A sala virtual e os enigmas da comunicação
Segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A sala virtual e os enigmas da comunicação

Imagem: Reprodução

 

 

Por Adriana Helena Moreira, Anderson Santos Rego, Larissa Santana Da Silva, Flávia Rosa, Janete Luiz e Julia Izadora

 

O ambiente educacional do tipo presencial comparado ao virtual denota suas particularidades, como dispostas nos currículos de ensino regular e à distância (EAD). Para o artigo, a intenção não é somente levar o leitor à reflexão do acesso à internet e dos recursos tecnológicos, tendo em si, a compreensão da necessidade para o ensino remoto do tipo emergencial. Em particular, gostaríamos como sujeitos da experiência (docente e alunos de graduação do Curso de Ciências Biológicas, UNEB, Campus X, Teixeira de Freitas-BA) de compartilhar alguns pensamentos ocorrentes mediante aos estudos feitos, em nossos encontros remotos. Foi evidente nos 6 meses de convívio (abril à setembro, 2020) durante o isolamento social/Pandemia Covid-19, o quanto o “sentir” a sala de aula teve espelho próprio. Cada olhar mostrou o quanto conceitos e valores são dados ao ambiente que promove dimensões do conhecimento, cada um a sua imagem, porém com um cenário comum.  

 

Independente das temáticas estudadas nesse período, aqui cabe relatar o entendimento da comunicação feita pelo meio virtual e seu impacto nas pessoas envolvidas no projeto. Revelou um outro tipo de linguagem como uma revelação ou nova descoberta à luz da compreensão dos relacionamentos pregressos, feitos em ambiente físico. O contato estabelecido em sala presencial, destoou em características positivas e algumas outras, serviram de indagações, nem sempre, ao caráter negativo. O pequeno número de alunos favoreceu essa análise. 

 

No Diálogo Aberto, como proposta ao próprio nome do grupo formado para fins de ensino-pesquisa (GEPDA), ocorria uma certa liberdade nas falas da comunicação entre os estudantes e docente. Na troca de olhares, nas expressões faciais mais próximas às telas, pareciam dirigir palavras em silêncio. A observação aos simbolismos das expressões, mesmo as mais sutis, certamente, levaram ao cuidado intensificado às novas descobertas. 

 

O “distanciamento” tornou-se o vetor da proximidade, indicando onde os olhares e a atenção das vibrações auditivas repousavam ou se dirigiam. Ao contrário da sala de aula, no ambiente físico, existe uma nova relação à postura docente e alunos. Então, o que parece provocar distanciamento social aos ambientes de tecnologia de informação e comunicação (TIC), surgia com efeito contrário ao momento vivido. 

 

O “alumigo” surge à ideia carinhosa da proximidade de alunos e docente. Um “calor” afetivo transcendia a tela, aparentemente, fria. Se a intenção era aproximar alunos à unidade de ensino superior através do contato docente, algo mais mostrou ser imprescindível à manutenção do projeto desenhado para fins de estudos da Neurociência e Comportamento. O grupo Diálogo Aberto surgiu no meio incerto aos desafios tecnológicos e de internet de uso doméstico, como um elo capaz de manter interesses além dos temas estudados, ou de sua utilização para outros fins sociais ou profissionais. Nesse entendimento, os alunos envolvidos no projeto se expressaram, como segue:

 

“A relação arcaica entre professor e aluno, fundamentada na pedagogia tradicional, foi desconstruída a partir do convívio virtual do GEPDA. A troca de experiências, pensamentos e ideias permitiu o aumento do vinculo afetivo e preenchimento da lacuna entre os atores. A relação de companheirismo entre ambas as partes é expressa no termo utilizado pela professora ao se referir aos participantes do grupo como – alumigos, exemplificando a força das relações construídas ao longo dos meses de convivência virtual. Ao decorrer dos encontros o olhar atento de quem conduzia os diálogos, assemelhava-se ao de um jardineiro que cuida e observa o desenvolvimento das rosas em seu jardim.”

 

Para os profissionais da educação ou de outros setores que aplicam o meio virtual como comunicação, com interesses diversos, o que se relata pode não ser inovador.  Cabe ao instante realizar uma reflexão do leitor ao grau de importância desses momentos aos envolvidos. Pode-se dizer que isso equivale quase a um possível colóquio, pela definição do termo. Como se o leitor e o escritor se dispõem a partilhar pensamentos quase inauditos, mas sentidos quando pessoas se reúnem e trocam olhares em um ambiente de conversa amigável. Como ser capaz de ascender a curiosidade de conhecer esse ambiente e pessoas, quem sabe, um estímulo para atenção comum e se dispor a novas experiências. 

 

Pessoas se mostram ou se escondem através das telas de seus computadores, “smartphones”, “tablets”. Nem sempre, percebida nas conexões as “verdades” e “inverdades” nas suas falas escritas ou audíveis e imagens. Na sala virtual, participantes podem preferir desligar as câmeras. Como um novo conceito ao diálogo, todos aprendem a “ouvir” uns aos outros, crendo no acesso e entendimentos do que se propõem a dizer. Ambas as situações são grandes exercícios. Um favorável a observação das expressões, por outro lado, de se compreender vibrações das vozes no reconhecimento do participante.

 

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No caráter emergencial do uso do TIC, não sendo exclusivo ao meio educacional, muitos setores sociais e profissionais fizeram uso intensificado nesses últimos tempos [1]. No entendimento, se bem aplicada, há vantagem para todos. Interessante que estar cada um em seu quadrado [2] demonstra um comportamento além do aparente. Isso concordamos em nossa experiência.

 

Nesse sentido o movimento para aprender se faz primeiro para fora, i.e., existe um aprendizado ligado a cultura, extraindo do meio, suas experiências levando a diferenças ao entendimento de conceitos e pressões da vida. Estar em isolamento no meio de uma ambiguidade de situações atuais, pensa-se no poder da evolução, onde os seres, em particular a humanidade, nascem para aprender, tendo ao inicio uma folha em branco. Capazes de escreverem linhas únicas ou novas, também, podem reescrever histórias ao entendimento do convívio e relacionamentos sociais. Essa ideia vem de acordo com LOCKE (1690), em sua obra Ensaio acerca do Entendimento Humano [3]. Quando o autor diz sobre as ideias derivarem da sensação ou reflexão, e que as mais simples favorecem repetir, unir , digo ainda, em reuni-las, há um poder semelhante as ondas magnéticas, atingindo massas de pessoas, de forma silenciosa, dentro dos hábitos quase imperceptíveis ao movimento da vida, em nosso conceito.

 

No ambiente de ensino as pessoas sofrem uma pressão do cenário da sala de aula. E, o movimento para aprender parece ser regido pelo ambiente como ocorre ao aspecto evolutivo, gerando as formas de interações humanas. Além disso, os papéis de domínio docente e dos alunos como ouvintes, demonstram ao primeiro, um poder de observação diferenciado ao que ocorre na sala virtual.

 

Na sala presencial, o cenário está para os olhos e ouvidos, na outra, pode haver um silêncio e escuridão, deixando questões sobre os efeitos positivos ou negativos das interações feitas. 

 

O papel do diálogo transpassa, por vezes, conhecimentos específicos, analíticos, prevalecendo o subjetivo ou intuitivo. Muitos esclarecimentos, nesse ponto, são vistos nas diversas pesquisas sobre mente e cérebro, inteligência emocional [4]. Dizem que a experiência demonstra que as emoções, muitas vezes, são atos irrefletidos e mais rápidas ao pensamento racional. Então, o ser social merece o cuidado ao poder analítico, crítico dirigido por raízes em outras causas ou possibilidades de medidas. Pessoas são um conjunto de experiências, em uma dimensão de tempo e limites próprios. A vontade ainda dirige como uma força para manter estímulos positivos ou seu oposto.

 

Aplicado a isso, a cultura familiar e todo o caminho feito, demonstra o que foi aprendido, como crenças e valores individuais. Surgem daí as características próprias ou da personalidade somada às experiências que compõem o ser social [5]. Poderia, assim, sugerir que existe uma ação indissolúvel ao conceito de Educação e aprendizado, como ocorre no meio da vivência nas salas de aulas. E, observam-se nos Códigos, símbolos de linguagem estabelecidos as nuances das comunicações feitas. Como por exemplo, na relação intelectual, cognitiva ou emocional. Esta percepção também tem sido revelada em estudos do processo de ensino-aprendizagem. Neles, se aplica o conceito de afetividade. Por meio dela, favorece não somente a transmissão do conhecimento, mas o de se ultrapassar fronteiras antes invisíveis. [6]. 

 

Na experiência há uma reconstrução de métodos pedagógicos. Pode ser, que o sucesso esteja na relação de confiança e intimidade entre docente e discentes, assim cremos em nossa vivência.

 

Desta forma, ao momento, entender o isolamento social não está nas TICs ou EAD, ou mais atualmente, ao termo da sigla EER – Educação Emergencial Remota [7]. Mas, na compreensão dos limites e do potencial de cada um. Tendo o cuidado da observação ampliada, para a percepção das reatividades ou sua falta. E, nesse pequeno “colóquio” pretende-se deixar o recado positivo de nosso convívio, ainda que se explorando os novos caminhos. Tendo o significado da fala pessoal a quem possa interessar:

 

“A sala de aula nos leva a conectar com pessoas. E, se pretende-se ensinar, há um caminho anterior, o de se aprender, conhecer, para depois transformar. A vida é um movimento incessante e, em convívio, ressignificamos conceitos.”

Por MOREIRA, AH

 

 

Adriana Helena Moreira é docente do Ensino Superior, Curso de Ciências Biológicas, Universidade do Estado da Bahia (UNEB, Campus X), Teixeira de Freitas-BA

 

Anderson Santos Rego, Larissa Santana Da Silva, Flávia Rosa, Janete Luiz e Julia Izadora são alunos de graduação do curso de ciencias biológicas, licenciatura, Universidade do Estado da Bahia (UNEB, Campus X), Teixeira de Freitas-BA


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Notas:

[1] ALVES, T. A. S. Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nas escolas: da idealização à realidade.  Dissertação (Mestrado em Ciências da Educação) Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Lisboa, 2009.

[2] GOMES, M.G.  Cada um no seu quadrado. Jornal da Educação – JE ISSN 2596-223X – online. Artigo de OPINIÃO DO JORNAL. 06 AGOSTO 2020. Acesso em 2 de setembro de 2020.  

[3] LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano (os pensadores). Editora Nova Cultural. ISBN 85-13-00906-7. Trad. Anoar Aiex. 318p

[4] GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional [recurso eletrônico] / Daniel Goleman; tradução Marcos Santarrita. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. 407p. ISBN 978-85-390-0191-0

[5] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

[6] SIMONETTO, KCC; RUIZ, AD.; MURGO, C.S. Análise da produção científica sobre a afetividade na educação. “Colloquium Humanarum”, Presidente Prudente, v. 9, n. 2, p. 48-54, jul/dez 2012. DOI: 10.5747/ch.2012. (v09. n2. p124) 

[7] JOYE, C. R.; MOREIRA, M. M.; ROCHA, S. S. D. “Distance Education or Emergency Remote Educational Activity: in search of the missing link of school education in times of COVID-19”. Research, Society and Development, [S. l.], v. 9, n. 7, 2020. DOI: 10.33448/rsd-v9i7.4299.

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