Exercitando a Linguagem e Expandindo seu Mundo
Quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Exercitando a Linguagem e Expandindo seu Mundo

Por João Marcos Buch

As palavras não são ilimitadas. Em determinado ponto, elas se esgotam e, então, quanto menos se disser, melhor. A frase é de Ludwig Wittgenstein, talvez o mais importante filósofo do século XX, cuja vida foi romanceada pelo escritor Bruce Duffy na obra “A Guerra de Wittgenstein” (Ediouro). Quando não consigo me fazer compreender esta frase sempre me ocorre, muito embora nem sempre a aplique.

Dia desses, assistindo a um show da banda O Rappa, que admiro por seu ritmo e por suas letras, postei a seguinte mensagem no facebook:

“Festival de Verão no Multishow. As vezes eu falo com a vida, as vezes é ela quem diz, qual a paz que eu não quero conquistar pra tentar ser feliz. Será que o Rappa faria um show para arrecadar fundos para restaurar o Presidio Regional de Joinville, para conferir ambiente digno para as visitas ou para satisfazer as condições mínimas de higiene e saneamento no cárcere? A continuar como está, a paz supostamente conquistada não nos trará felicidade alguma, para nenhum de nós.”

A maioria de meus amigos virtuais “curtiu” a mensagem e a apoiou. Porém, alguns passaram a comentar e apontar o discurso de que a prisão precisa ser ruim para que as pessoas não queiram para lá ir (função preventiva da pena), ou que é preciso amparar a vítima e não quem cometeu crimes (sempre afirmei que a vítima precisa ser amparada).

Insistindo na minha argumentação, postei nova mensagem, agora mais extensa:

“A propósito de minha última postagem e discussão sobre a situação carcerária brasileira: Não se educa pelo chicote. Stalin, Hitler e Mussoline talvez tenham sido os mais disciplinadores líderes do mundo contemporâneo, e deu no que deu. Todos queremos um mundo pacífico e feliz. A questão é que não podemos ser maniqueístas, dividindo o bem e o mal como se divide uma laranja ao meio. O ser humano é complexo, assim como suas ações. Porém, o fato é que ele não perde sua condição humana, nunca. Além disso, é uma questão lógica de ação e reação. Se queremos ser tratados com respeito, precisamos respeitar os outros. A lei é sim aplicada para encarcerar, não fosse isso o Brasil não teria alcançado mais de meio milhão de presos na última década. A questão é aplicar a lei e respeitar o que ela prevê em direito à saúde, educação etc também dentro da prisão, impedindo que o crime organizado entre pelas veias do sistema. Eu não desejo ser vítima de crimes. Por isso tenho absoluta convicção, e a criminologia moderna assim explica há décadas, se quero viver em paz e feliz preciso olhar com ética para o que está acontecendo dentro dos presídios brasileiros.”

Não adiantou. Ressalvados aqueles que me conhecem pessoalmente ou conhecem minhas posturas, não fui compreendido. Então me perguntei se o problema era eu que não estava conseguindo me comunicar ou os outros que não queriam entender, ou ambos. Conclui, a responsabilidade é de ambos. Não se trata de convencer ou ser convencido, de provar que um está certo e o outro errado, de conquistar adeptos a suas idéias e afastar outras. Trata-se de ouvir, enxergar, captar corretamente o significado das coisas. E nesse ponto não é suficiente a condição lógica da linguagem a representar o mundo, como ensinou o filósofo. É fundamental que os interlocutores, antes de fazerem seu juízo de valor, numa atitude ética olhem e se coloquem no lugar do outro, falando e ouvindo com sinceridade. Em redes sociais isso é difícil, mas não impossível. Com isso todos saem satisfeitos, pois conseguem se fazer compreender e ser compreendidos, aperfeiçoando sua própria comunicação e expandindo seu mundo. Afinal, como disse Wittgenstein, as fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo.

João Marcos Buch é Juiz de Direito da Vara de Execução Penal da Comarca de Joinville/SC

Quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend