A indústria do medo
Segunda-feira, 9 de junho de 2014

A indústria do medo

Por Roberto Tardelli.

O medo, o nosso medo de cada dia, enriquece cada vez mais um grupo de vampiros capitalizados que ganham fortunas com ele, criando e alimentando quimeras que o tornam cada vez mais aterrador. Que ao sonho, acrescem uma pitada de pesadelo que fazem do sonho algo mais caro e mais difícil.

Um carro zero não é mais o sonho da classe média emergente, mas o carro zero, blindado, que se disponibilizam para todos os gostos, gastos, motores. Soube, ignorância a minha!, que há blindagem oferecida para carros conversíveis, com substituição do material da capota retrátil. O sonho é poder andar andar pela metrópole com um desses, à prova de uma guerra civil e, quem sabe, atropelar um assaltante descuidado.

Nossas casas estão todas ligadas a um sistema de alarme e de inteligência que aciona uma central, ao primeiro negro que passar pela calçada e resolver parar defronte ao nosso portão. A central aciona uma milícia paramilitar que em segundos desferirá salvas de tiros libertadores no negro que se atreveu a passear pelo bairro branco, residencial.

Sim, Todo bairro onde moram pessoas é residencial. Exceção feita a locais demarcados da cidade, como nos bairros estritamente comerciais ou fabris, em todos os demais residem pessoas, aos milhões. Todavia, pelo nome residencial atendem apenas os bairros de casas elegantes, assinadas por arquitetos, que são ligadas a centrais de informação e que abrigam em suas vastas garagens, carros blindados e que são guarnecidas por câmeras externas, que nos servem para dar a ilusão de tudo está às nossas vistas.

Até o cãozinho, aquele amiguinho de nossas crianças, travesso e manso, nossos caezinhos que fizeram parte de nossa infância e nos ajudaram a aprender um pouco ou bastante de ternura, foram substituídos por animais assustadores, fortíssimos, com mordedura capaz de torcer um cardã de uma Kombi, adestrados por policiais que os tem nos canis da guarnição. A um chamado, trucidam o invasor. Não precisamos nos aproximar dos portões filmados das casas-castelos para saber que são ferozes os cães que ali habitam.

O arquiteto que projetou um bunker, o engenheiro que o calculou, os vendedores de carros blindados e os que vendem o aço e o vidro intransponível a tiros de obuses, os criadores de feras domésticas, os adestradores, o vigilantes, os proprietários das centrais de segurança pamilitar, esfregam as mãos quando um crime violento ocorre, ainda que em uma cidade de mais de dez milhões de habitantes. O segredo do negócio é convencer que o próximo poderá ser qualquer nós.

O pavor de alguma coisa nos acontecer está mudando a cara da cidade. Não existem mais bairros como aqueles em que crescemos, onde as pessoas se conheciam, pelo que tinham de bom e de ruim. Eu criança, no Beco das Cabras, lá em Ribeirão Preto, corria de medo, com outros meninos tão meninos quanto eu, da Maria Caxuxa, uma velha louca que exibia sua vagina para a molecada. Tínhamos que passar em silêncio, enquanto ela dormia, que sempre um de nós quebrava, porque correr da Maria Caxuxa era muito divertido. Hoje, moramos em condomínios isolados da cidade. Não conhecemos sequer nosso vizinho de frente e nos encontramos apenas nas chatíssimas reuniões convocadas pelo síndico.

Não existem mais os namorados que se conheceram no busão ou no trem ou no metrô. Cada um com sua solidão, conhecer pessoas, além de mais difícil, tornou-se mais arriscado. Dez entre dez autoridades recomendam cautela, que jamais entreguemos o número do celular para um(a) estranho(a). Nunca se sabe. Estamos restritos ao ambiente de trabalho ou ao ambiente escolar. Crimes bizarros de zeladores esquartejados têm a função capitalista de isolar ainda mais as pessoas, que precisam adquirir bens de consumo para a travessia de tanta solidão.

Um  mundo de gente ganha dinheiro com a violência. Pior, com a sensação de insegurança que a violência urbana de uma sociedade em processo de transformação caótica traz. Antes, éramos mais conformistas, os pretos sabiam seu lugar e as crianças obedeciam sem questionar. O que era de alguns, a maioria não ousava tocar. As mulheres cuidavam da casa e os governos mandavam e desmandavam. As coisas se desorganizaram e nesse caos que nos fez avançar muito historicamente, talvez a violência que vivemos seja um sinal estranho e também maluco de uma cidadania que se vê despertar.

Todos queremos mais. Não, por favor, não é suportável viver na favela ou, mais modernamente, na comunidade. Ninguém pode ter tanta terra que é como se tivesse um país passado em cartório. Todos querem o Nike Air. Nesse confronto do país do passado com o país do futuro, não pode surpreender que existam níveis de violência cada vez maiores, porque não será o confronto que nos apaziguará, mas o compartilhamento.

Os que vivem desse confronto não se deram conta. Eles não conseguem entender porque é algo que talvez escape à compreensão de muitos. A paz somente virá quando compartilharem-se a sombra, a terra, o mel, as ruas, a água limpa, a escola promissora, a saúde dignificante. A Indústria do Medo nos quer cada vez mais apavorados. Jamais dirão o óbvio que salta nas ruas: um país está se reinventando, um país chamado Brasil.

Que, querendo ou não, ainda se encontrará consigo mesmo.

Imagem: CWCS
Segunda-feira, 9 de junho de 2014
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