Um jogo intrincado
Segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Um jogo intrincado

Imagem: Antonio Augusto / Ascom / TSE

 

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Dar a César o que é de César, como diz o clássico provérbio, significa distinguir os méritos e deméritos dos grandes blocos político-ideológicos do Brasil hodierno, expostos na escolha dos munícipes.

 

 

Faz poucos dias que as eleições municipais de 2020 chegaram ao fim, em meio a um clima de mais de 180 mil mortos no Brasil. Entretanto, em tão pouco tempo, já se multiplicam as análises formais e informais a respeito dos resultados obtidos pelos partidos políticos brasileiros tanto no primeiro quanto no segundo turnos do pleito. Análises essas estampadas seja na imprensa liberal seja nas redes sociais de pretensos “cientistas políticos” sem formação ou nos canais de expressão de estrategistas acoplados à militância. Chegamos ao curioso caso de dirigentes de partidos derrotados participando de “laives” no Youtube para dizer que aquela perda em cidade X ou Y não é exatamente assim… Tais análises tem chegado a diagnósticos em comum, nos quais os substantivos próprios “Bolsonaro” e “Partido dos Trabalhadores” tem aparecido com frequência, repetindo os vícios de observação decorrentes da polarização de 2018. O panorama nacional, entretanto, vai de encontro à essa dicotomia, ainda que ela importe; e as eleições presidenciais de 22, apesar da proximidade temporal, ainda parecem muito distantes.

 

Logo no primeiro turno, era evidente nas esquerdas a empolgação com alguns feitos. O maior de todos: a ida de um candidato enraizado nos movimentos sociais por moradia para o segundo turno da maior cidade do país. Outra realização apontada foi a eleição de candidatos indígenas, quilombolas e mulheres trans, travestis, e mesmo de alguns mandatos coletivos do PSOL. De quebra outros nomes da “boa política progressista” como Edmilson Rodrigues, Marília Arraes e Manuela D Ávila também conseguiram avançar na disputa de capitais importantes, tornando o sonho de uma “muralha de resistência” aos desvarios federais algo possível. Esse clima de êxtase, entretanto, correspondeu bem mais a um vertigem do que a algo que correspondesse efetivamente a um ganho de poder político. Dentro da lógica municipalista, o quadro, com ou sem feitos, é de um campo progressista irrelevante ou inexistente. E quando existente, de fraquíssima coerência programática ou ideológica, regada à gestores locais conservadores ou mesmo reacionários no interior de partidos de “esquerda” ou “centro-esquerda”.

 

Historicamente, o pleito municipal tem pouco a dizer a respeito das proporções do conflito político nacional e é um dos espaços mais arenosos para obtenção de relevância por parte de políticas mais progressistas. Durante o seu auge, em 2004, o PT conquistou aproximadamente 600 prefeituras. O resultado já era pífio se levarmos em conta a existência de mais 5.500 municípios no Brasil de então. Esse efeito ocorre porque diferentemente das eleições nacionais, as municipais pouco ou nada tem a ver com a disputa pelos “sentidos da nação” (espécie de narrativa comum às últimas batalhas presidenciais). Contam bem mais a manutenção dos “cabides de emprego” nas burocracias locais, a compra massiva de votos, o atendimento às demandas comunitárias (ainda mais importantes para os vereadores eleitos, associados às lideranças de bairro), os asfaltos e obras públicas realizados nas vésperas das votações e o marketing histriônico que envolve “santinhos” em grande quantidade, jingles cômicos e vídeos e memes que circulam pelos grupos de whatsapp. Engana-se quem pensa que esse é um desenho dos rincões do país. As eleições nas capitais, como bem mostra o caso de Recife em 2020, também correm na mais absoluta ilegalidade.

 

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E quem possui capilaridade e fundos para montar essa verdadeira operação de “guerra” nas cidades? As legendas mais tradicionais, paridas da dupla MDB-ARENA instituída após o golpe militar de 1964 (o DEM de hoje por exemplo), em aliança, em muitos Estados, com o PT, o “associado vermelho” do jogo, e aquele que, importa dizer, continua sendo o único partido de esquerda relevante no cenário das eleições municipais. Com suas 150 prefeituras e uma derrota histórica nas costas, o bunker de Lula, Hoffman & Cia, ainda assim, continua dando provas da grave pobreza analítica dos jornalistas brasileiros que festejam uma tomada de frente das esquerdas pelo PSOL ou mesmo por partidos proto conservadores como o PDT e o PSB, ainda que esses tenham muito menos recursos do fundo eleitoral, menos filiados registrados no TSE, baixa ligação com os sindicatos e governem menos pessoas no âmbito da população total.

 

Destarte, a rearticulação fenomenal do PSDB nas cidades em 2016 e em 2020 – intercedidas por um péssimo resultado em 2018 – dá conta de que uma compreensão realista da política deve perpassar o fato de que “fascismo versus democracia”, “direita  versus esquerda” ou “conservadorismo versus progressismo” não são abstrações importantes para além de círculos urbanos educados em uma cultura de profunda fragilidade institucional. As necessidades básicas do eleitor e seus vínculos sociais e familiares são absolutamente mais centrais quando falamos de eleições municipais. O “voto útil” ou influenciado pelas pesquisas eleitorais é também absolutamente comum, bem como o domínio do “personalismo” ou do voto na “pessoa” e seu carisma em detrimento do voto em um projeto ou em propostas específicas. Um mundo de emoções, afetos e “roncares de barriga” acima da racionalidade dos programas escritos.

 

Por fim, é tecnicamente pouco provável afirmar que os resultados das eleições municipais são algum sinal antecedente para as eleições de 2022. Justamente, porque como dito acima, a lógica do voto se altera significativamente. Um PT fraco agora não indica um PT fraco em dois anos. O que aconteceu com o partido entre 2016 e 2018 é um indicativo dessa tese. Uma hipótese do porquê essa alteração ocorre é o fato de que o mandonismo, típico da interação direta dos representantes políticos locais com as suas bases, tem menos capacidade de influenciar o resultado das eleições presidenciais, e na disputa nacional a “narrativa ideológica” tem maior relevância, autorizando uma aglomeração em torno de figuras emergentes (o “lulismo”, a ascensão de Collor). Nessas circunstâncias, contudo, uma “frente ampla” de centro-esquerda ainda continua sendo estratégica, mesmo que sejam notórias e conhecidas as tentativas de isolar o PT nessa seara e a insistência em um “purismo ideológico” em determinados nichos da esquerda radicalizada, que em nada condiz com o mundo “pseudo democrático” liberal contemporâneo.

 

Um Bolsonaro fraco em 2020 agora também não indica um Bolsonaro fraco em 2022. Se a direita propriamente “bolsonarista” teve um papel absolutamente secundário nesse pleito, ela ainda detém um farto repertório de narrativas demagógicas, ligado à posturas morais enraizadas socialmente, e uma atuação radicalizada no primeiro mandato presidencial capaz de determinar a reeleição a partir de uma disputa do imaginário anti comunista. A aliança com o agora vitorioso “centrão”, do qual o governo federal tem feito um movimento de profunda aproximação nos últimos meses, e a possibilidade de se filiar a um PP ou PSD, com o fracasso do Aliança pelo Brasil, também fortalecem a campanha da qual efetivamente o capitão da reserva jamais saiu durante a sua gestão. São esses processos que merecem a atenção de qualquer um ou qualquer uma que ainda mantém vestígios de preocupação com o futuro de alguns dos parcos mecanismos democráticos herdados pela Constituição, sem cair na ilusionismo triunfalista ou no derrotismo inconsequente.

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Bacharel em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)


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