Diretores de cinema no banco dos réus
Terça-feira, 6 de maio de 2014

Diretores de cinema no banco dos réus

Por Brenno Tardelli

Charles Chaplin, também conhecido como Carlitos. Um dos maiores gênios do cinema, foi grande fonte de inspiração para a sétima arte, principalmente por sua trajetória no cinema mudo e na mímica, desempenhados com perfeição.

Confesso que não vi toda sua obra, mas algumas experiências me marcaram. Canso de citar a cena de Carlitos em Tempos Modernos, girando o parafuso, repetitivo, burocraticamente, sem pensar em sua ação, até que acaba parafusando o próprio dedo. A cena, muito engraçada, remete-me ao nosso cotidiano: todos fazendo atividades sem “pensar”, apenas repetindo, tudo em nome do andamento da ordem.

Um outro lado também retratado por Chaplin fica em um bom lugar de minha memória. A fantástica interpretação em “O Grande Ditador”, o megalomaníaco soberano brincando com o globo terrestre, como se a guerra tratasse de uma gigantesca massagem em seu Ego (como de fato era). A qualidade de seus filmes, os quais dirigia, financiava e atuava, contrasta até hoje com o outro lado de sua vida.

Longe das telas, o diretor sempre me causou choque. Chaplin sempre preferiu meninas jovens. Muito mais jovens que ele, fato que culminou na mancha de pedofilia em sua carreira. Considerando apenas relacionamentos oficiais, de papel passado na igreja, seu histórico é extremamente complicado: Mildred Harris, sua primeira esposa, tinha 16 anos quando se casou. A segunda esposa, Lita Gray, também completara 16 no ano das núpcias, apenas um ano mais nova que Oona O’Neill, sua quarta esposa, quando o ator já havia completado 54 anos, todos relacionamentos iniciados antes da data do altar.

A grave acusação histórica – Chaplin nunca foi acusado formalmente por crime – nunca foi defendida. Na verdade, apenas recentemente figuras supostamente incontestáveis têm enfrentado abalos em sua biografia. Recentemente, Woddy Allen, outro gênio dos cinemas, teve sérios problemas com a denúncia de estupro feita por sua enteada.

“Quando tinha sete anos, Woody Allen me tomou pela mão e me levou para o sótão no segundo andar de nossa casa”. Com isso, Dylan Farrel, filha do cineasta, inicia sua acusação de estupro. Ele, por sua vez, atribuiu as acusações ao relacionamento com sua ex-esposa, Mia Farrel, que teria induzido Dylan a odiá-lo. Nesse caso, a polêmica cresceu tanto rumo ao editorial do The New York Times, quanto aos corredores da Justiça americana, que decidiu não levá-lo a julgamento, por conta “da fragilidade” de Dylan para enfrentar o processo.

A primeira vez que tive contato com graves acusações em relações a mitos do cinema foi no caso Woody Allen. Digo mito não só pela fama alcançada por seu trabalho, mas principalmente por seus filmes serem meus favoritos – neste rol, incluo Manhattan, Meia Noite em Paris Blue Jasmine – este último, curiosamente, um filme feminista, cujos dilemas da protagonista (mulher!) – fato por si só raro em Hollywood – se estenderem além de seus problemas com o patriarcado.

Apesar de gênio, em meu âmago, tive-o como culpado, muito por seu histórico amoroso conturbado – hoje é casado com Soon-Yi, que era sua enteada – o qual sugere um perfil adepto ao relacionamento entre ascendente/descendente, além da perseverança da vítima em denunciar o abuso sofrido.

O mesmo se aplica a Chaplin, cuja situação é mais confortável. Viveu numa época longe da contestação pública em vida, cujo machismo da sociedade era mais permeado e aceito. Era comum homens mais velhos se casarem com mulheres mais novas, na adolescência, embora o perfil avassalador do cineasta tenha sido reforçado e repetido durante décadas. O exercício de impossível resposta, mas de fácil especulação ajuda a explicar: fosse Chaplin mulher, com seu histórico de relacionamento com meninas mais novas, teria sido extremamente bem sucedido na carreira, ou seria julgado?

Contrário ao meu julgamento pessoal, outras pessoas entenderão que não há prova do abuso de Allen, bem como o contexto social de reprovação no caso Chaplin era absolutamente outro do atual, sendo uma injustiça julgá-lo agora, sob a ótica contemporânea. Julgamento diverso é extremamente válido e tem seu valor.

Até porque o abuso sexual, semelhança de ambos casos, é de solução complexa, por ser um crime que ocorre dentro de quatro paredes, na intimidade – no caso Allen o debate acerca desta circunstância se mostra mais evidente. De outro lado, acusação de abuso é um fato que, por si só, causa grande abalo na célula familiar, muitas vezes colocando a criança em terreno de rancor e ódio, suscetível a todo tipo de coação, tanto para acusar, quanto para se silenciar.

Um caso menos polêmico sobre abuso é o do cineasta Roman Polanski, com “O Pianista” e o “Bebê de Rosemary” no currículo. Polanski é foragido dos EUA desde 1977, quando um mandado de prisão foi expedido em razão de um estupro da menor Samantha Geimer, naquela época com 13 anos.

Nesses casos, Chaplin, Allen e Polanski revelam outro pano de fundo deste debate: é ético separar a obra da história?

A pergunta desafia no que “é ético” e não “é possível”. Inclusive porque certamente é possível assistir obras e admirá-las – nesse sentido, sou grande exemplo disso, como já demonstrado nesse texto. No entanto, considerando que verdadeiras obras de arte foram feitas no contexto de abuso sexual, ou ainda, que diretores de cinema foram inspirados vivenciando estupros, seria moralmente correto assistir suas obras, por melhores que sejam?

Debate semelhante surge na medicina. Parte da medicina defende que os horrores das experiências médicas realizadas por médicos de Adolf Hitler tiveram alguns avanços na pesquisa de hipotermia, quando pessoas eram congeladas até morrer. Nessa linha, a ética médica racha – de um lado há a vontade de utilizar os resultados para aprimoramento do trabalho, de outro há a recusa em analisá-lo, visto que suas origens são nefastas.

A comparação reside que, em ambos casos, resultados positivos foram obtidos em contextos negativos. É ético separar as pesquisas médicas do horror nazista? É ético separar a obra de arte da pedofilia?

Terça-feira, 6 de maio de 2014
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