A pandemia e o mecanismo educacional escolar brasileiro
Quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A pandemia e o mecanismo educacional escolar brasileiro

Imagem: Álvaro Henrique /Secretaria da Educação

 

 

Por Marcos Almir Almeida de Souza

 

O caos social derivado da pandemia do novo coronavírus (COVID-19) necessitou de mudanças emergenciais para adaptarmo-nos com a insólita realidade. Esta reorganização socioespacial e comportamental demandou esforços coletivos e individuais, tais como a utilização de máscaras, o distanciamento social, a utilização de ferramentas remotas e diversas outras medidas que amenizassem a proliferação do vírus.

 

É imprescindível ressaltar o caráter potencial encaminhado pelo coronavírus, visto que não se trata apenas de um resfriado trivial, mas de um vírus que causou milhares de mortes por todo o planeta. A referida potencialidade, erigida pela COVID-19, conduziu ao desnudamento de inúmeros problemas famigerados, assim como a incapacidade política denotada nas diferentes esferas de poder, vide a corrupção durante a compra de recursos para o tratamento das vítimas do vírus[1].

 

Nesse contexto de desordem política, surge a educação escolar como um tema marginal, debatido por poucos, mas que elucida a precarização e a segregação educacional.

 

Para além de um determinismo social, que possibilita analisar uma continuidade de submissão social entre classes, poderemos partir de uma condição educacional explícita através de uma prosa.

 

“José, um jovem de 19 anos, vive uma indecisão em sua vida, está a analisar quais oportunidades seguir para dar uma melhor condição para a sua família e para si mesmo. Ano passado ele tentou o vestibular, porém a nota foi insuficiente, o objetivo de ser advogado parece cada vez mais distante.

José se martiriza por não ter conseguido, uma vez que sempre frequentava e tirava excelentes notas na escola, com exceção das matérias de História e de Sociologia, não que José fosse ruim nessas disciplinas, mas sim que ambos professores estiveram ausentes por problemas médicos, e não ocorrera as devidas substituições.

José nem sequer ousou pensar em uma universidade particular, visto que os seus pais não usufruem tal condição financeira, o ideal seria se conseguisse um emprego de carteira assinada, porém, como não possui curso técnico nem tem experiência no mercado de trabalho, acaba restando um trabalho na mercearia do Sr. Machado.

Apesar de todos os impasses, José ainda assim se sente privilegiado, principalmente por ter pai e mãe presentes, ter alimentação todo dia, por não morar na comunidade mais perigosa, tendo a consciência que a maioria dos seus amigos da escola jamais cogitaram entrar em uma universidade pública, a escola para eles era uma prisão”.

 

José e seus amigos participam igualmente da lógica educacional brasileira, ambos tiveram seu processo de aprendizagem em uma escola pública periférica, comparavam a escola a um presídio, detestavam cálculos matemáticos, desprezavam fórmulas químicas, diziam que literatura era algo modorrento, suportavam o verbo to be.

 

Nesse caso, onde se situa a universidade? Quem entra em uma real disputa para uma vaga em uma universidade federal ou estadual? A classe que interminavelmente sustenta a universidade pública terá ensejos para inserir seus filhos nas mesmas? As cotas te incomodam? Onde está a meritocracia nisso?

 

A prosa e os questionamentos supramencionados permitem uma breve reflexão sobre uma lógica complexa e perversa. Adentrando no atual contexto de pandemia, estas reflexões podem ser facilmente adequadas ao ensino remoto, trazendo perspectivas da Educação 4.0 que propõe transformar a aprendizagem aos modos da Quarta Revolução Industrial.

 

Cabe ressaltar que o ensino remoto é, ao contrário da Educação à Distância (EaD), uma metodologia temporária, enquanto o EaD é uma modalidade educacional premeditada. Logo, algumas escolas e universidades presenciais optaram pelo ensino remoto emergencial, com o propósito de “salvar” o ano letivo.

 

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O retorno escolar virtual ou híbrido (presencial e virtual) denotou uma série de problemas que segregaram grupos sociais a partir de sua condição financeira, visto que há a necessidade de recursos básicos, tais como uma internet estável, um dispositivo tecnológico adequado, um espaço para o estudo, conhecimento de ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), vide o Google Classroom, Moodle, Google Drive, Google Meet, Zoom, entre outros.

 

Obviamente o estudante com menos renda tenderá a ausentar-se do ensino remoto, diferentemente dos estudantes com renda superior. Nesse sentido, há uma explícita relação de educação e renda, ocasionando em oportunidades diferentes, tanto pela possibilidade de acesso a cursos com foco em vestibulares e tutores particulares, quanto pela educação escolar em si, que, de modo geral é superior à educação escolar oferecida em comunidades com renda inferior. A lógica desse pensamento sistematiza um ciclo contínuo que perpetua grupos sociais em âmbitos predeterminados, raras exceções.

 

Para relacionarmos internacionalmente essa lógica, devemos atinar os aspectos que foram consideravelmente acentuados durante a pandemia, dado que segundo o Relatório de monitoramento global da educação (Relatório GEM) de 2020, “cerca de 40% dos países de baixa e baixa renda média não adotaram nenhuma medida para apoiar os estudantes em risco de exclusão durante a crise” (UNESCO, 2020)[2].

 

Juridicamente o Brasil releva a educação como um fator essencial para o desenvolvimento pessoal e coletivo, posto no artigo 205 da Constituição da República Federativa do Brasil que: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988)[3].

 

Os questionamentos e críticas tornam-se diversos quando analisamos a teoria e prática dessa estrutura educacional, algumas perguntas auxiliam na compreensão e resolução da problemática, em especial: a quem interessa o enfraquecimento educacional público? O quão o Estado e o Capitalismo interferem nessa lógica? Seria, como dizia Darcy Ribeiro, a crise da educação um projeto?

 

O raciocínio suscitado permite verificar um elo sincronizado de renda e qualidade educacional, que decorre em uma melhor ou pior qualificação profissional. Logo, é assertivo nessa lógica que a igualdade de oportunidades e a meritocracia são conceitos obtusos frente ao desequilíbrio instaurado.

 

A prosa escrita acima não alude apenas a situação de José, mas de como há níveis de dificuldades, incredibilidade às metas e ao funcionamento escolar, na mesma medida que o acesso à educação de qualidade se consolida enquanto uma oportunidade para poucos.

 

“Seria na verdade uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica” (FREIRE, 1984, p. 89)[4].

 

 

Marcos Almir Almeida de Souza é graduando de Geografia pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM


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Notas:

1 SOUZA, Marcos. O “Covidão” e a Crescente Banalização da Política. Justificando, 23 jul 2020. Disponível em: www.justificando.com/2020/07/23/o-covidao-e-a-crescente-banalizacao-da-politica/ . (Acesso em 11 de outubro de 2020). 

2 A UNESCO publica o Global Education Monitoring Report 2020. Disponível em: www.catedraeducacionjusticiasocial.org/pt/a-unesco-publica-o-relatorio-mundial-de-monitoramento-da-educacao-2020/ . (Acesso em 11 de outubro de 2020).

3 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

4 FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

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