O insurgir contra a violência racista
Segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O insurgir contra a violência racista

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil 

 

 

Por Ricardo Corrêa 

 

“Nós temos sustentado uma luta secular em resgate da nossa dignidade humana, da nossa história e dos nossos valores culturais.” – Abdias do Nascimento

 

 

No dia 20 de novembro é comemorado o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Importante momento que rememora a história de Zumbi dos Palmares, e remete à sociedade a mensagem de que os negros seguem preservando a cultura africana/afro-brasileira e resistindo politicamente. Nesse contexto, a celebração estimula debates entre os negros sobre as condições sociais, estratégias antirracistas, formação política de sujeitos negros. Como ensinou o ex-militante dos Panteras Negras, Stokely Carmichael, “quando falamos de sobrevivência, nos organizamos politicamente, organizamos de forma consciente. O que eles chamam de educação, nós chamamos de Consciência Negra”.

 

Ao analisarmos o processo de formação da sociedade brasileira, constatamos que Abdias do Nascimento, político e pan-africanista, estava correto quando disse que a luta dos negros acontece há séculos, contradizendo os argumentos de pseudo-historiadores. Para eles, a abolição da escravidão resultou da generosidade da Princesa Isabel e a democracia racial é uma realidade. É inadmissível a releitura da história que ignora a organização e a resistência dos escravizados que culminou no sufocamento do regime escravagista. Além disso, testemunhamos diferentes violências, contra homens e mulheres negros, se amoldando na sociedade e demonstrando que a democracia racial continua sendo um mito. Em 2019, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, a cada dez pessoas mortas pela polícia oito foram pessoas negras¹. Nesse mesmo ano, os dados do Ministério da Saúde apontaram que 66,4% das mulheres negras morreram por causas obstétricas diretas². E não se encerra nisso, existem outras violências diferentes de mortes e assassinatos. Elas estão na escassa participação dos negros em espaços de decisão. No difícil acesso a saúde, moradia e educação de qualidade. No permanente encarceramento em massa, na ausência nos meios publicitários e na televisão − que não seja de maneira estereotipada e estigmatizada. Portanto, a reprodução do racismo concebe uma lista enorme de brutalidades. 

 

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Diante dessa realidade, a “sepultura social” agrupa a população negra em distintos compartimentos, e para rompermos essa lógica, precisamos de ações conjuntas das organizações e movimentos negros amparados da correta compreensão do racismo inserido na estrutura capitalista; qualquer pretensão em dissociar as opressões é cometer equívocos, jamais esqueçamos das palavras do ativista sul-africano Steve Biko “o racismo e o capitalismo são duas faces da mesma moeda”. Existem milhares de jovens, adultos e idosos negros que estão sofrendo com a violência e nem ao menos conseguem socorro do Estado. Eles, em sua maioria, moram em regiões de alta vulnerabilidade social, portanto, é importante uma atuação dos ativistas e movimentos negros nesses locais, desenvolvendo ações sociais, culturais e políticas. Estimulando diálogos que potencializem a autoestima, o sentimento de pertencimento e coletividade. Isso é a construção da consciência negra na malha social.

 

Os intelectuais e pesquisadores negros que estão nos espaços acadêmicos – lócus de suma importância na elaboração de ações, e diagnósticos dos problemas sociais -, devem decodificar os estudos à massa que está na marginalidade e não acessam esses aparelhos educacionais. A linguagem deve ser de fácil compreensão, e assim, possibilitando o avanço no campo da práxis revolucionária. Construamos estratégias para enfrentarmos os mecanismos políticos que nos reduzem em menos humanos, do que as pessoas brancas, pois essa redução tem aberto caminhos que submetem os negros à exploração econômica e normaliza a violência no imaginário social. E como disse a médica e doutora em comunicação e cultura Jurema Werneck “A insurgência se realiza rompendo com a regra da morte — e o nome disso é luta, sem esquecer nunca que essa luta tem protagonismo. O racismo tem que ser um problema pessoal, que arrasta outras pessoas criando coletivos, que não aceitam esse contrato”.

 

 

Ricardo Corrêa é professor e especialista em Educação Superior


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Notas:

[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública.  Disponível em: <https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2020/10/anuario-14-2020-v1-interativo.pdf> . Acesso em: 15 nov. 2020

[2] Marcas da violência obstétrica atingem majoritariamente as mulheres negras. Disponível em: <https://almapreta.com/editorias/realidade/marcas-da-violencia-obstetrica-atingem-majoritariamente-as-mulheres-negras> . Acesso em: 11 nov. 2020.

 

Referências:

BIKO, Steve. Escrevo o que eu quero. São Paulo. Ática, 1990.

CARMICHAEL, Stokely. Stokely Speaks: From Black Power to Pan-Africanism. Chicago: Lawrence Hill Books, 2007.

PORTAL CEERT. “O racismo tem que ser um problema pessoal de todos”. Disponível em: <https://ceert.org.br/noticias/direitos-humanos/43535/o-racismo-tem-que-ser-um-problema-pessoal-de-todos-diz-jurema-werneck>. Acesso em: 14 nov. 2020

PORTAL PDT. Dia Da Consciência Negra – Abdias Do Nascimento, A Voz Forte Contra O Racismo No Brasil. Disponível em: <https://www.pdt.org.br/index.php/dia-da-consciencia-negra-abdias-nascimento-a-voz-forte-contra-o-racismo-no-brasil/>. Acesso em: 15 nov. 2020.

SANTOS, Joel Rufino dos. Zumbi. São Paulo: Ed. Moderna, 1985

Segunda-feira, 23 de novembro de 2020
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