Filme dinamarquês “Culpa” discute nossas crenças preconcebidas e culpas preexistentes
Quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Filme dinamarquês “Culpa” discute nossas crenças preconcebidas e culpas preexistentes

Imagem: Cena do filme “Culpa” / Divulgação

 

 

Por Cláudio Armando Couce de Menezes

 

Em 18/10/2020, participei  de um prazeroso encontro com os renomados Márcio Túlio Viana (Prof. Puc-MG e Desembargador aposentado) e Ricardo Araújo Dib Taxi (Prof. da UFPA  da cadeira de Hermenêutica Jurídica e coordenador da área de pesquisas sobre interpretação e narrativas), sob os auspícios da AMATRA 1. 

 

O evento, um cine-debate na modalidade telepresencial (”live”)[1], tratou sobre o filme dinamarquês “Culpa”. Instigado pelas questões trazidas pela película, debatedores e público, resolvi tecer rápidas linhas sobre a obra e os pontos possíveis de indagação e dúvida, sem a pretensão de fechar e encerrar qualquer discussão sobre os mais diversos temas ali abordados.

 

Asgar, o personagem central, policial de plantão, recebe uma ligação (cifrada) de celular de uma mulher, que aparenta estar no veículo de uma pessoa contra a sua vontade, rumando para um destino ignorado.

 

 A voz feminina indica intenso sofrimento, menciona uma menina, sozinha em sua residência. 

 

O “agente da lei e da ordem” entra em contato com a referida criança de “quase sete anos”, chorosa, assustada, informando que o pai gritou com a mãe e eles saíram com uma faca, deixando-a com seu irmãozinho, um bebê.

 

Mais a frente, descobre, por outros policiais, que a menina está com suas roupas cobertas de sangue e seu irmão foi esquartejado. 

 

Após várias tentativas, consegue contato com o progenitor, que está absolutamente descontrolado. Após ouvir o cidadão, o nosso “herói”, por sua vez, tem um acesso de fúria e lança aos gritos sua opinião de que o vaticinado sequestrador, agora também assassino (com passado pela polícia) “merecia um tiro na cara”. Aciona outros membros da corporação, comunicando que o indivíduo provavelmente está armado.

 

O espectador/expectador[2], como Asgar, imputa a autoria do sequestro e da odiosa morte (e, talvez, comece a imaginar outros delitos) ao pai e ex-marido. Enfim, culpado e, ainda por cima, um monstro.

 

Então, inesperadamente, tudo muda… Somos confrontados com a realidade, com a verdade, com o que efetivamente aconteceu…

 

E fica a pergunta do título original do filme (alterada pelos distribuidores no Brasil) SOMOS TODOS CULPADOS?

 

Embarcamos numa jornada que inclui a quebra de normas por Asgar que se isola numa sala (que depois destrói num acesso de ira), rejeita e despreza chamadas que não a que está controlando, pede ao parceiro que invada a casa e vasculhe correspondência e documentos do “elemento”…

 

Para lá da culpa ou das culpas de Asgar, terminamos a sessão como ele, arrasados, a cabeça pesando quilos e mais quilos de má-consciência… Caímos numa bela armadilha. 

 

Nossa subjetividade com tudo aquilo que a compõe, foi sequestrada pelo diretor e pelos roteiristas…

 

SOMOS TODOS CULPADOS?

 

O quanto da nossa subjetividade[3] pode influir na escuta dos outros?

 

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Somos todos culpados por preconceitos, pré-julgamentos, juízos apriorísticos, julgamentos morais, crenças preconcebidas, culpas preexistentes?

 

Quantos erros, injustiça, violência, denegação de justiça e absurdos podem ser cometidos por quem está incumbido de proferir decisões?  

 

Como é possível a compreensão?[5]

 

O que acontece com o personagem central da trama está além do querer? E do nosso poder e fazer?

 

São tantas as perguntas possíveis… Como tantas são as emoções e pensamentos imperfeitos gerados pelo filme.

 

GADAMER(2015, p.405-7) nos ajuda a entender que a interpretação não acontece por alguém inteiramente destituído de preconceitos, elementos essenciais da compreensão. Gostemos ou não, o preconceito é um elemento constitutivo da compreensão[5].  Daí a ênfase especial na impossibilidade do interpretar segundo uma pretensão puramente objetiva. 

 

O contexto em que está inserido o intérprete, fonte de inúmeros prejulgamentos, também deve ser observado com rigor na análise da compreensão alcançada. No compreender há um senso pré-constituído, prospectivo, tributário de crenças, vivências e valores.[6]

 

O senso é sempre um resultado e efeito de uma posição, de uma linguagem, uma percepção dos sentidos. Há sempre muitos… Superprodução e superdeterminação de sensos produzidos por excesso de combinação de lugares e meios.

 

Podemos, assim, seguir aqui com GADAMER cuja tese também repousa no contexto histórico em que está aquele que interpreta, herdeiro de acontecimentos que já vem de longe, formando inevitavelmente a sua compreensão.

 

A tradição histórica é essencial ao compreender e ao interpretar, pertencendo ao todo da experiência do homem no mundo. O momento histórico permanece efetivo e atuante em toda a sua compreensão (GADAMER, 2015, p.20 -33)[7].

 

A história (individual ou coletiva), como demostram os acontecimentos atuais, é um importante objeto de compreensão e interpretação. Quem a compreende (ou tenta) está “no lugar de fala”, está em melhores condições de expor, compreender e interpretar. Portanto, mais aparelhado para alcançar o conhecimento efetivo, seja dos textos, do ser e do seu mundo circundante, da vida vivida (e sofrida). 

 

E qual é a história do nosso personagem central? O que do seu passado o acompanhava no momento em que recebe a fatídica ligação?

 

Sabemos que o policial estava de “molho”, excluído temporariamente de sua atividade costumeira (policiamento nas ruas), até a definição de sua situação funcional e jurídico-penal.

 

No seu histórico pessoal, há uma grande culpa. Algo sórdido, violento, injusto, como ele reconhece ao final do filme. Em que medida isso o levou a tomar as atitudes expostas no desenrolar da trama?

 

O quanto de culpa (individual, coletiva, pública) conduz atos, reflexões, interpretações e julgamentos?[8]

 

O quanto de culpa o nosso personagem era capaz de suportar? O quanto de culpa somos capazes de suportar ao julgar?

 

Bom, deixamos mais perguntas do que respostas. Assim também, o filme… e seus atentos espectadores/expectadores que acompanharam a “live”, lançando pertinentes e doutas  considerações, oferecendo questionamentos de grande profundidade.

 

 

Cláudio Armando Couce de Menezes é desembargador da 17ª Região – ES Doutor pela PUC/SP e pela Universidad Castilla de la Macha


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Notas:

[1] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F7STH7eYWAw, acessado em 04/10/2020 

[2] Espectador: A palavra espectador, do latim spectator, é um substantivo masculino e faz referência à pessoa que presencia, observa ou assiste a algo e Expectador: A palavra expectador, do latim expectatore, pode ser um substantivo masculino – quando se refere a alguém que espera que alguma coisa aconteça – ou um adjetivo. No caso do filme, parece-me que ocupamos os dois lugares simultaneamente.

[3] No que consiste realmente a subjetividade? O que a compõe efetivamente? Mais questões, sujeitas a diversas respostas que, por sua vez, trazem em si novas indagações… Talvez, estivéssemos autorizados a dizer que consistiria no modo de ser do homem na presença do mundo. Em outras palavras, a subjetividade representaria as práticas, formas de se ver e ver o mundo em associação com grupos, fenômenos sociais, econômicos e culturais. GUATTARI, sob uma ótica determinista, a enxerga como essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida (GUATTARI, 1986, p.25). Mas, sob uma ótica processual e integrativa, afirma-se que compõem sua produção: “Primeiramente, o meio cultural (a família, a educação, o meio, a religião, a arte); a seguir, o consumo cultural (elementos fabricados pela indústria mediática, do cinema, etc.), gadgets ideológicos. E enfim, o conjunto dos maquinários informacionais, que forma o registro a-semiológico, a-linguístico, da subjetividade contemporânea, por funcionarem para ela ou independentemente do fato de produzirem significações” (BOURRIAND, Nicolas. 1994,82).

[4] Questão, por sinal, que precederia a todo comportamento compreensivo da subjetividade, (Gadamer, 2015, p.16). GADAMER registra que “(…) O verdadeiro problema da compreensão aparece quando o esforço de compreender um conteúdo coloca a pergunta reflexiva de como o outro chegou à sua opinião” (p-249).

[5] O filósofo fala inclusive numa função positiva do preconceito para a compreensão. Porém, o arbítrio daquele interpreta clama pela razão como contraponto absolutamente necessário. Assim, o intérprete há de ter consciência de suas pré-compreensões, para, a partir disso, buscar a verdade e o conhecimento ( p.413-420). A pré-compreensão, condição da compreensão, remete a uma racionalidade apoiada em alguns valores de um senso constituído anteriormente.

[6] Mas fica a advertência de GADAMER ao intérprete, àquele que busca (ou deveria buscar) o conhecer, a verdade: “(…) A função do pregador moral, nas vestes de investigador, tem algo de absurdo”. Absurdo, contudo, que assola o policial Asger e, certamente, os expectadores do filme. Na vida real, são tantos os exemplos, inclusive recentes…

[7] “ (…)o modo como experimentamos uns aos outros, como experimentamos as tradições históricas, as ocorrências naturais de nossa existência e de nosso mundo, é isso que forma um universo verdadeiramente hermenêutico. Nele não estamos encerrados como entre barreiras intransponíveis; ao contrário, estamos sempre abertos para o mundo” ( GADAMER, 2015, p.32).

[8] O quanto a FALTA do sentimento de culpa gera, já sabemos. A experiência histórica está repleta de exemplos. Daí surge outra formulação, o quanto de memória histórica pode persistir nos indivíduos, grupos e populações para evitar que erros, injustiças e atrocidades possam ser repetidos? A ver o que se passa na Europa com a escalada da extrema direita, inclusive nazista e fascista… E o que falar de certos países da América Latina, flertando descaradamente com o autoritarismo, olvidando sua história mais recente?

Quarta-feira, 7 de outubro de 2020
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