Suely Filippetto: Rumo à Arcádia
Segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Suely Filippetto: Rumo à Arcádia

Imagem: Justificando

 

Coluna Trabalho Além da Barbárie,

Por Suely Filippetto

 

Em territórios que desfrutaram integralmente de prosperidades proporcionadas pelo capitalismo – período conhecido como “anos dourados”, “trinta anos gloriosos”, “a era de ouro” – entre 1950 e 1970, e também em países periféricos, que não tiveram a mesma condição social de seguridade e de pleno emprego, abate-se a perda de direitos e segue a desgraça da miséria, desigualdade, criminalidade, guerras, fascismo, entre outros tantos fenômenos. 

 

A origem dos males não é determinismo. Decorre do sistema capitalista de produção de bens e serviços com a finalidade de aumento do capital, no qual o Direito está baseado em propriedade privada, Estado burguês e família conservadora. Ganham projeção a violência e o autoritarismo. Restringe-se a democracia. Para além de explorar quem trabalha, não mais absorve a mão de obra disponível. Intensifica exploração, exclusão e subordina qualquer um, inclusive clientes ou usuários. Avanços tecnológicos não conferem liberdade de escolha a quem trabalha e a relação que se estabelece entre o trabalho e o capital é de inteira sujeição de quem vende a força de trabalho.

 

Discursos anunciam aumento de emprego e melhoria da qualidade de vida, promessas nunca entregues à maioria oprimida. 

 

Para reconfigurar a sociedade, tendo em conta valores como autodeterminação, democracia e direitos dos povos, é preciso transformá-la. Planejar o crescimento econômico e social, de curto e de longo prazo e cumpri-lo.

 

Novas opções são necessárias, pensadas a partir de construção coletiva substancial e adequada e legítima representação social.

 

Ao comemorarmos o centenário de Paulo Freire, convém pensarmos na importância da educação com viés humanitário e, não para disciplinar e profissionalizar para trabalho, amparado em competição extrema e cuja riqueza não é justamente distribuída. O dever é formar todos e todas para a vida plena.

 

Demandas concretas e urgentes devem ser rapidamente atendidas em países periféricos. Não se pode abrir mão do estabelecimento de programas emergenciais de produção e distribuição de alimentos, nem de programas de renda, não somente para subsistência. É preciso que alcancem excluídos, inserindo-os em atividades que lhes proporcione viver com dignidade, mediante contrapartidas de participação em associação ou conselho para a atuação criativa na busca de soluções de demandas da coletividade. 

 

Articular e criar espaços para atrair o sentimento e a participação de massas, atentar para o que vem, virtuosamente, das pessoas que vivem e trabalham nas cidades e no campo, suas necessidades mais básicas e provê-las, mediante participação em organização coletiva, tendo em conta a vida em comum, a cooperação, igualdade de oportunidades e o comprometimento com o território onde vive.

 

O desenvolvimento das indústrias nacionais importa, sempre em contexto que considere interesses locais. É no setor industrial que o trabalho pode se estruturar com melhor proteção e desde que exista o controle de quem trabalha sobre o conteúdo de sua atividade, a qual demanda mobilização de corpos, formação de identidade, coletiva inclusive.

 

A vontade cultural de transformação deve ganhar relevância, aliada a ações das massas, para que a vida seja desfrutada em cooperação, solidariedade e, entre outras tantas ações, nova forma de disseminação de informações deve acontecer. Liberdade de imprensa não se confunde com liberdade de proprietários de meios de comunicação e de (des) informação de massas.

 

Políticas públicas devem atentar para o investimento. Emenda constitucional que impõe limite de gastos deve ser superada. 

 

Grandes setores privados não podem ter o controle exclusivo das políticas monetárias e fiscais. Conferir autonomia ao Banco Central e retirar dos Estados, do debate público, a decisão política econômica resulta no congelamento de ações governamentais, partidárias e sindicais. Ficam paralisados os meios de obter, democrática e criativamente, novas formas de organizar a sociedade, de resistir à opressão e à dependência, com perda de autonomia e soberania. Sem esse debate público, reserva-se à política somente a questão cultural, religiosa, entre outras, não sem importância, mas que em grande medida, por si sós, não resultarão em transformações necessárias para o alcance do que essas lutas, inclusive, propõem.

 

Para o enfrentamento da desigualdade, da miséria, da criminalidade, da fome, de projetos conservadores e de uniformização do conhecimento é preciso pensar que seres vivos importam e devem ter vida digna, educação integral, humanitária, voz, acolhimento, cuidado, proteção. 

 

Sistema de produção capitalista de bens, que estruturalmente despreza o meio ambiente e os seres humanos, mediante políticas violentas, não inclusivas e de encarceramento não nos servem, impondo-se transformar essa “fábrica” de barbárie.

 

 

Suely Filippetto é Juíza do Trabalho Aposentada do TRT-9ª Região. Especialista em Economia do Trabalho para Magistrados e Servidores Públicos pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP. Membra da Associação Juízes para Democracia (AJD).

 

Segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
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