As falácias dos discursos meritocráticos na atualidade
Terça-feira, 29 de setembro de 2020

As falácias dos discursos meritocráticos na atualidade

Ilustração: Toby Morris

 

 

Por Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira

 

Meritocracia é vocábulo composto por: merito-: diferenciação por alta qualidade pessoal; e -cracia: exercício de poder. No ambiente em que se aplica, informa que poderes são atribuídos conforme as mais altas qualidades pessoais, poderes pertinentes às grandes ações que desempenham. No sistema econômico capitalista, o termo ganhou significado próprio – os melhores são economicamente ativos, os excelentes são os ricos. Os piores são desempregados, e os deploráveis são os pobres. Uma miríade de qualidades possíveis restou reduzida a falácias lógicas da contradição e do terceiro excluído: pela falácia do mérito material, existem vencedores e perdedores, nada mais.

 

Seria possível discutir, exemplo a exemplo, questões como trabalho e conversão de valor do trabalho em números (poder de arbítrio sobre precificação de mão de obra), ou que também há elites de competências fundamentais (como em limpeza, alimentação, cuidados de saúde, educação básica), das quais quem está no topo depende diariamente, que são abstraídas de grande valor pelo materialismo capitalista, pela simplicidade e abundância de mão de obra. Também seria possível falar da vontade social de dinheiro e luxo, que é causa de males criminais particulares e públicos – buscar um atalho ilícito para enriquecer e gozar de luxo antes de morrer. Embora sejam abordagens relevantes, aqui se visa a discutir: (i) tipos de mérito: material e espiritual; (ii) indivíduo/povo digno de destaque de outros.

 

Comece-se com o seguinte questionamento: o que a população brasileira fez, em termos de trabalho intelectual/racional/técnico, para conceber tecnologias às quais têm acesso? Transportes, meios de comunicação, maquinário industrial, programas de computador, internet, redes de lazer. O que idealizamos/criamos disso tudo? Se nada influímos diretamente para a concepção de grandes coisas, de coisas excelentes, então por que temos mérito de vê-las, tê-las e usá-las? De outra forma, se uma pessoa nada contribuiu para a idealização, reunião de insumos, construção, teste e confirmação de um aparelho e tecnologias adjacentes, por que mereceria tê-los/usá-los?

 

A maior parte de produtos/serviços de mérito que nos cercam é de outras sociedades. O merecimento a tais coisas por nós se deve a uma representação de que o dinheiro que obtivemos nos dá mérito àquelas coisas engenhosas – uma transformação artificial de méritos. Como sociedades, somos grandes fazendeiros, pequenos e médios industriários, produtores de energias, de algumas commodities e prestadores de serviços (inclusive arte), de modo que só é possível crer que merecemos ter acesso a grandes ideias/produtos de outras sociedades porque querem e, de certa forma, nos vendem por necessidade ou oportunidade – não porque merecemos. Veja-se que juízos sobre mérito e venda costumam ser feitos quando vendedores, e parceiros, embargam economicamente sujeitos/países, mesmo que por razões diversas de mérito intelectual/racional/técnico pertinente – por divergência ética, política, religiosa, racial etc. Pararam de merecer as trocas de comércio por alguma diferença que leva à intransigência. Por exemplo, quando os EU embargam economicamente Cuba e Venezuela. Ou na absurda situação de locais com recusa a negros, judeus, chandalas, homossexuais etc. Quanto aos serviços, a simplicidade e a abundância do ofício invertem a ideia de mérito quanto à escolha de prestar ou não serviço – como são muitos, quem pode escolher é quem depende do serviço prestado, não quem o presta. Já alguém bastante qualificado, especializado, é raro, e pode até selecionar com quem lidar: o empregador eleitor se torna cliente elegível. Não obstante, não se exclui o fato de que, mesmo em abundância de mão de obra, o contratante depende do ordinário, e nada, em termos de pensamento, explica o fato de como algo ou algo/alguém extraordinário pode depender de coisas ou pessoas ordinárias para se sustentar onde está, senão uma exploração exportada de si. De maneira controversa, o suposto extraordinário pode até ser completamente ignorante nos assuntos ordinários dos quais depende e ainda assim parecer grande.

 

Um argumento estrito de mérito intelectual/racional/técnico comunicaria que uma sociedade meritosa manteria o monopólio de todas as vantagens para a comunidade excelente que esteve na linha de criação direta, não transformada artificialmente – mérito é para pessoas excelentes, que contribuíram para que uma grande obra fosse possível (como no argumento nacionalista americano vigente, que se funda na falácia do “povo”, vista mais a frente). Em outras palavras, pelo mérito material do pagar, pensamos, ficticiamente, pela ideia de suma liquidez do dinheiro, que se pode comprar praticamente tudo, embora não tenhamos o mérito intelectual/racional/técnico. Por uma linguagem jurídica, temos a propriedade cambiável mais líquida, mas não temos a propriedade intelectual – não conhecemos bem a causa de tal forma de propriedade, nem sempre podemos comprá-la e podemos não ter interesse na capacidade de desenvolvê-la. Compramos os produtos/serviços em dependência de saber remoto. Alguns até ousam desmerecer a causa da propriedade intelectual nacional – o que vem do ensino qualificado, da pesquisa universitária e da de particulares. Decerto são empreendimentos arriscados e seus lucros são alcançados em longo prazo, ou talvez nem sejam, se a pesquisa falhar, ou parar no meio do caminho por outro motivo. Por isso resta a impressão de que frutos do saber são inúteis para os que só veem à curta e, quiçá, à média distância. Isto é, mérito de saber não interessa muito àqueles que apenas têm como objetivo mérito material no curso da própria vida. Ainda mal sabemos o quanto poderíamos fazer no Brasil em termos de geração de empregos diversos e de mais qualidade material e de pensamento – o quanto podemos crescer intelectualmente/racionalmente/tecnicamente e repercussões disto.

 

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O que faz possível acreditar que alguém mereça acesso a algo por uma quantidade de dinheiro equivalente se pressupõe porque tal pessoa converteu seu trabalho em ajuda à sociedade em que vive, da maneira mais ampla que lhe foi possível – está no dinheiro o espírito de ter ajudado alguém da sociedade. Mas isto ainda não responde onde uma pessoa está localizada na linha de mérito diante dos inventores/criadores de algo excelente, fazendo com que mereça, como uma sócia, tal grande obra. Veja-se que se trata de um jeito indireto, de uma mera aparência. O mérito pessoal nem sempre se conecta com aquilo que é merecido, senão por uma fantasia, cujo fundamento dependeria exclusivamente de uma análise econômica, eliminada a análise filosófica/científica de uma sociedade. Em poucas palavras: há um mérito espiritual – intelecto, raciocínio, técnica; e há mérito material. Demonstra-se, porque é logicamente viável a combinação de que um esperto pode ter pouco e que alguém estúpido pode ter muito. Um tipo de mérito não está necessariamente ligado ao outro. Assim, uma elite material pode ser dada à estultícia e uma intelectual/racional/técnica, à modéstia. A questão é perceber quando a busca de mérito pelo ter se vê maior do que a do mérito por saber em uma sociedade dita excelente. A primeira falácia, aí, é a econômica. Como funciona: extrapola-se mérito material por sobre mérito intelectual/racional/técnico. O primeiro se disfarça do segundo, tomando aparência, apenas aparência, de ser todo o mérito existente. Às vezes, com mais audácia no intento de esconder a própria fraqueza de argumentos, o mérito do ter não se contenta em esconder o outro tipo, mas até tenta expulsá-lo da percepção social (desmerecimento de universidades, centros de técnica e pesquisa, de artistas, de filósofos críticos, de jornalistas críticos, de professores em geral). Por explicação bem simples, “elite” que se escandaliza com a ideia de competir com outras elites espirituais, mas adora, e se deleita, com oportunidades de competir com os mais fracos e deles desdenhar.

 

Acerca de pessoa com mérito (individualismo), se uma pessoa tem mérito, seria ao menos possível pensar em sua capacidade de atender a todas as necessidades próprias, isto é, ser dependente por voluntariedade, não por necessidade ou acidente. Quero dizer, pessoa que não deva a potência diária que tem a ninguém, senão por opção (dependência por opção). Informaria um perfeito meritocrata que, antes de mandar, é preciso ter percorrido o caminho do aprender e do saber/fazer. Quem nunca aprendeu algo, não é excelente em algo – não sabe otimamente o que faz, não pode mandar. Por exemplo, quem não cozinha com excelência, não poderia ser chefe de cozinha. Para se sair do circuito fechado do mérito espiritual, que é tão nocivo quanto aquele exclusivo do mérito material, é preciso esperar que alguém queira fornecer produto/serviço, ou tenha necessidade disso, justificada uma troca, um mercado, sem juízo de mérito a quem se entregam/prestam ou de quem se recebem/empregam. A ocorrência de interesses/necessidades comuns nos conduz aos argumentos do próximo parágrafo – individualismo em contraste com comunitarismo.

 

Acerca do indivíduo, seria preciso que o meritocrata individualista produzisse a própria comida e que a preparasse (ou, ao menos, que fosse capaz). Que fiasse tecido e costurasse as próprias roupas. Que fosse capaz de artesanato e engenho para produzir utensílios e moradia. Que lavasse e limpasse. Enfim, não é necessário seguir muito mais. O que se pretende expressar é que aquilo que se chama de “eu” é de fato “eus”. É um espaço-tempo ético, um nicho. É um amontoado de pessoas que alimentam, que alfaiatam, que produzem coisas e engenhos, que limpam, que dão segurança, que administram, se integrando ao “eu” como “eus”. O “eu”, assim, somente faz sentido enquanto um caco de fragmento ético, de diversos tamanhos, de múltiplas áreas, de uma sociedade gregária. O “eu” acaba, invariavelmente, se fundindo com o “outro”, para chegar a ser o que “é”. O “ter” se deduz da participação direta ou indireta de mérito por excelência. Se o mérito é intelectual/racional/técnico, o mérito material é direto (própria pessoa obtém material), ou se há uma comunidade de interesses/necessidades, trocas de mercado induzem ao mérito material indireto (pessoa obtém material por meio de outra). Em outras palavras, a ideia de uma sociedade se une, ao menos em parte, à de uma comunidade. Porque é visto que a união de pessoas de diversos méritos espirituais também se faz em benefício mútuo, comum. Do contrário, o “eu” social mais puro seria ser mais natural, talvez até o mais miserável, que, apesar de não depender absolutamente de ninguém, sobrevive quase que como numa situação selvagem, a fazer tudo por si. A marca do puro indivíduo excelente não é, portanto, maior riqueza, maior inteligência, melhor raciocínio ou técnica, mas estes e a solidão. O supervivente solitário seria o melhor adaptado por um argumento de mérito individual. Então fica fácil ver que o “eu”, individual, é uma transfiguração retórica, que se expande para camuflar uma vontade/necessidade comunitária. O individualismo meritocrata é um tipo de falácia, com uso extrapolado do “eu” – individualismo se estende por cima do comunitarismo, travestindo méritos de um grupo complexo como os do “eu”. Um indivíduo dependente, que por necessidade, não por opção, precisa inspecionar e aproveitar o que tem de comum com outros, portanto, não pode ser tão grande coisa o quanto se pensa. Se paga com bens, ainda deve em espírito. Se paga com espírito, só se comunica com sociedades por comunidades.

 

De toda essa percepção, não é preciso pesquisar muito mais fundo para notar, sucessivamente, que o desafio de um povo é perceber que se compõe de nichos – sociedades éticas (plural). Porque pela mesma estrutura de falácia usada no “eu” extrapolado como coberta sobre os “eus”, um “povo” é extrapolado como coberta sobre os “povos” que o integram. O processo para união é dialético e é duro – existe alguma comunidade humana além do sobreviver (artigos vitais materiais) e do viver bem (luxo material)? Daí, uma questão é perceber, para além de linguagens regressistas que recorrem à revolução francesa (esquerda e direita), à religião ou ciência (bem, mal, neutro), aos polos da guerra fria (comunista e capitalista), à economia (classes dominantes e dominadas), que o objetivo dos povos de uma nação é obter ambos os gêneros de mérito: intelectual/racional/técnico e máximo de domínio da própria vontade de troca dos produtos/serviços (produzir/servir de modo excelente e ter o poder de optar a quem disponibilizá-la ou de ninguém/quem recebê-los). A comunidade humana, assim, também tem item espiritual de mérito – o saber se conecta ao sobreviver (artigos vitais espirituais) e ao viver bem (progredir, ir além do luxo já conhecido).

 

Perora-se: (i) a meritocracia com fundamento exclusivo em recursos materiais é falaciosa, pois ignora o mérito intelectual, racional e técnico envolvido no processo – paga dívida pela matéria, mas não paga dívida pelo espírito. Faz parecer que, por se ter capacidade de compra, se passa a ter mérito a algo, quando nunca se esteva na linha da produção excelente, nem mesmo enquanto parte da sociedade que realizou o feito. Sequer se intenta tentar produzir algo igual, ou melhor, mas se contenta com exclusiva satisfação pessoal, individual, pelo mero consumo material no curso de uma vida; (ii) o individualismo é falacioso, um tipo de egoísmo que exclui do processo de mérito todo o time social de pessoas que possibilitaram a disposição dos insumos e organização do espaço e do tempo – a potência de se estar onde se está se deve a muitos outros, que integram a sociedade como uma grande equipe humana, ora mais ou ora menos comunitária; (iii) o mesmo tipo de falácia usada no individualismo é usada por na definição de povo, com a mesma formalidade de extrapolação por cima da pluralidade espiritual. O objetivo de algumas pessoas e povos excelentes parece ser exportar sua exploração, deixando a positividade em si e a negatividade no outro. Dessa forma, se faz parecer que a prosperidade da própria pessoa ou nação é apenas dela, obnubilando as pessoas e nações em que se apoia, as que explora. Para se ter mérito, seria preciso não ter dependência, ter controle (vontade, não necessidade) sobre importação/exportação de saber, produtos e serviços. Para se ter mérito excelente como um povo, seria preciso que cada cidadão fosse ilustre, de modo a não se ter dependência em nenhuma área. Como essa perfeição é difícil, senão impossível, de forma complementar, que este povo, em maioria ilustre, dependesse, em poucas áreas, da comunidade humana em geral. Aí, sim, se veria genuína competição por excelência quanto a ambos os tipos de mérito.

 

 

Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira é Mestre em Filosofia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS – UFRJ; Graduado em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito – UFRJ, título cum laude; Graduado em Comunicação Social, jornalismo, pela UNESA – Niterói.


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