Quem cala, consente? O silêncio dos homens e das mulheres
Quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Quem cala, consente? O silêncio dos homens e das mulheres

Imagem: inova.jor.br

 

 

Por Maria Carolina Loss Leite

 

A pesquisadora Valeska Zanello¹, com o objetivo de entender ainda mais sobre seu objeto de pesquisa – a masculinidade – estudou como interagem os homens em grupos de redes sociais, especificamente o Whatsapp. O estudo analisou formações compostas por homens hétero e homossexuais que interagiam diariamente sobre as questões de gênero através de mensagens, vídeos e memes

 

Um dos destaques no seu estudo foi o silêncio entre os integrantes sobre os assuntos lá debatidos, inclusive entre cobaias – ou seja, os homens que estavam nesses grupos para colher informações para a pesquisadora – as quais mostravam certa preocupação em não identificar os demais homens em suas postagens, como vídeos expondo mulheres em situações degradantes e piadas racistas, para dar alguns exemplos. 

 

Para a autora, a broderagem – relação com o termo brother (irmão) em inglês – faz parte da construção de uma ideia do que é ser homem na sociedade. Baseados nesta cumplicidade, muitos homens, segundo seu estudo, mesmo não compartilhando sobre alguns assuntos, não se colocavam desfavoráveis ao que estavam acompanhando.

 

Outro ponto apontado por Valeska Zanello foi a objetificação feminina, em que partes do corpo são comparados a alimentos ou servem apenas para o deleite masculino. Traços físicos como o peso e a idade das mulheres também eram alvos de comentários preconceituosos através de memes. Além disso, a pesquisadora observou que o desejo sexual masculino é uma construção social e tido como algo incontrolável, podendo ser utilizado como motivo de desculpa em momentos de assédios e violências contra mulheres. Por conta disso, a mulher passaria a ser tida como um ser abjeto, em que sua humanidade não importa.

 

No que diz respeito ao racismo, a pesquisadora salientou que mesmo havendo integrantes não brancos nos grupos, estes não se manifestavam a respeito, mostrando, mais uma vez, que a cumplicidade para pertencer ao mundo másculo era mais forte que o pertencimento de raça.

 

Valeska Zanello traz, ainda, que os homens que não comentavam sobre as postagens tinham suas sexualidades colocadas à prova, sendo chamados de gays. E neste ponto, a autora enfatiza que o ser gay estaria ligado ao ser mulherzinha, sendo uma forma de rebaixamento masculino.

 

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Veena Das² (2020) – cujo livro foi traduzido este ano para o português – relata a violência vivida no cotidiano nos períodos da Partição da Índia e após o assassinato de Indira Gandhi. Segundo a pesquisadora, através do silenciamento feminino sobre diversas violências em seus corpos, o estado indiano se recompôs através de políticas públicas com o discurso de resgatar a nação “masculina e pura”. 

 

Para o estado, isso era uma questão de honra nacional, independentemente do que pensavam as mulheres, as quais haviam sido raptadas e retiradas de suas famílias de origem durante tal evento. 

 

Veena Das relata que o governo entendia que elas deveriam ser resgatadas, onde todos os esforços possíveis deveriam ser mobilizados para trazê-las de volta. Entretanto, reconstruir uma pátria civilizada era não apenas trazer as mulheres e filhas de volta. O resgatar nossas mulheres era mais que isso: era trazer as mulheres com potenciais sexuais e reprodutivos, em especial aquelas que estivessem em idade reprodutiva (entre 12 e 35 anos) para poder reconstruir o país através da geração de crianças nacionais.

 

E, assim como abordou Valeska Zanello, Veena Das também trata sobre a violação do corpo feminino na Índia como uma necessidade masculina, em que o homem entra em seu estado natural de não conseguir controlar seus anseios sexuais.

 

Por isso, a história da Partição da Índia se deu, na realidade pelo silenciamento de mulheres que por coerção calaram-se para que uma história fosse recontada. Assim, a pesquisadora relata que foi através do silêncio das violências sofridas pelas mulheres ao longo dos anos de guerra naquele país que se reergueu uma nação, sem deixar que fossem contadas as diferentes formas usadas para violentar aquelas mulheres, seja física ou moralmente falando. 

 

A pesquisadora ressalta que não houve tentativas de contar a história através de monumentos ou em audiências públicas, onde seriam relatados os estupros e assassinatos presenciados por diversas pessoas. 

 

Com isso, Veena Das traz a ideia do que seria uma vida e uma não vida no cotidiano, em especial quando se trata da vida e não vida das mulheres, criando uma zona cinzenta entre os dois mundos. 

 

E o que podemos concluir ao falar de silenciamentos de homens e mulheres? Com base nos textos apresentados, de forma bastante resumida, enquanto os homens se silenciam entre si para confirmar sua permanência no grupo dos machos ou até mesmo para se protegerem, dentro do espírito da broderagem– mesmo que isso cause uma violência em corpos femininos – às mulheres cabe o silenciamento por conta de suas experiências na vida cotidiana, em que seus corpos narram histórias não faladas, mas vividas, seja aqui, seja na Índia pós Partição.

 

 

Maria Carolina Loss Leite é doutoranda em Sociologia pelo Programa de Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – IESP- UERJ. Mestra em Sociologia pelo Programa de Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – IESP- UERJ (2020). Bacharela em Segurança Pública e Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2017). Vinculada ao Núcleo de Pesquisas em Direito e Ciências Sociais (DECISO). Vinculada ao Núcleo de Pesquisa em Sociologia do Direito (NSD).


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Notas:

[1] O GLOBO. Misoginia e cumplicidade: pesquisa analisa mensagens e memes compartilhados em grupos de homens no Whatsapp. Disponível em: https://oglobo.globo.com/celina/misoginia-cumplicidade-pesquisa-analisa-mensagens-memes-compartilhados-em-grupos-de-homens-no-whatsapp-24522031?GLBID=11e73ea8dd4654fa7addf152801f2608a72496a6d3441534f474b624e785743653136553978785a5242654d59726f47674c66796f455144356a7563567653454e4c516738774634684b387961386271796556616c3656726a32525f4a48433458622d576767413d3d3a303a6361726f6c616c6f73732e32303136. Acesso em: 10 nov. 2020.

[2] DAS, Veena. Vida e palavras: a violência e sua descida ao ordinário. Editora Unifesp, 2020.

Quarta-feira, 25 de novembro de 2020
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