A economia circular e os desafios do desenvolvimento
Quinta-feira, 10 de julho de 2014

A economia circular e os desafios do desenvolvimento

Por Maristela Basso.

A necessidade de rever nossos modelos de produção e consumo, e não apenas de “consertar” o modelo atual, é uma preocupação amplamente difundida hoje. O fim da era de combustíveis fósseis e matérias-primas essenciais de baixo custo, associado ao crescimento populacional e às inquietações relativas aos recursos hídricos, à produção de alimentos e aos rejeitos nocivos são temas da agenda sobre os caminhos da nova economia e o desenvolvimento global. Portanto, a revisão dos arquétipos atuais de crescimento, levando em conta as novas alternativas, proporcionará, sem dúvida, melhor qualidade de vida e mais oportunidades, pois tem o potencial de restaurar o capital natural e social.

Dai por que, dentre os vários temas importantes tratados em Davos, destacam-se os relacionados à economia circular, como alternativa ao esgotamento dos recursos naturais, ao aumento do número de pessoas na classe média, ao excesso de consumo, e à pobreza.

Desde a revolução industrial o modelo econômico mundial é o de produção linear, baseado em “extrair – fabricar – utilizar – descartar” (e, às vezes, reciclar ou incinerar).   Jogar “fora” é jogar “dentro”. Somos a única espécie do planeta que gera lixo: inútil e tóxico. A economia circular, baseada no conceito do “Cradle to Cradle”, defende a inovação para criar um sistema produtivo circular “do berço ao berço”, onde não existe o conceito de lixo, tudo é nutriente para um novo ciclo e os resíduos são, de fato, recursos que circulam em ciclos contínuos.

No caso dos eletrodomésticos, a economia circular pode ser utilizada em toda cadeia produtiva. Um mesmo produto tem o potencial de (e pode) ser comercializado inúmeras vezes, multiplicando a geração de receitas. A nova lógica fundamenta-se na oferta dos “serviços do produto”, isto é, comercializa-se a “performance” (o resultado) do uso do produto e não simplesmente a sua posse ou propriedade. Para isso, são necessárias estratégias mais agressivas para inovar a relação cliente/fabricante: explorar novos modelos comerciais focados no serviço/resultado do produto para o cliente, transformar técnicos de manutenção em “consultores de venda”, celebrar parcerias com grandes cadeias varejistas, aumentar o relacionamento com clientes, planejar a manutenção para redistribuição em múltiplos ciclos de uso e perpetuar a experiência positiva com diversas camadas de consumidores.

Os desafios à remanufaturação (ou remanufaturamento) estão, por conseguinte, no redesenho dos produtos com enfoque na sua “performance” e não na posse e propriedade do bem, e nas linhas de produção dedicadas a atualizações em “performance” tecnológica e estética. Na verdade, o consumidor não “consome”, no sentido de exaurir, apenas utiliza o produto (bem) enquanto este realiza o serviço (ou a função) esperado. Isto porque, de fato, não se vende o bem – uma máquina de lavar, mas sim a função da lavagem de roupas. Para tanto, uma nova indústria “Cradle to Cradle” deverá criar ecosistemas industriais e centrais de “reserva de materiais”, fundamentalmente redesenhando os produtos para desmontagem e promovendo a diversificação de tipos de contratos de vendas. As lavadoras passam a ser comercializadas por “contrato de uso”, ao invés de simplesmente vendidas, tornando-se, portanto, acessíveis a um público maior e geram três vezes mais receitas por produto fabricado.

Em Davos/2014 partiu-se da premissa de que já estão superadas as discussões em torno da necessidade de modelos sustentáveis de crescimento. Todos os países, ricos e pobres, já sabem o que devem fazer e como. A tarefa agora é avançar em direção a alternativas concretas, velozes e boas para todos. Uma delas é o modelo econômico circular de inovação industrial que substitui o conceito de “fim-de-vida” de um bem ou produto pela sua restauração e reutilização. No modelo circular destaca-se o uso da energia renovável, assim como se elimina o uso de produtos químicos tóxicos que prejudicam a reutilização dos bens, produtos e serviços.

O relatório produzido em Davos este ano, intitulado “Towards the Circular Economy”, calcula US$ 380 bi em negócios não explorados apenas na Europa. Outro elaborado pela Fundação Ellen McArthur e  McKinsey & Company, aponta casos e análises financeiras das oportunidades no sistema batizado de “Economia Circular”: um modelo capaz de desacoplar o crescimento econômico da geração de resíduos. Este estudo destaca quatro fontes de criação de valor para modelos de negócios onde as iniciativas de “fechar o ciclo” dos produtos podem ser muito rentáveis: manutenção, redistribuição, remanufatura e reciclagem.

Economias emergentes na Ásia, América Latina, África e Oriente Médio removerão três bilhões de pessoas da pobreza nas próximas décadas, o que permite criar uma demanda cada vez mais crescente de bens de consumo por parte das novas classes médias. Contudo, o planeta não é capaz de sustentar esse aumento repentino na atividade econômica e o uso de recursos que serão gerados, a menos que um novo modelo de empresa ambientalmente mais positivo seja criado, onde os materiais sejam gerenciados de forma (mais) responsável. É neste cenário que a economia circular ocupa lugar de destaque introduzindo um sistema restaurativo ou regenerativo de bens e serviços na sua forma e no seu conteúdo.

Na China, a TCL, uma das maiores empresas de aparelhos eletrônicos, acaba de iniciar um projeto piloto que envolve investimentos recordes para reciclagem de eletrodomésticos no país, com uma taxa média de recomercialização de 85-90% ou superior. Segundo a TCL, ela é a primeira empresa chinesa a criar uma economia circular para a cadeia produtiva de eletrodomésticos.

Bom para os emergentes, mas melhor ainda para os ricos. As empresas da União Europeia, segundo estimativas apresentadas em Davos/2014, podem obter uma economia anual de US $630 bilhões ou € 464 bilhões (quase 4% do PIB anual da UE), se adotarem a economia circular.

Ademais, pesquisas econômicas realizadas em 2013 sobre o impacto dos modelos circulares na indústria de bens de consumo, em vários países do mundo, constataram que há um custo de oportunidade econômica global de US $700 / €516 bilhões apenas nesse setor.

Sustentabilidade significa minimizar o impacto negativo ecológico, neutralizar emissões, ser eficiente, ou seja, fazer as mesmas coisas com menos intensidade. A indústria, como se vê, pode fazer o mesmo que a natureza: produzir mais e melhor e crescer de forma não predatória. Sob esta ótica, o modelo “Cradle to Cradle” propõe uma estrutura de inovação de produtos e processos produtivos inspirada na noção de cadeia global de suprimentos, e traz benefícios tanto operacionais quanto estratégicos, em ambos os níveis, micro e macroeconômico, incalculáveis oportunidades de inovação, criação de empregos e crescimento econômico. Agora, para avançar, é preciso que as indústrias deem os próximos passos. Exemplos não faltam para o Brasil.

 

Maristela Basso. Advogada. Professora de Direito Internacional da USP (Faculdade de Direito)

Quinta-feira, 10 de julho de 2014
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