A esperança de uma revolução progressista via internet livre acabou?
Sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A esperança de uma revolução progressista via internet livre acabou?

BG: Austin Distel / Unsplash – Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Felipe Comitre

 

Os últimos meses do ano de 2010 marcavam o que parecia ser a gênese do processo de rompimento de paradigmas que sustentavam as relações de poder, especialmente no Oriente Médio e norte da África. A estratégia dos manifestantes era inovadora, visto que se utilizavam das redes sociais para divulgar as estratégias de ações e para disseminar informações em um ritmo e alcance até então nunca visto no mundo. O mundo assistia entusiasmado o evento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Quase uma década depois, e com a existência de diversas manifestações espalhadas pelo mundo por meio do suporte e utilização das mídias sociais, indaga-se sobre o possível poder transformador advindo do avanço da sociedade em rede: caminhamos para uma revolução ou nos deslocamos para a caverna contemporânea da cegueira coletiva?

 

Resumidamente, no final de 2010 o mundo assistia em tempo real a manifestações que promoviam verdadeiras caçadas contra os líderes de regimes totalitários que comandavam seus países há décadas. Um exemplo emblemático que envolve a Primavera Árabe foi o assassinato do então ditador da Líbia, Muammar al Gaddafi[1], que controlou o poder em seu país entre os anos de 1969 e 2011. O ditador foi capturado e morto em outubro de 2011 na cidade na cidade de Sirte (norte da Líbia). Em vídeo gravado pelos rebeldes, é possível visualizar um verdadeiro linchamento contra o ditador, as múltiplas agressões dos rebeldes contra o tirano só foram finalizadas com um verdadeiro tiro de misericórdia do próprio guarda-costas do ditador.

 

Aquelas imagens poderiam marcar o início de um conjunto de revoluções em escala planetária. Seria o pontapé inicial para a derrubada de outros regimes autoritários, de mecanismos persecutórios e que atentam contra os direitos humanos? Ainda mais, seria um despertar coletivo contra a ditadura do capital que fomenta as desigualdades? 

 

A crença no poder de transformação das redes sociais se embasa nas possibilidades associadas ao avanço da sociedade em rede. O sociólogo espanhol Manuel Castells explica que o avanço tecnológico e a expansão das redes de computadores foram responsáveis por estabelecer uma mudança na estrutura da sociedade. Para Castells[2], as relações humanas são cada vez mais mediadas por nós que se conectam à rede de computadores, oportunizando novas formas de gerar, processar e distribuir informações nos dias de hoje.

 

A sensação, ainda mergulhada na euforia recente dos acontecimentos da Primavera Árabe, era de que as redes de computadores seriam capazes de superar o histórico de bloqueio e distribuição seletiva das informações típicas de governos aliados ou proprietários de grupos de comunicação. Ademais, a sociedade em rede permitiria a geração de informações plurais disponibilizadas por setores da sociedade historicamente silenciados, diferentemente das referências enviesadas transmitidas pela mídia tradicional oligopolizada.

 

O teor revolucionário que muitos acreditavam existir na relação entre manifestações antissistema e o uso de redes sociais, contudo, foi sendo gradativamente desacreditado, sobretudo pela existência de manifestações que caminhavam para a manutenção do poder e do controle social, afastando-se da fábula de mudança que permeava o imaginário social com o avanço da sociedade em rede.

 

As manifestações fomentadas pelo uso das redes sociais que convergem para o controle social, sob o disfarce de transformação, podem ser exemplificadas pelas Jornadas de Junho, que ocorreram no Brasil em 2013, e a campanha para o plebiscito do Brexit, que ocorreu em junho de 2016, resultando na saída gradativa do Reino Unido da União Europeia, processo oficializado apenas em 2020.

 

As Jornadas de Junho, também conhecida como o movimento dos 20 centavos, originou-se pelo questionamento do aumento da tarifa do transporte coletivo. Porém, o fenômeno que se iniciou com pauta definida, via atuação do Movimento Passa Livre (MPL), passou a ganhar adeptos, convocados pela mídia tradicional e também por redes de compartilhamento do Facebook.

 

A apropriação das pautas pela grande mídia e por grupos que atuavam nas redes sociais ocasionou uma verdadeira descaracterização das manifestações, tornando-as confusas, superficiais e pouco democráticas – como o impedimento de participação direta de movimentos sociais e partidos políticos, os que insistiam tiveram suas bandeiras queimadas durante os eventos.

 

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Hoje se sabe que grupos que adquiriram destaque nas Jornadas de Junho e que se diziam apartidários, como é o caso do Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua, representam o que mais existe de atraso no país. Vale lembrar que o MBL, fortalecida pós Jornadas de Junho, teve papel importante no golpe que resultou no impeachment da presidenta Dilma em 2016; alguns de seus membros se elegeram deputados e vereadores por partidos historicamente envolvidos em corrupção e, mais recentemente, envolveram-se em um escândalo[3] de tentativa de compra de assinaturas de um partido em formação, estratégia ilegal que vem sendo investigada pelo Ministério Público. Ou seja, o novo já nasce velho. A roupagem dita inovadora do grupo, inserida no contexto da sociedade em rede, camufla o seu verdadeiro alinhamento com a elite do atraso, termo proposto por Jessé de Souza.[4]

 

As redes sociais se tornaram peça chave na convocação de manifestantes nas Jornadas de Junho, assim como nas manifestações verde-amarelo de 2015 e 2016, nutridas pelo golpismo de grupos citados anteriormente em conluio com a grande mídia. As mídias sociais, nesse contexto, promoveram o que Jessé explica ser a “ilusão da soberania virtual”, visto que a promoção de atos populares divulgados e estimulados pela sociedade em rede como antissistema convergem, na prática, para uma colonização do potencial que legitima a soberania popular. 

 

O que chama a atenção hoje, é que tanto a Primavera Árabe quanto as Jornadas de Junho acrescidas das manifestações verde-amarelo, resultaram na imposição de relações de poder que pouco contribuíram para formação de países mais democráticos e para a estabilidade política. Muito pelo contrário! Alguns países envolvidos com a Primavera Árabe ainda enfrentam guerras civis, já o Brasil elegeu um presidente que sempre se distanciou dos pilares da democracia, o que não se alterou com sua ascensão ao poder, vide a participação em manifestações contra o Supremo Tribunal Federal e os constantes elogios públicos a torturadores da época da Ditadura Militar.

 

Com relação a aproximação entre a campanha para o Brexit e as redes sociais, reconhece-se que a vitória para a saída se do Reino Unido do bloco se beneficiou da utilização de dados de usuários do Facebook. Ou seja, uma empresa se utilizou dos rastros deixados pelos usuários da rede social para traçar estratégias de marketing político com o intuito de direcionar reportagens, vídeos e informações em prol de seus interesses. Como não relacionar tal prático com o que Jessé explica ser a colonização das consciências? 

 

O uso de dados dos usuários conquistados em redes sociais vem se tornando pauta de debates recentes e também de documentários, como Privacidade Hackeada (2019) e O Dilema das Redes (2020). Apesar das particularidades, ambos os documentários promovem reflexões sobre o uso das redes sociais e as consequências para a liberdade e autonomia de seus usuários.

 

Os argumentos utilizados pelos documentários juntamente com os exemplos de manifestações demonstrados anteriormente fundamentam a indagação sobre o uso das redes sociais: promovem a transformação ou o controle social? A intenção não é reduzir a complexa temática a um dualismo maniqueísta que prega o fim ou a ascensão de uso das redes sociais. Porém, busca-se incitar a reflexão sobre que tipo de acesso a informação os usuários das redes recebem. Existe o contato com informações plurais que embasam o poder de decisão política, econômica, social e cultural de seus usuários?

 

Apesar de muitos relataram a possibilidade de contato com outras fontes de informação advindas do uso da rede social, percebe-se que a lógica do algoritmo induz as informações que temos acesso. Logo, as redes estimulam a reprodução de verdades (ou pós-verdades) que se destacam na timeline do usuário, inexistindo o choque de ideias. Ou seja, a distribuição seletiva das informações que outrora se questionavam dos oligopólios midiáticos, perpetua-se com o avanço das redes sociais. 

 

Estariam os usuários das redes sociais se tornando presidiários da sociedade em rede? Presos nas informações que lhes são direcionadas/recomendadas em páginas e timelines, moldadas segundo o perfil traçado de cada usuário. Em analogia com a clássica distopia de George Orwell, 1984, as redes sociais estão funcionando como teletelas contemporâneas, já que promovem a divulgação de informações consideradas relevantes ao mesmo tempo em que atua como um dispositivo de vigilância para coletar dados que serão úteis para determinadas situações. 

 

A liberdade de escolha que parece permear a sociedade em rede consiste em uma fábula para a ampliação de seu uso por novos usuários. O filme “Os dilemas da rede” reforça que o uso contínuo de redes sociais nos transforma em bonecos manipulados por interesses que não eram nossos, mas que passam a ser. Somos alimentados por sentimentos que acentuam a polarização entre grupos, o ódio se torna a estratégia para nos distanciarmos de lutas em prol da sociedade em sua plenitude, gerando ascensão de líderes preconceituosos, autoritários, negacionistas e revisionistas. Como não pensar na relação com o poder da teletela em orientar o povo para amar o Grande Irmão e odiar os seus opositores, no clássico livro 1984?

 

A falsa liberdade do mundo contemporâneo se sustenta na formação de pós-verdades. Ascende-se, assim, uma cegueira coletiva. Para Saramago[5] a “[…] cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.

 

Talvez o que se tenha acabado seja a esperança de associar as possibilidades da sociedade em rede como ferramenta para as transformações sociais. As experiências da Primavera Árabe, das Jornadas de Junho e do Brexit reforçam o controle social que se dissemina por meio das redes sociais. É inegável que transformações político, sociais, ambientais, econômicas e sociais são necessárias, mas como promovê-las no ambiente vigiado das redes sociais?

 

Entende-se, por fim, que a revolução não será mídia socializadas. A sociedade em rede está (ou sempre foi) comandada por interesses que se voltam para a manutenção do sistema vigente. Portanto, a desobediência civil pode começar pelo nosso afastamento das redes sociais oligopolizadas no espaço virtual. Em contrapartida, é essencial lutarmos pelo espaço virtual, tomando a frente das possibilidades inerentes a sociedade em rede. Nesse caso, valorizar as mídias alternativas, independentes e progressistas talvez seja um respiro em um contexto de colonização das consciências.

 

 

Felipe Comitre é doutor em Geografia – Organização do Espaço (UNESP, Rio Claro); Professor EBTT Geografia – IFPR (campus Pinhais)


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Notas:

[1] Para entender um pouco mais sobre as práticas contra os direitos humanos adotadas por Kadafi, indica-se para o leitor o documentário: MAD DOG: INSIDE THE SECRET WORLD OF MUAMMAR GADDAFI.

[2] CASTELLS, Manuel; CARDOSO, Gustavo; A Sociedade em Rede: Do Conhecimento à Ação Política. Imprensa Nacional: Belém, 2005. 

[3] Recomenda-se as reportagens do site The Intercept Brasil sobre o tema.

[4] SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.

[5] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Sexta-feira, 23 de outubro de 2020
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