Porque a divulgação acadêmica precisa aprender a ouvir
Sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Porque a divulgação acadêmica precisa aprender a ouvir

Imagem: Freepik

 

Coluna Por Elas, das pesquisadoras em Segurança Publica da UFMG

Por Valéria Oliveira e Ludmila Ribeiro

 

Em um momento em que, como nunca, parte importante da sociedade experimenta pela primeira vez um risco grande e real de perder a saúde ou a vida, parece vazio perguntar algo assim. Mas em uma coluna como essa, que discute segurança pública, essa é uma questão central. Isso ocorre porque o medo move grande parte da engrenagem da segurança. É o medo que faz os cidadãos pressionarem o Estado a agir em prol de políticas que ajudem a tornar a sociedade mais “segura”. 

 

Então, como contraponto ao medo, temos a violência, enquanto um evento que desperta esse sentimento. O medo de se tornar vítima de um crime como um roubo ou um homicídio é algo que, de forma intuitiva, acreditamos que tende a crescer em regiões ou períodos em que há mais eventos dessa natureza. Mas nem sempre isso é verdade. O Chile, por exemplo, têm baixa incidência criminal, apesar de apresentar um dos maiores índices de insegurança, especialmente quando comparados aos seus vizinhos latinos que ostentam taxas de mortes violentas semelhantes a uma guerra. 

 

O medo, por ser subjetivo, pode ser grande entre aqueles que mesmo pouco expostos ao risco temem sofrer agressões severas, como as que aconteceram com um conhecido ou familiar. Assim, idosos, por exemplo, estão entre aqueles com mais medo do “espantalho” da violência urbana, mesmo circulando pouco em vias públicas em horários em que os crimes urbanos mais acontecem. A vitimização criminal é uma experiência intensa, que deixa recordações e até mesmo traumas. Mas o medo, ainda que não derive da concretização da ofensa, torna real para o sujeito algumas consequências de uma experiência de vitimização verdadeira. Quem teme, reage, por vezes, como quem, de fato, foi vítima. Por essa razão, o medo produz efeitos na esfera pública. Por medo deixamos de frequentar lugares, criamos estratégias como a do “telefone do ladrão”, um aparelho menos moderno, mantido para os momentos em que entendemos ser mais arriscado ser vítima de um roubo. Por medo, compramos câmeras, aumentamos os muros de casa, e segue a lista.

 

Esse medo social, distinto dos medos individuais que todos carregamos em nosso íntimo, pode ser ativado por muitas chaves. Existem os meios tradicionais de comunicação que repercutem com ares de espetacularização as cenas dos roubos filmados por câmeras de segurança. São cada vez mais frequentes os textos e áudios que circulam em redes sociais descrevendo eventos terríveis (“um novo golpe”) que aconteceram na última semana com alguém próximo de quem faz o alerta – e que, não raramente, viralizam até que já não se saiba quem foi a vítima do evento. Se tudo precisa ser postado antes e precisa viralizar mais, podemos dizer que na mesma velocidade cresce a sensação de insegurança das pessoas. 

 

Em resumo, muitas vezes o nosso sentimento de temor está relacionado ao tipo de informação que consumimos (nos jornais, na televisão, nas redes sociais e, talvez, mais do que nunca, no WhatsApp). Algumas pesquisas já dão conta de que, quanto mais informação uma pessoa consome, mais ela teme ser assassinada na próxima esquina.  Portanto, saber manejar essas chaves que ligam o nosso botão do medo coletivo é uma habilidade muito requerida em momentos excepcionais como os que temos vivido em razão da pandemia. 

 

O medo de contágio pela Covid-19 serviu para acender o botão de alerta da população mundial para o uso da máscara e para a adesão às medidas de distanciamento social, logo nos primeiros meses da pandemia, ainda em março de 2020. Mas esse mesmo medo, especialmente o de que novas pandemias poderiam ser “criadas” para a “destruição” da “vida normal”, também criou condições para mais preconceito contra chineses – e outros com ascendência oriental, que passaram a sofrer com situações embaraçosas em que foram apontados, até mesmo ao caminhar pelas ruas, como os responsáveis pela disseminação do novo coronavírus. 

 

A extrema direita em todo mundo opera bem as ferramentas para criar e alimentar o medo e se beneficiar dele. O temor dos imigrantes e refugiados que tomarão seus empregos ou contribuirão para o aumento das taxas de crime, a recessão e a fome, por exemplo, levou Trump à presidência dos Estados Unidos da América e pavimentou o caminho para o Brexit no Reino Unido. No Brasil, não ficamos de fora e observamos que o processo de mobilização que desaguou no último 07 de setembro teve como vetor, entre outros elementos, o medo. O medo de ter a esquerda no poder e do retorno do PT levou, entre outras coisas, aos 57 milhões de votos em Jair Bolsonaro em 2018. E esse temor segue vivo, como mostrou a última celebração da independência, e tem sido acionado para angariar apoio ao discurso autoritário do atual presidente da República.

 

O medo que alimenta Bolsonaro no poder 

Um medo que Bolsonaro aciona em sua base de apoio é a a ameaça socialista, que coloca toda a América Latina em situação de “vulnerabilidade”. A insegurança em torno de um modelo de gestão que ameaçaria a propriedade privada é grande até para quem não possui terras. Basta lembrar que uma parcela, ainda que em queda, de pessoas pobres e desempregadas apoia o presidente. Depois, vem o medo de que a família seja ameaçada por medidas que incluem a legalização do aborto, a aprovação de leis que protejam os direitos da população LGBTQIA+ e, ainda, a mais temida de todas, a famosa “ideologia de gênero” nas escolas. Essa última mobiliza muita gente e levou “cidadãos de bem”, movidos pelo temor de seus filhos terem uma iniciação precoce à vida sexual ou à sexualidade, a sair às ruas em defesa de Bolsonaro. 

 

Ultimamente, chama a atenção uma nova narrativa: a revolta contra o Judiciário, que, nessa narrativa, restringe liberdades de quem deseja proteger a vida e a família, ou seja, desse mesmo cidadão que tem fé em Deus e no presidente. Se desde a campanha presidencial o medo da violência era um dos argumentos para a defesa de medidas de flexibilização à compra, posse e porte de armas de fogo no Brasil mais utilizado, o judiciário como cerceador da liberdade de expressão é algo mais novo. Então, o mote do povo armado, “que jamais será escravizado” implica que, teoricamente, essa população seja capaz de se defender à bala das ameaças às suas liberdades (a de não cumprir medidas de distanciamento social, por exemplo), à integridade física da sua família e à sua propriedade. Esses medos se fortalecem pela intensa atuação em redes sociais de políticos e outros apoiadores do atual governo federal, como ativistas pelo porte de armas que são, ao mesmo tempo, simpáticos a um ideal de masculinidade baseado na capacidade de reagir e de proteger os seus e adeptos de vertentes mais conservadoras do cristianismo que, entre outras coisas, são rigorosas  no controle das condutas, principalmente, as femininas. Para essa base fiel de apoio ao presidente, a única forma de garantir que as armas serão utilizadas para a proteção, inclusive no discurso, é limitar o Poder Judiciário. Na visão desses grupos, esse não poderia jamais mandar para a cadeia pessoas que, como Roberto Jefferson, façam vídeos utilizando-as como adornos em defesa de medidas autoritárias. Para esses seguidores do presidente, isso sim, a prisão, fere a ordem democrática ao cercear sua liberdade de expressão.   

 

Quanto mais o discurso do medo se alastra, mais cria-se uma sensação de permanente conflito, do bem contra o suposto mal. Mais se entende que existem ameaças reais, das quais os bons homens e mulheres precisam se proteger. Mais as ameaças à frágil democracia deixam de ser discursivas para se tornarem atitudinais. O resultado, já sabemos, é o apoio a medidas que ofereçam mais sensação de segurança, mesmo que na prática isso não aconteça e não haja evidências de que a segurança dos brasileiros esteja aumentando.

 

Dito tudo isso, qual o papel da ciência e, especificamente, das ciências humanas nessa discussão? 

Não espere uma resposta definitiva. Afinal, no melhor estilo, “a ciência traz mais perguntas que respostas”, nos esquivaremos de cravar uma saída, mas apontaremos algumas possibilidades. Inicialmente, entendemos que é preciso construir uma divulgação científica que alcance um público diverso dos acadêmicos. Ou seja, ao invés de pregar para conhecidos e convertidos, precisamos convencer os Bolsonaristas que esses medos foram fabricados e que vários deles sequer existem. 

 

A ampliação das redes de comunicação com o público em geral pode ser um primeiro e muito importante passo no sentido de apontar o que a pesquisa tem dito sobre os medos relacionados à violência/segurança pública. É possível que tenhamos mais chances à medida em que se amplie o número de pessoas que conhecem resultados de estudos como os que apontam que há mais violência onde há mais armas, que as armas vendidas legalmente são facilmente encontradas nas mãos de quem comete crimes e que as reações bem-sucedidas de pessoas armadas a possíveis crimes são pequenas face à frequência e a intensidade dos casos em que o próprio dono da arma sai ferido.

 

Nesse sentido, há iniciativas importantes que já vinham se tornando populares, mas que ganharam força durante a pandemia. Todo o trabalho de grupos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Instituto Sou da Paz, o Igarapé e muitos outros em todo o país tem feito sua parte na produção de pesquisa de qualidade, mas também na produção de conteúdo para redes sociais e na participação de seus pesquisadores nos maiores meios de comunicação do país. 

 

A Universidade também tem se mostrado mais preocupada com essa questão, ainda que a sua linguagem, por vezes rebuscada, não ajude muito a alcançar os que não estão convertidos ao paradigma da ciência. Esta coluna, de certa forma, cumpre esse papel à medida em que os textos sempre trazem argumentos fundamentados em pesquisas construídas por nós e por muitos dos nossos parceiros que têm analisado o tema no Brasil e no mundo. De certa forma, podemos dizer que esse movimento se insere em uma resposta da comunidade científica em geral às fake news e ao avanço de ideias obscurantistas, já que tem sido identificado, ainda que de forma incipiente, o crescimento de perfis de universidades, centro de estudos e institutos de pesquisas nas redes sociais, como uma tentativa de se aproximar do grande público com uma linguagem mais simples e atrativa. 

 

Porém, acreditamos que ainda haja certa dificuldade em se comunicar com uma parcela da população que têm suas mentes e corações expostos a discursos de medo e ódio. Talvez, a maior parte dos nossos esforços de comunicação tenha se limitado a manter girando, agora em ambientes virtuais, a roda da produção de um conhecimento ainda difícil e pouco acessível. E isso é lamentável, dado que os temas sobre os quais nos debruçamos, apesar de complexos, têm consequências muito concretas para todos, inclusive para aqueles que não sabem o que é ou como funciona uma democracia representativa, o que é o monopólio do uso da força pelo Estado e a diferença entre segurança pública e segurança nacional. Nada disso importa quando o telefone parcelado em muitas vezes é roubado no sinal. Ou quando se tem receio de deixar o filho brincar na rua com medo de bala perdida. Quem fala melhor desses problemas e seus efeitos devastadores com a população, ganha sua empatia.

 

A tarefa não é fácil. Afinal, qual é o lugar das pesquisas sobre segurança pública, sistema prisional e justiça criminal em uma crise política e de narrativas como essa em que vivemos? Cremos que o desafio seja fazer o que fazemos melhor, pesquisa, aprendendo o que ainda não sabemos fazer bem, ou seja, comunicação. Nesse ponto, as redes Bolsonaristas têm muito a nos ensinar. Com uma linguagem simples, sem jargões acadêmicos, ou sem explicações complexas, elas tocam os corações de quem está com medo e quer uma solução imediata para o seu problema.

 

O nosso desafio é, portanto, conseguir nos comunicar com quem não tem tempo e nem tanto interesse assim em ouvir a pregação do “evangelho da democracia”, “professando a fé no método científico” e se “convertendo às evidências de pesquisa”. E, ainda, ganhar corações sem acessar promessas vazias de soluções fáceis, já que se tem uma coisa que as pesquisas já nos ensinaram é que, quando se trata de segurança pública, não há uma “resposta de ouro”. Talvez o caminho seja o de escrever e falar mais fácil. Procurando sinceramente entender os motivos para posturas como a de apoio ao presidente de um país onde ainda não paramos de contabilizar mortos por Covid-19 e o desemprego e a inflação têm piorado muito a vida das pessoas, principalmente, das mais pobres. 

 

Como dissemos, ainda estamos descobrindo como fazê-lo. Mas acredito que seja um processo que envolve as muitas camadas da nossa vida social. No âmbito privado, a visita aos familiares que votaram 17 em 2018 não precisa se resumir a disputas no formato “contra versus a favor”. No mundo acadêmico, os temas podem e devem envolver questões que tocam nos medos, deve dar mais espaço a conhecer as percepções dessa população que está longe de ser homogênea, mas que parece compartilhar um mal-estar próprio de quem sente medo de tudo, mas principalmente do outro. Essa mudança de uma postura que nos distancia da linguagem dos religiosos, dos pais e mães de famílias que já foram vítimas de crimes, dos moradores de bairros populares e das pequenas cidades brasileiras pode ser o caminho de partida para produção de um conteúdo mais interessante, menos academicista e, principalmente, mais acessível à população. Talvez seja hora de desbloquear em nossas redes sociais aqueles primos que, nos últimos tempos, se mostraram tão conversadores, a ponto de não serem mais reconhecidos por nós. E, a partir daí, falar também com eles. Não nos termos da provocação e tampouco reforçando ainda mais o medo de que em breve a ameaça fascista vá se concretizar no Brasil (nosso temor cotidiano). Não é com o medo que venceremos o medo. Talvez, quem sabe, começando com pequenos gestos, o resultado seja mais viável. 

 

Precisamos exercitar o convencimento que faz parte do jogo democrático, para nos comunicar com quem está descrente a respeito da democracia como a melhor saída para uma crise que atinge tantas esferas da vida. E, para tanto, nada melhor que um diálogo real, que se preocupa em ouvir quem apoia o presidente para entender os caminhos que levam ao seu entendimento e à sua emoção. Precisamos de um diálogo verdadeiro, que crie pontos de contato e não uma encenação, como o da carta de desculpas do presidente Bolsonaro pelas palavras antidemocráticas proferidas na Esplanada dos Ministérios e na Avenida Paulista no feriado da pátria. O documento foi redigido com o apoio de ninguém menos que o ex-presidente Michel Temer e só não é mais parecida com o revisor pela ausência das mesóclises. 

 

Sem isso, uma escuta aberta e disponível, corremos o risco de nos perder em uma fala difícil, tal qual a de Temer. Porém, ela toca pouco o brasileiro que vai às ruas empunhando a bandeira do Brasil e pode parecer um adversário, mas é alguém com o mesmo desafio de sobreviver diariamente num país que não é para principiantes. 

 

 

Valéria Oliveira e Ludmila Ribeiro são pesquisadoras do CRISP da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Sexta-feira, 17 de setembro de 2021
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