No meio do caminho tinha um livro
Quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

No meio do caminho tinha um livro

João Marcos Buch.

 

Audiência onde o réu, jovem de 20 anos, é julgado por roubo de celular, contra dois adolescentes que iam embora após o colégio. O réu confessa, diz estar arrependido e quer fazer tratamento para dependência de crack, pois quando dos assaltos tinha usado todo o dinheiro de seu serviço de servente com droga. Terminada a audiência, termos assinados…

– Posso ficar com uma cópia deste termo? – Pergunta o réu.

– Mas por quê? – questiona o juiz – É apenas um termo de deliberação – O juiz prepara-se para voltar ao gabinete.

– É porque já li tudo que minha família me mandou lá na cadeia e pelo menos é algo mais para eu ler – A linguagem do preso era em perfeito português. O juiz faz meia-volta, resolve ir adiante na conversa.

– Qual o último livro que você leu?

– Comédias da Vida Privada, do Luis Fernando Veríssimo – Responde o réu de pronto.

– Gostou? – Insiste o juiz.

– Muito, é muito engraçado – Realmente o réu era leitor, um bom leitor, concluiu o juiz.

– Espere um pouco, vou ver se tenho algum livro para te emprestar.

No gabinete, vasculha as prateleiras, acha o Xangô de Backerstreet, do Jô Soares, lido tempos atrás e perdido entre seus livros jurídicos. Volta à sala de audiências.

– Serve este?

– Pôxa doutor, do Jô Soares. Claro que sim. Muito obrigado. Não vejo a hora de chegar no presídio para começar a ler.

O caso acima, verídico, serve para ilustrar a importância de, ao lado do trabalho, possibilitar-se a leitura de obras literárias a pessoas que estão presas. Qualquer um ao ler um livro reflete, identifica-se ou não com o tema e personagens, questiona, pensa. Pela leitura a pessoa desenvolve a empatia e consequentemente compreende melhor a sua própria vida. E se isso contribui para a educação, então é claro que o hábito da leitura é mais uma forma de resgate ético, de contribuição para a harmônica integração social do detento no dia em que retornar a liberdade.

O jovem preso tinha consciência de que havia prejudicado outros adolescentes, sabia que teria que pagar por isso e compreendia como tinha chegado até aquele ponto na vida, apontando inclusive um caminho para tentar sair da vida marginal. Essa compreensão ele conseguiu com a leitura, estou certo.

Por isso, desde o ano de 2013, os detentos do complexo prisional de Joinville passaram a ter a possibilidade de ler, num prazo de 20 dias, uma obra da literatura clássica, com mais 10 dias para apresentar um resumo do livro. Assim podem abater 4 dias de pena. É o que consta da Portaria n.8/2013 da Vara de Execuções Penais da Comarca de Joinville.

– Tenha uma boa leitura rapaz – disse o juiz, despedindo-se do réu.

– Terei sim. Depois de ler vou passar para a frente. Posso?

– Um livro é para ser lido. Mande adiante.

E lá foi o réu, de volta para o Presídio, escoltado, livre.

 

João Marcos Buch é Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville

Quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
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