Histórias de vida e necromemória
Segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Histórias de vida e necromemória

Imagem: Reprodução – Montagem: Justificando

 

 

Por Vandelir Camilo

 

Para começar nossa conversa, apresentamos uma foto do médico, pintor, parteiro e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, José Mauricio Nunes Garcia Junior, com a expectativa de que sua face e sua história possam contribuir como uma das referências para a continuidade da luta antirracista que estamos travando no século XXI.

 

 

FONTE: Daguerreotipo, cerca de 1850

 

A busca por práticas antirracistas tem movimentado diferentes setores sociais que buscam uma maior representatividade de negros e negras como formadores do desenvolvimento histórico brasileiro. É preciso lutar contra as tensões estabelecidas nas práticas cotidianas de silenciamento e apagamento da memórias de negros e negras brasileiros como agentes de sua própria história, ao contrário, do que se impõem um único lugar para o passado afro-brasileiro, que é o açoite, a escravidão, o que eu conceituo como nossa necromemória. Dito isso, as histórias de vidas de negros intelectuais atuantes no século XIX precisam ser urgentemente reparadas, a fim de servirem como fontes para a formação histórica de estudantes e sociedade em geral como forma de uma educação histórica e uma prática antirracista. Por isso, apresentamos brevemente, neste texto, a história de José Mauricio Nunes Garcia Junior, médico negro que viveu no século XIX e teve suas memórias apagadas no cenário social.

 

José Apolinario é o que consta no seu registro de batismo. Em 1824, aos 16 anos, quando se matricula na Faculdade de Medicina, altera seu sobrenome para José Apolinario Nunes Garcia; em 1828, nova alteração no nome faz constar José Mauricio Nunes Garcia Junior, como forma de homenagear seu pai. Ele nasceu em 12 de dezembro de 1808, no contexto da chegada da família real ao Brasil. Foi batizado na Igreja de São José no Rio de Janeiro por seu pai, padre José Mauricio Nunes Garcia. que, no período de 1807 e 1813, viveu em concubinato com Severiana Rosa de Castro. Ela, parda livre e desimpedida, filha de uma escravizada com um português, foi a mãe dos cinco filhos do padre. Esse religioso atuou como compositor, regente e organista em diferentes irmandades cariocas e, no período de 1808 a 1813, como diretor musical da Capela Imperial.

 

Após separação do padre José Mauricio, Severiana casou-se com Antonio Rodrigues Martins, comerciante na Rua dos Ourives (hoje, Rua Miguel Couto), e teve outro filho, o futuro médico doutor Severiano Rodrigues Martins. Esse meio-irmão do doutor Nunes Garcia  foi quem tratou do compositor e pianista norte-americano Louis Moreau Gottschalk quando, em turnê pelo Brasil, adoeceu, falecendo no Rio de Janeiro em 1869; o clínico morreu em Paris, em fins do século XIX. Severiana viveu até os 90 anos, morrendo, em 1878, em um sobrado, na Rua Ipiranga, no bairro de Laranjeiras. Feliz e triste sina dessa mulher negra, mãe dos filhos do padre José Mauricio e que nos legou dois filhos médicos na sociedade carioca.

 

Em 1824, graças à influência do pai na Corte, o futuro médico Nunes Garcia Junior matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1830, formou-se clínico e parteiro, atuando em clínica particular na Rua da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro. É importante ressaltar que doutor Nunes Garcia sempre esteve atento a questões raciais em sua época, conforme veremos mais à frente.

 

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Após reformas nos estatutos da Faculdade, em 1833, três candidatos apresentaram-se para um concurso para a cadeira de partos. Entre eles, dois eram homens negros, doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior e Francisco Júlio Xavier, recém-chegado da Faculdade de Paris. Em seus documentos pessoais, Dr. Nunes Garcia Junior revelou detalhes do concurso ao descrever uma associação racial entre os dois homens negros, naquele contexto, considerados “mulatos” – já que “negro” era usado por brancos para se referir exclusivamente a escravizados. Ainda assim, apesar do termo pejorativo, que visava unicamente a diminuir esses intelectuais, os médicos formaram uma rede de solidariedade contra o candidato branco, doutor José Cardoso de Menezes, afirmando que “ele nos insultou em sua lição oral e com efeito tinha razão porque era branco e viu se a frente de dois mulatos cujas forças sentiu”.

 

Nesse concurso público, doutor Júlio Xavier foi aprovado em primeiro lugar. Entretanto, em 16 de julho de 1833, após mover uma rede de contatos com outros letrados negros e por meio jurídico, doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior tornou-se professor substituto da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

 

Em 1839, em um novo concurso, ele apresentou nova tese, intitulada “Método de demonstrar o aparelho da audição”, para uma banca formada por professores da Faculdade. Aprovado, assumiu o cargo de professor catedrático de Anatomia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ainda assim, a diretoria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro recorreu, de todas as formas, para dificultar sua posse. Doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior buscou, novamente, os jornais e os meios jurídicos para valer seus direitos e, graças ao apoio do Ministro de Estado Manuel Antonio Galvão, foi empossado como professor catedrático.

 

Em seus documentos pessoais, Dr. Nunes Garcia relatou situações “acintosas e desrespeitosas” na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ocorridas no período de 1839 a 1844. Denunciou as constantes perseguições do então diretor da Faculdade, o médico José Martins da Cruz Jobim, afirmando que:

 

Sábio e eloquente lente e médico, que tanto se ocupou de minha mediocridade, e que tanto amargurou-me a existência pelo apoio que tinha do governo e não por si, pois que sempre o rechacei com minha dignidade e força e tanto é certo que ele me temia, ou que nunca achou-me em faltas como lente, que mesmo nos seus desânimos, “apenas me apontava como o negro mais desavergonhado da escola” — isto em ausência, porque ele teve certeza que a um tal insulto em face, eu quebrava-lhe as ventas, porque tal se deu um dia em que eu o acusei na faculdade por uma infração de estatutos e, enquanto falava, suspendeu ele a sessão! Tenho nojo de referir quanto se convenceu ele de toda sua covardia! Deixemos as misérias do Dr. J.[José] Martins da Cruz Jobim na diretoria da Escola de Medicina da Corte, tão decantados, em jornais diários por mim mesmo, e vamos ao que me diz respeito, porque muito tem de notável ou interessante, e só por isso não quero deixar de contá-lo já aqui.

 

Por outro lado, a partir de outros documentos, podemos cruzar as informações e observar como essas perseguições, os acintes e o desrespeito do diretor da Faculdade de Medicina doutor José Martins da Cruz Jobim refletiam-se em suas narrativas pessoais, pois, em diferentes passagens, menciona o comportamento do diretor:

 

como se eu fosse capaz de dirigir alguma escola e levar para minha casa um dos africanos dados para o serviço das aulas, a pôr lá na taboa de minha rege, e esquecer-me da diária que dava o tesouro, ao porteiro da escola, para alimentos desse africano, e por tanto prevaricava, fazia, ou ensinava a prevaricarem! O Sr. Jobim é muito fértil de recursos, mas não pode ensinar-me a ser probo.

 

Vale um parêntese: entre 1821 e 1856, mais de 10 mil africanos foram resgatados e colocados sob custodia do Governo Imperial. Diversos escravizados foram distribuídos a instituições do Império, o que acabava por provocar redes de barganhas clientelistas em torno desses sujeitos.

 

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No discurso de abertura do ano letivo da Faculdade de Medicina, em 1840, já como professor catedrático, apresentou diversas denúncias públicas relativas às dificuldades impostas ao seu magistério, à ausência de laboratório específico para dissecção de corpos e aos abusos nos corpos dos escravizados para sua aula, ao afirmar que todos sabiam que é da:

 

classe mais indigente da sociedade, ou dos escravos, quem saem os corpos dessa aula, e que est[avam] circunstanciados à perniciosa influência do nosso clima — a natureza das moléstias com que tais indivíduos sucumbem –, às consequências dos tratamentos, que as vezes nem poderão ter, do mesmo modo que ao uso dos maus alimentos a que foram forjados, modificando o estado de suas organizações durante a vida.

 

Além de atuar como professor titular, doutor Nunes Garcia Junior atendia em clínica na Rua da Carioca, onde, uma vez por semana, realizava atendimento gratuito para mulheres pobres e negras, conforme anúncios no Jornal do Comércio. Em 1855, inaugurou um Hospital-maternidade para parturientes pobres e negras, escravizadas ou libertas. A iniciativa foi louvada em reunião da Academia Imperial de Medicina. Na epidemia de febre amarela de 1850, que assolou a cidade do Rio de Janeiro, ele participou ativamente como médico da Freguesia do Sacramento, onde residia. Em seus documentos, declarou ter salvado 580 escravizados de diferentes nações, remetendo para a Secretaria de Império detalhes como moradia, idade e nação desses sujeitos. Por conta do mérito, foi reconhecido pelo Império com o título da Ordem da Rosa.

 

Finalmente, para encerrar, penso que, ainda que vítima de todos os preconceitos na sociedade e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, posto que inserido no contexto dos debates científicos e racistas da época, foi um personagem importante e notório no Rio de Janeiro do século XIX. Há, uma interessante citação do doutor Nunes Garcia, de 1860, relativa ao seu pensamento sobre os embates racistas com que ele conviveu, a qual evidencia a forma como esse sujeito, no seu íntimo, desconstruía toda a visão colonialista que diferenciava seres humanos em castas: “Para quem olhasse para estes caprichos da natureza, bastava o fato para justificar a crença em que está comigo que tais distinções só afetam aqueles que precisam justificar-se brancos, me convencem da bizarrice dos tais sangues — brancos, azuis, vermelhos, amarelos e negros”.

 

Doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior atuou como professor catedrático na Faculdade de Medicina até 1857, quando foi forçado a se aposentar, e como clínico até seus últimos dias, em seu consultório. Morreu aos 77 anos, na cidade do Rio de Janeiro, em um sobrado localizado na Rua Luiz de Camões, após anos habitando em uma chácara no bairro do Rio Comprido. Em seus últimos momentos, dispensou a presença de um padre e os últimos sacramentos. Ainda assim, buscou, de todas as formas, registrar sua trajetória em documentos, missivas, teses e outras fontes.

 

Podemos afirmar que doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior não quis ser esquecido! Entretanto, a necromemória é implacável com negros que buscam estabelecer suas memórias assumindo suas negritudes. Houve um projeto para apagar e, em seguida, silenciar essa trajetória desde 24 de outubro de 1884, dia de sua morte. No séquito, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro não se fez presente nem enviou representantes; segundo eles, por falta de tempo hábil. Tampouco a Academia Imperial de Medicina e o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, do qual era sócio, enviaram representantes. Alguns dias após sua morte, seu nome foi lembrado em notas e citações de rodapé por essas instituições, para, em seguida, ser silenciado de nossas memórias. 

 

Insistem em nos convencer de que negros e negras, no século XIX, somente foram escravizados! Que possa o nome e a história de vida de José Mauricio Nunes Garcia Junior servir como prática educacional positivada de um passado negro repleto de resistências silenciosas, mas sempre resistências. Para além disso, histórias como esta atendem às diretrizes da Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que institui o ensino de cultura negra, na medida em que nos ajuda a positivar esse passado. 

 

Assim sendo, que possamos nós, nossa contemporaneidade, REPARAR e divulgar a memória e a história de vida desse importante e atuante médico no Rio de Janeiro do século XIX, como prática e forma de uma educação antirracista. E que possamos atentamente trabalhar no combate às práticas cotidianas e diárias.

 

 

Vandelir Camilo é músico e historiador, mestre em História Política, CPDOC, Escola de Ciencias Sociais. Doutorando no Programa Interdisciplinar de Memória Social, UNIRIO, onde pesquisa sobre a história de vida do médico doutor José Mauricio Nunes Garcia. Atualmente realiza pesquisas no campo da memória social com ênfase em lugares de memória, memoriais e, nas relações étnico-raciais; masculinidades negras e intelectuais e músicos negros


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