Das raízes do Brasil, ao Brasil da casa-grande
Quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Das raízes do Brasil, ao Brasil da casa-grande

Imagem: Gilberto Freyre – Reprodução

 

 

Coluna Cláusula Pétrea, dos juízes e juízas da AJD

Por Antonia Marina Aparecida de Paula Faleiros 

 

Na onda do nacionalismo que se instalou no Brasil  no primeiro quartel do século XX e que teve na Semana de Arte Moderna (SP, 1922) seu evento mais emblemático, diversos autores se debruçaram sobre o tema da formação do povo brasileiro com ênfase no estudo dos mecanismos internos de construção de nossa sociedade para, de certa forma, legitimar um pensar genuinamente brasileiro.

 

No âmbito das artes, tal onda nacionalista ficou conhecida como Modernismo Brasileiro.

 

Os autores modernistas, em todas formas de manifestação cultural disponíveis à época  buscaram encontrar fundamentos autoctones para explicar a realidade brasileira com objetivo mesmo de firmar uma identidade nacional.

 

A obra Raízes do Brasil publicada em 1936 por Sergio Buarque de Holanda se insere neste contexto de descoberta de uma brasilidade ou de tentativa de explicar as peculiaridades que dão a identidade à sociedade  brasileira.

 

Alguns anos antes, em 1933, o escritor pernambucano Gilberto Freire (1900-1987) publicara Casa Grande e Senzala na qual, sob o prisma da sociedade rural açucareira nordestina, traçara um perfil do povo brasileiro tomando como referência as interrelações entre senhores e escravos, daí o título, inclusive e principalmente sob o aspecto da miscigenação.

 

Até onde se sabe, nem Sergio Buarque nem Gilberto Freire realizaram pesquisas de campo ou fizeram observações científicas controladas que pudessem atestar a veracidade de suas conclusões.

 

Em outras palavras, do ponto de vista metodológico, possivelmente ambas as obras seriam rejeitadas por alguma ilustrada banca acadêmica ao fundamento de padecerem de cientificidade.

 

Todavia, nem só de experimentação se faz ciência e ciência política é, sobretudo, um produto da dialética e sob esse prisma, as duas obras revelam,  principalmente,  como as elites viam o povo.  

 

Sim porque ambos os autores eram genuínos representantes das elites de seu tempo:  Freire, nascido em Recife/PE no seio de uma abastada família, e Holanda,  um legítimo representante da burguesia paulista do início do século, oriundo de família tradicional com raízes remotas no patriarcalismo pernambucano,  mas já engajada na modernidade representada pela industrialização.

 

Feitas as necessárias adequações de tempo e abrangência,  a obra Raízes do Brasil se traduz quase que em um mito de criação da sociedade brasileira sob a ótica de uma certa camada da população representada por seu autor.

 

A partir de suas próprias vivências,  da analise sociológica não experimental e do estudo histórico, o autor formulou suas hipóteses e explicações sobre as origens e funcionamento das relações sociais no Brasil pré-industrial.

 

A própria teoria do brasileiro como “homem cordial”, que teria sido primeiramente desenvolvida pelo magistrado santista Ruy Ribeiro Couto (1898-1963) conforme noticia Elisa Goldman, se revela muito mais uma constatação derivada do status social do observador do que uma característica comum a toda a sociedade.

 

A bem da verdade, a tal cordialidade brasileira nada mais é que a outra face desse outro aspecto observado e analisado por Sergio Buarque: a cultura personalista.

 

No período colonial, em especial, até 1808 com a vinda da família real, o Brasil ocupou o posto de  fornecer de matéria prima, explorada a partir de um modelo de concessões e servidões, no mais das vezes, administradas  não pelos titulares das concessões,  mas por prepostos a quem aqueles cometiam o cuidado de seus domínios e o repasse das rendas auferidas.

 

A dependência se estendia a outros campos como a produção cultural, sistema legislativo e religião.

 

Destarte, a elite econômica que se estabeleceu no Brasil vivia à rédea do verdadeiro senhor, a nobreza imperial portuguesa.

 

Portugal, por seu turno, se encontrava em situação de dependência em relação à Inglaterra recém-industrializada. Além do aspecto econômico, a dependência portuguesa em relação à Inglaterra estava ligada ao poderio naval inglês do período elisabetano.

 

No fim das contas, nem os senhores-de-engenho brasileiros nem  a nobreza portuguesa tinham realmente o controle da produção e do comércio de açúcar.

 

Com isso – senhores para alguns e servos para outros –  nobres portugueses e a elite colonial brasileira teriam desenvolvido essa forma peculiar de se relacionar: ora com autoritarismo extremo, ora com subserviência aviltante.

 

Sergio Buarque não diz isso. Aliás, sua analise se circunscreve a um dos polos da relação de cordialidade: o  homem cordial. 

 

Tantas controvérsias  suscitou a teoria do homem cordial que o próprio Sergio Buarque  em carta resposta a Cassiano Ricardo, escrita em 1948,  retomou o tema para, de certa forma, minimizar-lhe a abrangência como noticia Elisa Godman (op cit, pag 08):

 

Com a crise que se abateu sobre o comércio do açúcar em especial pela concorrência da produção das Antilhas, emergiu a nova atividade econômica centrada na cafeicultura, igualmente construída sobre a exploração do trabalho de pessoas escravizadas.

 

Em 1936, data em que o livro Raízes do Brasil foi publicado originalmente, o Brasil encontrava-se recém saído da  República Velha (1889/1930) período que ficou conhecido como da política do café-com-leite em alusão à aliança entre os grandes latifundiários de  São Paulo e Minas Gerais para indicação do candidato a ser apoiado por ambos os Estados para a  presidência da república.

 

De certa forma, o livro representou a síntese do pensamento emergente em sua época ao mesmo tempo em que abriu a discussão sobre a existência de uma identidade nacional conquanto ainda sem a devida ênfase ao componente da diversidade étnica e cultural que marca os novos tempos. 

 

Neste primeiro quartel do novo século,  marcado por profundas transformações sociais e políticas (e uma epidemia para chamar de sua), mais que nunca se revela pertinente a discussão sobre o que vem  a ser identidade nacional, quais fatores e elementos atuaram na formação dessa identidade e, por fim, o que se pode tirar de lição da história para que os erros ou equívocos do passado não se repitam indefinidamente numa roda trágica de  infortúnios.

 

A própria noção da cordialidade, hospitalidade e caráter manso e pacífico do povo brasileiro tem sido repensada.

 

A cordialidade externada em determinadas situações tal como se observa quando alguém dispensa a outrem um tratamento exageradamente respeitoso e reverente ou ainda gentil e brincalhão (meu rei, meu chefe, patrão etc etc) não seria apenas uma forma  de resistência ou um instrumento de barganha no trato social?

 

E no âmbito das relações publicas ou institucionais, ainda haveria espaço para atuações carregadas desse subjetivismo personalista?

 

Por outro lado, o reverso da cordialidade é o tratamento rude e pouco respeitoso que se costuma dispensar àqueles que ocupam posições menos privilegiadas na sociedade.

 

O mesmo sujeito pode apresentar atitudes absolutamente contrárias conforme o status do destinatário de suas ações.

 

Em outras palavras: a cordialidade ou o jeitinho possivelmente demonstrados no trato com os poderosos ou pessoas de escalão mais elevado não existia e nem existe no caminho inverso, ou seja, no trato com subalternos ou pessoas de posição social inferior, em que a  truculência era a regra. 

 

Era e ainda é.

 

Não sem motivo é o emprego da expressão “sabe com quem está falando” exatamente como senha para que o interlocutor possa se recompor e, quiçá, assumir a posição de cordialidade ou subserviência que dele se espera e que lhe irá abrir as portas para a satisfação de sua pretensão ou, pelo menos, livrá-lo de uma situação complicada.

 

No âmbito da atuação dos agentes de segurança pública, não é incomum verificar-se  tal dualidade de conduta.

 

Um determinado agente público que é extremamente cioso das prescrições legais quando se trate de abordar pessoas de condição social elevada, não apresenta, às vezes, o mesmo cuidado ao tratar com a camada da população mais vulnerável socialmente que, no fim das contas, costuma ser o extrato social do qual ele próprio é oriundo.

 

Rejeitar ou depreciar no outro suas próprias características, pode ser um reflexo do espelho distorcido com o qual se habituou a retratar os aspectos pessoais e culturais que formam a identidade do povo brasileiro em suas matrizes não-eurocentricas, em especial, indígenas e africanas.

 

Racismo é construção social calcada em relações que impõem supremacia de um ser e seus valores/qualidades sobre outro ser a quem se negam valores/qualidades. E o principal sujeito a ser convencido de que não possui valores/qualidades é exatamente aquele a quem tais atributos são negados.

 

Desconstruir todo um processo social de formação de identidade fundada em desigualdade e discriminação é tarefa difícil, mas não impossível. 

 

A senzala que habita em nós resiste e reaje.

 

NOTAS  DA AUTORA

 

Este é um trabalho em construção e faz parte das reflexões da autora em relação ao processo de branqueamento que orientou a formação de sua identidade e do racismo estrutural só tardiamente percebido.

 

 

Antonia Marina Aparecida de Paula Faleiros é juíza de Direito na Bahia  e escritora.

Quarta-feira, 15 de setembro de 2021
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