidade incondicional de todas e todos na sua différance. Deputamos com esta pesquisa solicitar a todas as pessoas no sentido que somente a desconstrução de nossa época é capaz encontrar no in–decidível, nas aporias da democracia liberal, no momento de decidir, de solicitar, deputar, apelar e ver chegar o imprevisto, o im-possível, o in-condicional, a democracia por–vir.

 

A democracia por–vir chega através das rodas de samba, nos quilombos, nas favelas, etc., quando as cantoras–filósofas e todas as demais griots anunciam a urgência da rasura entre a escola e universidade, quando reivindicam que suas escrituras funcionam como as forças extra-acadêmicas da desconstrução. Quando anunciam que a Universidade in-condicional não se confunde com a instituição universitária no sentido de recinto ou com a exemplar e representativa figura do professor, mas tem lugar e procura seu lugar onde o in-condicional, a invenção, o dom, o perdão, a hospitalidade, a justiça, a amizade, a desconstrução pode ser anunciada. Isto é, a desconstrução do pensamento é anunciada nas senzalas, aldeias, quilombos, favelas, periferias, rodas de samba, bailes funk, quimbandas, umbandas, candomblés, etc.

 

Quando reivindicamos a escuta e acolhida das escrituras negras, propomos nos situarmos nas margens da filosofia acadêmica e ousarmos vivenciar a inversão dos pares binômicos – potência X ausência, centro X periferia – operada pelas cantoras-filósofas Leci Brandão, Jovelina, Ivone Lara, Alcione, e outras quando anunciam que diante de qualquer ameaça de intolerância, violência ou ataque a dignidade da vida humana deve-se decidir pela defesa e acolhida da pessoa que as forças opressoras tentam subalternizar. Quando deputam novas relações humanas fundadas na amizade, na solidariedade, no dom, na justiça, etc. Isto é, enuncio que a desconstrução do pensamento no Brasil chega através da voz e na performance destas griots da hospitalidade in–condicional.

 

 

Fábio Borges do Rosario é mestre em Filosofia e Ensino. Professor de filosofia na Seeduc-RJ (lotado no Colégio Estadual Conselheiro Macedo Soares e no Ciep 415 Miguel de Cervantes). Pesquisador do Laboratório de Licenciatura e Pesquisa sobre o Ensino de Filosofia – UERJ. Pesquisador do Instituto Maria e João Aleixo (IMJA).


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Notas:

[1] Termo empregado por Lélia Gonzales (Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje. Anpocs, 1984. Disponível em https://goo.gl/VFdjdq acesso em 28/07/2018).

[2] GONZALEZ (Idem nota 2); RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017; SILVA, Joselina da et PEREIRA, Amauri Mendes (Orgs.). O movimento de mulheres negras: escritos sobre os sentidos de democracia e justiça social no Brasil. Belo Horizonte: Nandyala, 2014.

[3] Desviamos aqui da leitura cristã que nega aos fantasmas das etnias não-brancas a potência de enunciar discursos válidos ou verdadeiros e lhes imputam só proferirem o falso. Compreendemos que a proibição judaica, validada por confissões protestantes e pentecostais, de não comunicação com os mortos não implica atribuir a estes pertencerem a comunidade formada pelo diabo e anjos decaídos.

[4] Gaston Bachelard advoga que a filosofia encontra-se na encruzilhada entre o realismo e o racionalismo (BACHELARD, Gaston. O novo espírito científico. Tradução de Juvenal Hahne Júnior. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1968).

[5] Jean-Paul Sartre quando visitou o Brasil em 1960 conclamou por uma antropologia que sem rejeitar a intelecção adote a compreensão, que não apenas relate sobre o outro, mas que compreenda, interaja, que aceite que ambos – pesquisador e pesquisado – estão em projeto (SARTRE, Jean-Paul. Sartre no Brasil: a conferência de Araraquara; filosofia marxista e ideologia existencialista. Tradução Luiz Roberto Salinas Fortes. Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Paulo: Unesp, 1986).

[6] DERRIDA, Jacques. A universidade sem condição. Tradução Evando Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

Segunda-feira, 28 de setembro de 2020
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