A burrice como uma categoria humana em ascensão
Sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A burrice como uma categoria humana em ascensão

BG:  Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil – Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

Ao escrever um texto que tematiza a burrice, de plano já se poderia imaginar a prepotência do autor. Se o sujeito está apontando para uma direção e rotulando alguém como burro, este sujeito deve se considerar como detentor de uma sabedoria elevada ou, no mínimo, como alguém não-burro. No entanto, o que eu gostaria com esta curta reflexão é reconhecer a minha profunda ignorância sobre uma infinidade de assuntos. Quando se trata de química, geografia, metodologia de pesquisa em história, etc. (sendo o “etc.” um universo inteiro), sou um completo ignorante. Todavia, entre desconhecer um determinado tema e ser burro sobre um determinado tema há um abismo. Mas o que eu estaria chamando de burrice? 

 

Pois bem, ao tentar categorizar a burrice, estou me referindo precisamente à capacidade de alguns de não apenas opinar sobre temas que eles desconhecem profundamente, mas de negar a estes temas a sua complexidade. Neste sentido, não se trata de atribuir o rótulo de “burro” a todos aqueles que pensam de forma diferente. Ao contrário, pensar de forma diferente sobre um assunto complexo é algo que decorre da sua complexidade (desculpem a repetição, mas ela é necessária). 

 

Muitas são as reflexões sobre as causas da burrice na sociedade atual. Alguns dizem que se trata de um efeito das redes sociais onde se pode falar sobre tudo (quase) impunemente. Outros afirmam ser a burrice um efeito causado pela nossa organização social, que faz com que as pessoas, isoladas, sintam a necessidade de opinar sobre tudo e todos para se sentirem pertencentes. Mas gostaria de tratar deste tema sobre um outro viés, mais “consequencial” por assim dizer, apontando alguns de seus efeitos a partir alguns exemplos pontuais. Faço aqui mais uma advertência. Sobre estes exemplos, não tentarei esgotar os argumentos. Diferentemente desta pretensão, apenas gostaria de apontar que a realidade humana é um horizonte extremamente complexo e, como já mencionei, a burrica está precisamente em imaginar o contrário. 

 

Comecemos pela questão de alternativas para a redução da criminalidade. Mesmo não sendo especialista em segurança pública, defesa social, Direito Penal ou Criminologia, começaria dizendo que há grandes conhecedores do assunto que defendem uma política de tolerância zero. Não digo que concordo com esta linha, mas seus defensores apresentam um discurso bem articulado, coerente, empírica e metodologicamente embasado. Outros, que advogam por formas menos “incisivas” de enfrentamento da criminalidade, sustentam que o Direito Penal não deve ser utilizado para resolver questões sociais. Os crimes seriam um sintoma de problemas comunitários (como altas taxas de pessoas em situação de vulnerabilidade social, ausência de políticas públicas satisfatórias, etc.), não sua causa. E qual seria um modo “não inteligente” (e digo isso de forma eufemística) de se enfrentar a questão? Por meio da simplificação de algo complexo. E cito aqui alguns exemplos de discursos que vão neste sentido, analisando-os em seguida. 

 

“É só matar essa bandidagem”; “bandido bom é bandido morto”; ou “a pena de morte acabaria com a criminalidade. Tais discursos são “pouco inteligentes” pois desconsideram, em primeiro lugar, o que se pode chamar de “bandido”. Alguém que deixa de declarar um ganho à receita, por menor que seja, pode ser considerado um bandido? O “cidadão de bem” que chega dos EUA e não declara os artigos de luxo que trouxe, infringindo a lei, é um bandido? Aquele que se nega a dar passagem ao pedestre pode ser considerado um bandido? Os indivíduos que já baixaram músicas clandestinamente ou compraram produtos piratas cometeram “bandidagem”? Mereceriam o status de “bandido a ser morto”?

 

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“É só liberar o porte de arma que a bandidagem vai ficar com medo dos ‘cidadãos de bem’”. Este é uma das simplificações mais interessantes. Imagino que isso se deva ao fato de que o Presidente da República, um dos seus maiores defensores, foi roubado à mão armada. Até aqui tudo bem. Entretanto, ele estava armado e não apenas teve os seus pertences levados, como os “bandidos” também levaram a sua arma. E não nos esqueçamos do Delegado armamentista que, graças ao seu arsenal, foi alvejado diversas vezes em uma trama ainda não esclarecida. Abstraindo-me destas experiências pontuais, seria possível ver que não há qualquer dado que conclua, de forma clara e absoluta, que o aumento do número de armas nas mãos da população civil acarretará na diminuição de crimes. Sabe-se, por outro lado, que pode haver uma elevação na quantidade de acidentes domésticos envolvendo armas de fogo. 

 

Um outro exemplo de uma situação complexa que não pode ser deixado de lado é o enfrentamento à pandemia que hoje nos assola. Sobre este tema há uma gama de políticas, estratégias, recursos e protocolos empregados ao redor do mundo, alguns com o aval da OMS, outros com o aval de grandes estudiosos e outros, ainda, que tiveram um bom resultado prático. Logo que o vírus começou a se espalhar, foram veiculadas imagens de um faraônico hospital de campanha construído na China em poucos dias. Especialistas criticaram a medida. Disseram que esta prática não tinha sentido. Outros disseram que era algo válido. Todos apresentaram argumentos coerentes e embasados em suas posições. O mesmo se deu em relação ao isolamento social, à testagem em massa, ao uso de medicamentos. Sobre a cloroquina, vale dizer que alguns médicos respeitáveis defenderam o seu uso. Diante da ausência de alternativas, parecia ser um paliativo a ser considerado. Outros rechaçavam o seu uso. Novamente, todos apresentavam argumentos. O problema começou quando alguns acharam que o tal remédio era uma cura, defendendo o seu uso sem argumentos e desconsiderando os efeitos nefastos que poderiam advir da politização da COVID. 

 

Pois bem, o que os “pouco inteligentes” fizeram e/ou disseram? Eu começaria pelas “carreatas da morte”, referindo-me àqueles movimentos de “cidadãos de bem” que protestavam, isolados em seus veículos, contra o isolamento social. Não tinham argumentos. Apenas davam eco a um discurso segundo o qual “o país não poderia parar”. Tinham a coragem de lutar para “salvar a economia”, embora não tivessem a coragem para descer de seus veículos. Queriam que seus funcionários retornassem ao trabalho, embora não quisessem sair às ruas. Outros resolveram aderir a uma postura negacionista, dizendo que a doença apenas atingia “os idosos” e “aqueles que tinham algum problema de saúde”. Não vou sequer adentrar no mérito desumano e cínico destas falas. Apenas direi que essas pessoas optaram pela burrice ao fecharem os olhos para o real. Pessoas jovens, idosas, saudáveis, doentes, frágeis, fortes, atletas, sedentárias, morriam. Mas isso não importava. O que importava era acreditar que a realidade é simples e que pode ser enfrentada com soluções toscas. Não por acaso, ultrapassamos o número de 140 mil mortos, tendo a doença no Brasil uma das maiores taxas de mortalidade do mundo. Mas para os “cidadãos de bem”, tudo não passa de uma manipulação midiática.

 

E este mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao aborto – que é uma questão social de saúde pública altamente complexa –, à depressão – sobretudo àqueles vocalizadores do discurso da “depressão não existe” –, à cultura do estupro, à corrupção. Os categorizados neste texto preferem acreditar que as coisas são simples. Afinal, é mais cômodo imaginar que temos altas taxas de criminalidade porque as “pessoas não têm deus no coração” do que enfrentar questões como o racismo estrutural, a desigualdade econômica e a estrutura colonial. É mais fácil aceitar que “onde há fumaça, há fogo” do que encarar que o nosso sistema processual é seletivo, arbitrário, inquisitorial e não preserva o direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção do estado de inocência. É mais fácil optar por um candidato messiânico que propõe soluções simples, toscas e inexequíveis do que se defrontar com o fato de que a mudança não ocorre “da noite para o dia” e nem da forma como subjetivamente queremos. 

 

Chegando ao final, poderíamos questionar: por que a burrice parece estar em ascensão? Para um fenômeno tão complexo quanto este, poderíamos apontar algumas causas políticas. Poder e saber são categorias bastante intrincadas, assim como a burrice e a morte. Recordando o passado, quando o então Presidente Sarney conclamou os brasileiros a serem os fiscais do consumo, o imaginário social deixou-se influenciar. Quando Itamar/FHC estabeleceram medidas para a estabilização econômica, a sociedade passou a crer naquele projeto, voltando a consumir, investir, etc. Quando Lula afirmou que 2008 não passariam de uma “marolinha”, todos acreditamos e continuamos nossas vidas. O Poder Político (e o Presidente, que é parte dele) é uma fonte de fabricação de saber e de burrices. O agente político presidencial é capaz de influir na capacidade de julgamento da população de diversas formas. 

 

Bolsonaro escolheu transformar a população naquilo que ele é. E, havendo uma relação entre a ausência de inteligência e a morte, o tal sujeito conseguiu alcançar um genocídio. Resta-nos torcer para que os “cidadãos de bem” incorporem o “bem” em sua complexidade, escolhendo a vida ao invés da morte. Caso contrário, os 150 mil mortos serão apenas o início de um genocídio que irá durar no mínimo 8 anos.

 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.


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