A crise da Democracia Hackeada e seus novos paradoxos
Sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A crise da Democracia Hackeada e seus novos paradoxos

Imagem: Clint Patterson / Unsplash – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Vinicius Aleixo Gerbasi

 

O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Umberto Eco

 

 

Passamos por tempos de crise na democracia ocidental. É sintomático que todos os principais jornais têm escrito a respeito do tema.

 

O conceito de democracia se define pela representação e organização política, pela igualdade social e jurídica, pela liberdade de expressão e imprensa livres, por eleições livres, pela independência dos três poderes. No entanto, os sistemas políticos têm feito surgir mecanismos que anulam a participação da população dos processos políticos e de formas de representação. A cooperação, a solidariedade e as lutas de uma dada classe social passam a ser ocupadas por pautas abstratas e “vazias” como corrupção e moralidade. 

 

Nas últimas décadas a democracia teve um enfraquecimento inimaginável. Nos últimos anos no Brasil a democracia recrudesceu operando a sua prática no sentido oposto ao seu conceito; basta lembrar a criação da Assembleia Constituinte de 1988 que promulgou um texto constitucional no espírito progressista e atribuiu ao Estado brasileiro obrigações relativas ao fornecimento de serviços públicos e de fomento à participação popular e representativa (eleições, partidos políticos e reformas sociais). Nos últimos anos, porém, uma série de atrocidades foram sendo cometidas com o recrudescimento de políticas sociais, de restrição orçamentária e de ataque às instituições através de utilização de mecanismos jurídicos para afastar um presidente eleito democraticamente.  

 

A utilização das tecnologias de informação apresenta e faz emergir um paradoxo. Por um lado, há a capacidade de reflexão sobre situação política, ao debate público; à visibilidade de escândalos políticos e empresariais, aos interesses econômicos do capital sobre o patrimônio público e ao desmonte do Estado; à proliferação de veículos de comunicação autônomos e independentes; às resistências e protestos populares ocorridos em outras partes do mundo. Por outro lado, frente às contradições de um capitalismo financeiro caracterizado, ao mesmo tempo, pela imensa produção e concentração da riqueza,  – o qual tem mostrado uma habilidade de acelerar a crise estrutural econômica, política, social e ambiental intrínsecas a ele –, nota-se a busca pelas pessoas de uma figura política na forma de uma doutrina ou de uma pessoa que possa resolver determinado problema milagrosamente. A aversão e o descontentamento com a política têm sido captados por forças conservadoras a partir de uma perspectiva antiglobalista e nacionalista

 

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No entanto, no Brasil e em outras partes do mundo o estratagema político “invisível” e tácito é influenciar e direcionar a opinião pública em todas as classes sociais visando conservar a posição global de poder e o arco de interesses geopolíticos e econômicos, notadamente dos Estados Unidos. As elites burocráticas, industriais, empresariais e financeiras brasileiras orientadas exclusivamente aos seus ganhos e interesses, submissas a interesses estrangeiros, não buscam sua participação na construção de alternativas para a retomada do crescimento econômico e para a expansão de programas sociais, repetindo à exaustão, a necessidade de conservar a agenda da austeridade fiscal e da retirada dos direitos sociais e trabalhistas como aprovado pela PEC 95 que limita o gasto do orçamento público em 20 anos. Programas de compartilhamento de informações e as redes sociais têm operado como mecanismos de desinformação e de espalhamento de mentiras. A definição de desinformação, segundo o dicionário online Priberam da língua portuguesa, define-se como “ato ou efeito de desinformar, de suprimir uma informação, de minimizar a sua importância ou de modificar o seu sentido. O uso da comunicação e mensagens digitais propicia um ambiente fértil à circulação e construção de meta-narrativas costuradas por discursos políticos com pouca ou nenhuma aderência aos interesses materiais e objetivos dos indivíduos.

 

Um dos fenômenos procedentes da utilização massiva dessas ferramentas de comunicação virtual no campo político se refere à imprevisibilidade provocada nas eleições quanto às intenções de voto. A difusão de mensagens de conteúdo político a indivíduos com perfil ideológico, cultural e religioso compatíveis com elas a partir dos dados obtidos de bancos de dados de empresas privadas, e sem nenhum pudor das consequências políticas e jurídicas quanto à privacidade, permite orientar opiniões e definir comportamentos esperados a determinada ideologia política. As pesquisas de opinião parecem não nos informar mais de modo preciso sobre a intenção de voto da população. Nos Estados Unidos a vitória do atual presidente Donald Trump contrariou projeções de institutos de pesquisa e pela imprensa que apontavam possível vitória da candidata de oposição, Hilary Clinton. O mesmo ocorre com a disputa presencial entre Joe Biden e Donald Trump.    

 

De toda forma, não há como ter uma visão otimista em relação à democracia num cenário de ultraliberaliberalismo e de destruição do Estados nacionais e sua capacidade de investimentos, de formulação de políticas econômicas e de proteção social às pessoas.

 

 

Vinicius Aleixo Gerbasi é doutorando em Ciências Sociais pela Unesp-Marília, bolsista Capes. Mestre em Ciência da Informação pela Unesp-Marília, bolsista Capes. Graduado em Ciências Sociais pela Unesp-Araraquara


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