O que fazer com o nosso ódio?
Segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O que fazer com o nosso ódio?

Por Roberto Tardelli

 

O que fazer com o ódio? Nesse mundo globalizado, os atentados – ainda que a milhares de milhas daqui – doem como se houvessem ocorrido em nossa vizinhança. Nas horas que se seguiram às imagens do policial executado no Centro de Paris, a dor se espalhou a todos. Era dor, era o desespero pelos cartunistas barbaramente mortos. Uma cidade mítica como Paris, um lugar de sonhos, transformou-se num pesadelo em tempo real. A dor nos fez solidários. A dor nos aproximou.

Todavia, a dor transformou-se em ódio e uma caçada humana com oitenta mil policiais, para prender três jovens fanatizados que cometeram uma estupidez dessas para entrar na História. Já não era mais a solidariedade aos cartunistas mortos e ao policial morto ou aos valores humanos agredidos, a liberdade de expressão, mas era a necessidade de se demonstrar uma força superior e mais destrutiva. Os três suspeitos do atentado são cães em fuga. Serão mortos pelo bem da vida.

Odiar é mais fácil que compreender, é mais direto e unívoco, personaliza nossas dores e facilita a cura de nossos males. É uma forma de dar às pessoas perplexas e atônitas a resposta do Estado, no que mais imediato pode cumprir.

Eu me lembro de um policial, preso faz muitos anos, com uma pena centenária a cumprir. Num dia de julgamento, ele pede para falar comigo. Não conseguirei reproduzir a exatidão das palavras que disse, mas o teor, garanto, é bastante fiel.

“Vou confessar o crime. O lugar era aquele mesmo que a gente corria, o estilo, o jeito do corpo, tudo isso é bastante familiar. Mas, de fato, não me lembro. Não me lembro de ter matado esse um. Eu matava muito. No começo, era só matar. Era matar, parar numa padaria, tomar uma e voltar pra casa. Foi ficando chato. Um dos nossos teve a idéia: a gente ia soltar o cara e caçar que nem bicho. Tirava ele do carro e mandava correr. Contava até dez e saía atrás, a emoção aumentou. A gente ficava com muito mais raiva e quando achava o cabra, cobria de tiro. O ódio não limite, Tardelli. A caçada acabou quando seu mentor faleceu, enfarte. Perdeu a graça sem ele. Depois de muito tempo preso, só depois, é que refleti. Antes, a gente não pensava, agia mais pela raiva dos caras do que pela grana. Pagavam para a gente matar, mas se não pagassem, a gente ia matar do mesmo jeito. ”

Os cabelos estavam grisalhos. Ele contou como se aquilo não fosse exatamente uma monstruosidade, não. Era apenas isso, uma caçada. O homem virava bicho e como bicho era perseguido.

Talvez fossem criminosos, talvez não. Certamente, não seriam julgados porque – demorei para entender – julgá-los os humanizaria e não era exatamente a humanização o nó da coisa. Era a caçada e troféu. O prêmio e a cabeça. A caça e o caçador.

Vejo esses suspeitos do atentado e me lembrei do policial. Os que vão à caça, vão pelo bicho que deverão matar, não pelos valores civilizatórios que o grupo poderia ter agredido, caso fossem eles os culpados de fato pela barbárie parisiense. A caça iguala todos, todos viram bicho, uns com sede de sangue, outros lutando desesperadamente para manter-se vivos. Na caça, é difícil trazer o dado humanístico.

Se nossos antepassados caçavam para matar a fome, encher o bucho, nós caçamos também para saciar nossa fome de ódio. Tê-los mortos, aos pés de todos, estendidos, nos saciará, ao menos momentaneamente, até que novas trombetas soem e anunciem que outros bichos precisarão ser mortos. Afinal, destruiu-se o Afeganistão, mas capturamos e matamos o Dragão da Maldade.

Uma nota, tímida e de fim de página, informa que morreram mais de quatro mil pessoas, vítimas do Ebola na África, segundo dados da OMS, onde os hospitais têm chão batido. Para a manchete, a enfermeira e o médicos americanos, brancos. A dois suspeitos da doença, o atendimento mais moderno disponível existente no planeta; aos quatro mil mortos negros, o hospital de chão batido.

O exemplo de que me socorro é a medida de nosso ódio. O que fazer com ele? Deixamos que morram os negros no continente negro; socorremos, nos níveis de ficção científica o risco branco de propagação da doença. Nesse ódio racial, barcos à deriva são deixados no Mar Mediterrâneo ou hordas de haitianos desesperadamente famintos atravessam uma Floresta Amazônica e vão parar em uma terra estranha, que confundiram com uma terra de pessoas receptivas e hospitaleiras. O ódio tangeu a boiada humana famélica. Tiraram-nos da terra e os jogaram no mapa mundi, perdidos.

Nesse ódio do vencedor sobre os vencidos, a notícia é sempre de canto de página, quando é notícia. Quando o ódio é do vencido sobre o vencedor, ele gera mais ódio, ele faz explodir um vulcão de ódios. Leis se recrudescem, lotam-se cadeias, as polícias ficam alertas. Nós não conseguimos nos livrar do ódio, a nós tão inerente quanto o amor.

As mortes em confrontos com a polícia, na loucalópole de São Paulo e de todas as outras, se dão nos guetos; noticia-se e aceita-se que tudo se deu em uma reação de heróis contra bandidos, os inquéritos são arquivados, os policiais são condecorados. Quando algo escapa e a morte se dá no bairro branco, o mundo cai e especialistas de toda parte vêm com suas explicações apocalípticas. Morreram na periferias de São Paulo mais de 1000 pessoas no ano passado. Não renderam mil manchetes, nem 1% disso. A guerra genocida do ódio nos impõe a fantasia de destruir o inimigo, seja ele real, seja ele imaginário (o mais terrível).

A caça na França foi acompanhada em tempo real. Daqui a algumas horas, os corpos serão apresentados ao mundo. Nosso ódio fast food parecerá saciado. Não vencido, apenas saciado.

O ódio – esse um que nos guia – é insaciável.

Roberto Tardelli é Advogado na banca Tardelli, Giacon e Conway e Procurador de Justiça aposentado. É Conselheiro Editorial do Justificando.

Segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
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