Que Djamila e Duda sejam o futuro
Segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Que Djamila e Duda sejam o futuro

Imagens: Duda – Lucas Ávila / Divulgação; Djamila – Acervo pessoal / Divulgação – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

 

Fazendo um apanhado dos textos que tenho escrito, me dei conta de que venho sendo excessivamente pessimista sobre um passado recente ou não tão recente. Entretanto, ver a performance de pessoas como Djamila Ribeiro no Roda Viva – cuja transmissão se deu no dia 10 de novembro de 2020 – sinto uma pontada de otimismo. Este otimismo é reforçado pelo fato de que tivemos em Belo Horizonte a extraordinária Duda Salabert como a vereadora mais votada. Não uso este texto para fazer um apelo ideológico ou um proselitismo partidário raso (ao menos não de forma deliberada), mas o fato de Duda ser uma professora de literatura em um país que passa por um momento de grave obscurantismo, uma ambientalista frente a um governo ecocida e uma ativista dos direitos de minorias face a um genocídio em curso, são fatos que não posso deixar de destacar. 

 

Vale, mais uma vez, fazer um esclarecimento (que já fiz em outras ocasiões). Quando falo em Djamila ou em Duda não ignoro que há uma série de outras lideranças políticas e intelectuais de igual quilate (e aqui não poderia deixar de lembrar de Lilia Schwarcz, Silvio Almeida, Vladimir Safatle, Marilena Chauí). Não ignoro, igualmente, que elas não são as únicas vozes que tornam possível imaginar um futuro melhor a partir de uma reflexão sobre um passado nada dourado. Todavia, destaco que ambas são um símbolo. Um símbolo de representatividade. Um símbolo de uma erudição que não exclui. Um símbolo de alguém que marca posições sem fechar as pontes para o diálogo. Um símbolo de como deve ser construído um futuro. 

 

Muito me frustra ver um segmento importante do que se poderia considerar o progressismo insistindo em um personalismo político voltado ao passado. Muito me frustra ver este segmento defendendo regimes degradados e, tristemente, queimando capital político em lives com ditadores. Digo isso porque não acho que alguém que se considere progressista deva se colocar como herdeiro de erros injustificáveis cometidos por “progressistas” do passado. 

 

Por isso acho que um símbolo de futuro é algo que precisamos. Nós, enquanto país, tentamos construir um futuro deixando intocável a nossa estrutura oligárquica, necropolítica, excludente, racista, misógina. Imaginamos que uma política de consensos com esta estrutura seria possível. Confiamos que a governabilidade era um preço pequeno a ser pago diante das relevantes conquistas sociais alcançadas. Acreditamos que seria viável manter os privilégios raciais de alguns e, ainda assim, superar o racismo estrutural com medidas afirmativas pontuais. Mas se o elemento estrutural ficou intacto, acho que tudo isso não passou de ingenuidade. 

 

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(Para deixar claro, quando emprego a primeira pessoa do plural nesta reflexão, neste sentimento de ingenuidade, talvez o leitor poderia dizer: “mas eu nunca imaginei que isso seria possível!”. Então eu me adianto: utilizei o “nós” para tentar atenuar uma culpa que é minha e que não merece ser atenuada, pelo excesso de ingenuidade). 

 

Djamila deixa evidente que não podemos construir um futuro sem passar a limpo a nossa história escravocrata. Embora isso pareça ser algo óbvio, é algo que deve ser vocalizado e martelado. E se há pessoas que negam esta face monstruosa de nossa sociedade, não se trata de uma obviedade. Por décadas imaginou-se que séculos de escravidão teriam se curado da noite para o dia, que séculos de golpismo militar cessariam com um pacto constitucional, que séculos de uma política pautada no genocídio de minorias acabaria magicamente, através de um generoso acordo entre os grupos hegemônicos. Mas não foi o que ocorreu. 

 

Tivemos uma Presidente e, claramente, não vemos evidências de que a violência de gênero, discursos machistas e a misoginia arrefeceram. Tivemos um Juiz do STF negro, mas as estatísticas raciais prisionais, de mortalidade por violência e criminais não parecem alentadoras. Conseguimos a instituição de uma Comissão da Verdade, de uma reserva percentual eleitoral de gênero, de um sistema de quotas. Mas a estrutura ficou incólume. Querem ver?

 

Durante todo o período do Governo Lula, onde parte destas “conquistas de reboco” (dou este nome porque, embora elas tenham sido cruciais, foram apenas superficiais, no nível do reboco, já que as estruturas, as bases mantiveram-se intocáveis), o seu principal articulador político foi um político das entranhas do Regime de Exceção Militar, José Sarney. O mesmo se deu com o Governo FHC, articulado por ACM e o Governo Dilma, articulado por Temer (que, aliás, fora Secretário de Segurança Pública no governo que promoveu a chacina do Carandiru. Isso não pode ser esquecido). As conquistas sociais vieram sob a tutela daquilo que tornou tais conquistas necessárias. Estranho paradoxo. 

 

E a Djamila? Ela aponta esse fato. Ora, se queremos que as pessoas parem de dar voz a discursos racistas, devemos pensar a própria lógica de funcionamento da sociedade. Devemos mudar a nós mesmos. Não se trata de dizer que “em pleno século XXI não se pode admitir discursos racistas” (como a Filósofa afirma). Devemos apontar que o racismo está presente na gênese/base/estrutura da nossa sociedade, nos nossos antepassados. Um futuro que seja diferente do nosso passado só existirá se as conquistas forem estruturais.

 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.


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