O craque do futuro
Segunda-feira, 2 de junho de 2014

O craque do futuro

Há uma vizinhança interessante em São Paulo. Lado a lado, os gigantes São Paulo e Palmeiras, vizinhos de muro, em Centros de Treinamento modernos e badalados, têm defronte, ali, quase centenário, o heróico Nacional E. C., que, nos idos de um passado remoto, ocupava a tabela dos campeonatos regionais, quando as fronteiras dos estados eram nossas fronteiras do mundo, resistindo a todos ataques e atacantes da especulação imobiliária. O Nacional, o humilde Nacional, é conhecido como celeiro de craques, nome que a imprensa esportiva dá a essas agremiações de formação de atletas, todos dando suas primeiras botinadas no terrão que é o campo daquela meninada, todos sonhando vestir a camisa de Barcelona, Manchester, Chelsea, Internazionale, Bayern e o mundo não se esgota mais. Muito pequeninos ainda os garotos, na faixa dos nove anos, os mais velhos com doze ou treze.

Não há nada que um garoto goste mais de fazer que jogar futebol. Nem o video game venceu o futebol, conseguindo, aqui e ali, magros empates. Se alguém se der a perguntar a uma criança ou adolescente o que ele ele agarraria primeiro, se um gol de placa ou se um fase de video game, não tenho dúvidas que ele correria para a massa em delírio, gritando seu nome. 

O menino chuta tudo que vê pela frente assim que começa a equilibrar-se sobre as pernas, é uma questão de fascínio imediato, como se houvesse entre a esfera de couro ou tudo o que lhe parecer assim uma ligação imemorial ou cósmica. Vieram juntos na evolução darwiniana ou foram concebidos como prolongamentos recíprocos pela Criação. Seja para um lado, seja para outro, não há como negar, bola e criança vieram juntos ao Mundo.

Mas, algo diferenciava aqueles meninos  com chuteiras às costas cruzando o farol dos demais meninos do planeta; estavam sérios demais, compenetrados demais, tensos demais. Eram pequenos executivos cruzando apressados a avenida. Ao lado, pais e mães. 

O Estatuto da Criança da e do Adolescente traz em si um dispositivo constrangedor. No seu artigo 16, afirma que toda criança e adolescente tem o direito de brincar, praticar esportes e divertir-se. Literalmente, assim. No início da vigência da lei, houve os que viram manifesta demagogia, em incluir algo óbvio na lei, ora essa. Óbvio para algumas, menos para as crianças que trabalham de sol a sol e nunca possuem tempo para brincar. Na escola que lhes restou, todos querem profissionalizá-la, querem que ela seja marceneira, eletricista, ajudante de alguma coisa que alguém mais importante faria. Não precisam precocupar-se com filosofia, isso é coisa para os ricos. A elas, as crianças que não brincam, um profissão média, técnica, para que não saiam matando, roubando, estuprando.

A elas, restou, além do rap e do funk, o futebol. Porém, com a voracidade dos espigões, prédios, condomínios, centers-offices, shoppings, conheça aqui o seu recanto de lazer e segurança para você e sua família, os campos de futebol desapareceram. Os meninos da bola não podem mais brincar na rua, porque seriam atropelados. No lugar da espontaneidade e da brincadeira, o lúdico deu lugar ao pragmático: as escolas de futebol, os celeiros de craques. Quem sabe você não tira todos nós dessa merda? 

O que era brincadeira transformou-se em emprego, o que era diversão se transformou em compromisso e a criança, deixando de ser criança, passou a ser responsável pela alforria econômica de toda a sua família. Rapidamente, se houver algum talento reconhecido, uma matilha de cães, ops, empresários, cercará aquele garoto e oferecerá a ele uma visão de um paraíso que somente irá acessar se entregar sua vida, ossos, sangue e futuro nas mãos do lobo cuidador.

Já não é mais criança, já não pode mais se comportar como criança. Ele precisa ter garra, ter consciência e espírito de equipe, precisa ser matador, não ter dó, ser sherife, proteger a zaga com sua vida, é preciso que ele defenda até a morte e ataque até que não sobre mais ninguém vivo do lado de lá, da camisa de outra cor, disciplina tática. Um olheiro pode tirar a gente daqui e levar a gente para a Europa (expressão interessante, pois se dá a perceber que seja alguém que manufature alguma coisa, como fazem o cozinheiro, o costureiro, o pedreiro, mas que nada constrói, apenas olha, apenas e nada mais faz que olhar, quem sabe, construa ele o futuro que a família projetou). Não envergonhe seu pai. Lute até a morte, entendeu? O menino faz que sim, engole o choro e atravessa a avenida. Entra aterrorizado e sem entender que já é adulto. 

A exploração desse trabalho infantil é feita todos os dias e nela futuramente justificaremos nossas bandeiras. Gol. Penalti. Ele. O que acerta e corre para a torcida beijando nomes tatuados no braço, menino ainda, já tem dois filhos. O final feliz.

A exploração desse trabalho infantil é feita todos os dias e nela nada depositaremos, ele joga no interior de um Fim de Mundo Futebol Clube. Deixou escola e mal sabe se mover na selva humana. Perdeu. É perdedor. A enorme maioria.

E pensar que vi os dois agora há pouco atravessando a avenida…

Imagem: Prefeitura de Olinda

Segunda-feira, 2 de junho de 2014
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