Os riscos da militância triste e o que isso tem a ver com a ética de Espinosa?
Sexta-feira, 5 de março de 2021

Os riscos da militância triste e o que isso tem a ver com a ética de Espinosa?

Imagem: Lumena Aleluia – Reprodução / TV Globo

 

Por Priscila Aurora Landim de Castro

 

Lumena é a mais recém eliminada do programa Big Brother Brasil.  Baiana, mulher preta, periférica, lésbica, acadêmica, psicóloga, militante, de fala firme que não se desculpa por dizer e que diz coisas importantes. Ela acabou metendo o dedo em algumas feridas nacionais.

 

Frequentemente, Lumena se excedeu numa prosopopeia academicista. Hoje, durante a entrevista com a Ana Maria Braga, a baiana explicou a sua relação com outra participante da edição, Carla, falando em microfísica das relações políticas dos afetos. Só faltou mandar um salve ao Foucault, meu rei! E, como era de se esperar, muita coisa sobre a qual ela falou não foi compreendida pela audiência. E para além da compreensão geral do conteúdo proferido por ela, Lumena efetivamente se excedeu muitas vezes, tendo ela mesma reconhecido isso.

 

Mas exatamente onde e porque Lumena se excedeu? O consenso nacional é que ela errou a mão na militância. Há quem aponte que ela militou errado, outros dizem que ela militou demais ou militou quando não cabia militar. Enfim, o X da questão do eventual excesso da Lumena era a militância recorrentemente feita por ela.

 

A elaboração desses possíveis excessos vinha sendo processada pela participante, especialmente após a saída da Karol Conká. Diante da sua indicação para o paredão, Lumena desabafou com os outros participantes e falou exatamente o que transcrevo abaixo:

“Quero matar algumas Lumenas aqui, mas eu não tô conseguindo. Para deixar a Lumena criança vir. Só que aí a performance da militância fica aqui dentro. Mas eu não quero mais isso e ela volta”.

 

Interrupção dos outros participantes, em especial o Fiuk, que interfere dizendo: “se o Gil conseguiu, se eu consegui, você consegue”. Lumena continua aos prantos:

“Eu não quero gente, é muito pesado. Eu não quero ser só isso na minha vida. Eu não sou só isso. Eu não queria ser só isso”.

 

Alguns podem avaliar a atual postura da Lumena como uma mera conveniência do jogo. Eu prefiro analisar sobre a perspectiva de quem considera que há verdade e há desespero nesse desabafo.

 

Aparentemente Fiuk e Lumena não compartilham o mesmo paradigma sobre o que viria a ser uma performance militante. Fiuk no início da edição estava se esforçando, até em excesso, no papel do homem branco alinhado com o discurso politicamente correto. O que para ele talvez seja um esforço de mobilização de consciência, é para Lumena uma condição de existência. Isso implica dizer que Fiuk e Lumena não performam a militância da mesma forma. Para Lumena a militância é a condição da sua existência e, possivelmente, o único lugar a partir do qual ela se fez ouvida.

Lumena sofre de um mal que não criou sozinha e do qual intimamente participamos todos. Trata-se da expectativa de que toda pessoa preta que se comunique na internet ou que produza conteúdos em qualquer espaço deve, necessariamente, fazer isso sob o prima político, deve ser engajado, e deve ter como pauta exclusiva o debate sobre a negritude.

 

Trata-se da expectativa de que pretos se reduzam a falar e a pensar sobre a sua condição de pretos. O mesmo não se aplica aos brancos que se ocupam de pautas diversas, políticas ou não, sem que sejam convocados a debater a branquitude. Observe que ninguém demandou de um intelectual branco uma explicação sobre os motivos de Bolsonaro ser o que é e fazer o que faz por ser um homem branco. Muito se falou sobre os excessos do presidente, entretanto, a branquitude nunca ocupou o centro de nenhuma análise. Isso é característico da forma como a raça é historicamente associada a uma categoria aplicada exclusivamente aos pretos, sendo os brancos considerados neutros racialmente ou sujeitos universais.

 

Possivelmente, Lumena viu-se intimamente convocada a pensar a sua condição de mulher preta, periférica e lésbica para sobreviver no mundo. Paralelamente, o mundo também pode ter reduzido Lumena ao papel da militante e qualquer eventual relevância das suas ideias e palavras estariam contidos naquele personagem.

 

Talvez Lumena tenha acreditado que o papel da militante fosse a sua única condição de existência, motivo pelo qual deveria manter-se nele em tempo integral. Para além disso, ela tornou-se no jogo o pior tipo de militante: triste, rancorosa, dura, às vezes amarga. Esqueceu o conselho icônico de Che Guevara, “é preciso ser duro, sem perder a ternura, jamais”. Esqueceu a célebre prescrição de Paulo Freire “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

 

Lumena entristeceu e a identificação disso está inscrita no seu desabafo e choro. Como ser uma militante alegre diante da materialidade das contradições do mundo? Como não se entregar à amargura e ao mal estar? É realmente difícil ser uma militante alegre.

 

Proponho pensar essas questões à luz da ética espinozista, tentando escapar do desserviço coaching e do positivismo tóxico que constantemente prescrevem que se mentalize, sorria, acene e, se possível, aliene-se frente à dureza da realidade e frente ao caos.

 

A alegria e a tristeza constituem uma dualidade da militância e exatamente por isso cabe retomar o pensamento de Espinosa, cuja filosofia tem a alegria como um dos seus pilares.

 

Espinosa define a alegria como sendo o aumento da potência de existir. Por sua vez, a potência de existir engloba a potência de agir e de pensar. A tristeza seria o oposto, no caso, uma diminuição da potência de existir (potência de agir e de pensar).

 

Para Espinosa, a tristeza seria a diminuição na capacidade de afetar e de ser afetado, portanto, uma diminuição na capacidade de agir e de pensar. A tristeza envolveria um encolhimento da pessoa (ou corpo triste).

 

Espinosa recusa a possibilidade de se aprender algo com a tristeza ou, de outro modo, de se aprender algo a partir de um estado triste. Essa impossibilidade decorreria do fato da tristeza implicar a redução, o encolhimento da capacidade de agir e de pensar e, portanto, uma diminuição na capacidade criativa e criadora.

 

“A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior. A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor”. (Ética – Espinosa)

 

Contraposto à Espinosa está a crença, atribuída especialmente aos artistas, de um papel criador ou inspirador nos estados tristes. Acredita-se que poetas, músicos, artistas plásticos criariam tendo como elemento inspirador ou propulsor a tristeza. Sobre isso, Espinosa argumenta que as ações criativas que eventualmente julgamos derivadas da tristeza não seriam manifestações da tristeza propriamente ou dela na sua condição pura. Ao invés disso, tratar-se-ia da manifestação de alguma alegria que ressuscitaria o sujeito do seu estado triste. Dificilmente uma pessoa é ou está integralmente triste ou alegre, comumente esses estados se revezam e se atravessam. Assim, o ímpeto criador ante a um estado triste seria a manifestação de uma fagulha de alegria, uma vontade de modificar o estado de coisas tornando-se alegre.

 

Para não cair em desgraça é preciso cultivar alegria e esperança. Não uma esperança ou uma alegria passivas, daqueles que esperam que as coisas caiam do céu, mas, sim, daqueles que agem em direção àquilo o que desejam. Nesse sentido, a esperança e a alegria compõem também as condições para o desenvolvimento da nossa liberdade.

 

O objetivo da ética espinozista é encontrar um caminho em que se possa angariar o máximo de paixões alegres e recuperar o valor de uma pequena alegria. Os bons encontros figuram entre as formas defendidas pelo autor de se fazer suscitar a alegria, uma vez que eles seriam capazes de abrir caminhos para novas formas de se relacionar.

 

A militância pode ser o lugar para o bom encontro. O encontro da escuta, da fala, do amparo ante ao desamparo. A militância não precisa ser triste. Também não precisa negar a tristeza que há no mundo. 

 

O peso da dor do mundo pesa sobre os ombros da Lumena. Não se trata da dureza com que ela se impõe em relação aos outros, mas, principalmente, sobre a dureza com que ela se impõe em relação a si mesma.

 

Não sei se haverá um saldo positivo em meio a tanta tristeza transformada em entretenimento, mas espero que a participação no programa desperte-a para a necessidade anunciada por ela mesma de dar as mãos para a Lumena menina que se soltou de si.

 

 

Priscila Aurora Landim de Castro é socióloga, doutoranda no PPGSOL/UnB.

Sexta-feira, 5 de março de 2021
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