Faculdade: Vida boa, vida breve!
Quinta-feira, 5 de março de 2015

Faculdade: Vida boa, vida breve!

Por Catarina Moraes Pellegrino

// Na coluna Lifestyle

 

Tudo começa com um click na tela de nosso computador, depois a busca implacável pelo seu nome na lista, aprovado, agora fazemos parte da vida universitária. Este é o marco do início de nossa puberdade intelectual, aquele momento em que nossa arrogância deixa nossa certeza de termos a resposta para todos os problemas do mundo cada vez mais pueril e demente. Nesse momento aderimos aos rituais, previsíveis que somos, para passar por aquilo que entendemos ser a obrigação do calouro. É como se fosse um dever. Para que possamos penetrar nas entranhas da ciência jurídica, passamos por esse ritual, o trote.

O trote é uma espécie de semana de arte moderna onde os quadros são os calouros (apelidados carinhosamente de bixos), e a exposição é a céu aberto nos entornos da faculdade. Isso gera um contexto mais intimista, onde todos que transitam pelas ruas podem ter acesso a pinturas que vão do renascentismo ao pós-moderno; isso se dá por uma tal de hierarquia que um alguém que não sabemos inventou e outro alguém aceitou.

Com o passar do tempo, você notará que esse ritual de nossos antepassados forenses não avalia nenhum rasgo de sua capacidade cognitiva. Paulo Freire diria que essa é a pratica mais antiga do exercício “oprimido e opressor, um permite o outro”. Prefiro retratar esse evento com um termo mais clássico, o pão e circo contemporâneo – todo mundo critica as práticas não ortodoxas dos poderosos, mas se submete ao circo pelo pão, que será o ponto focal na mudança de nossas vidas! Não é o ritual de passagem ou as atividades circenses que você se submeteu, a mutabilidade do seu ser inicia em seu primeiro encontro com ele na forma mais perfeita, a feminina, como ELA.

Ah, Ela!  A Faculdade e ela. Você e ela. Pode falar. Você sempre a quis, e agora ela está lá! Agora você pode ter ela sem se sentir recriminado. Esse é o início de uma longa relação. Ela estará ao seu lado desde o começo, ela te ajudará a fazer amigos, presenteará você com seu primeiro beijo acadêmico, sua primeira noite de amor universitário, dará o direito de ter amnésia seletiva, vai roubar o resto de dignidade que lhe resta, mas será a protagonista das melhores lembranças da sua vida e  ficará com você no momento nostálgico do fim  brindando o encerramento desse ciclo precioso em vossa vida.

Serão fiéis um ao outro, irá encontrá-la religiosamente toda semana e a amará incondicionalmente. Ao soar o horário da última aula, você estará exausto e ela estará na porta da sua faculdade te esperando; nunca saberemos se ela estava te esperando de fato, a questão que paira sobre nossas cabeças é que no fundo do nosso âmago, você que a esperava em sua forma mais gélida.

Pode entrar e sair ano, ela permanece nas instituições de ensino superior. A cada dez estudantes, nove, embora só a boêmios amem abertamente, já se deitaram uma noite com ela, abraçado em suas aspirações, sua fúria com a nota de civil, aquela aula indigna, o professor em abstinência de sua vida sexual, sua vida sexual, aquela dp que ficou ou aquela dp que quase ficou; não importa o quão alegre ou frustrado você esteja no momento, ela é sua parceira para todas as horas.

Todos os gêneros são bem vindos. Com ela não há espaço para preconceito: ela pinta todas as cores e degusta todos os sabores; poderosa, madura, determinada, uma dama desprendida, pode falar o que quiser, mas dobre a língua meus amigos, ela é mais do que forte, ela é uma mulher. Todo esse suspense embebido de retórica e juridiquês barato é uma forma de construí-la metaforicamente, dando-lhe o pseudônimo de majestade da justiça. A mais querida entre todas as “rainhas”, podemos contestá-la, ela sempre vencerá, afinal somos acadêmicos e não a nada que possamos fazer, vossa alteza nunca aceita recursos.

Ela entra em sua vida sem passar pelo crivo do seu juízo de admissibilidade, ela joga com você, joga nos jogos, joga Jurídicos, joga você pra fora da aula, joga e se joga para todos os lados. Tão magnifica que você não pode fugir, pode consumir pouco, pode consumir muito, pode não consumir; ela está nas ruas observando tudo, jogando o jogo e não tem como se esconder.

Você é o bufão dessa rainha impiedosa, só que sem o direito de dizer as verdades a nossa majestade, ela só quer que você olhe, olhe pra si, e veja a grande vitrine de oportunidades. Seja honesto, analise o tempo, reflita as cobranças, você vai passar cinco anos correndo contra um tempo pré-estipulado por alguém que tem pressa, pressa de ser, quando você menos perceber a vida vai ter passado como um trailer de saudades, deixando um pensamento latente “e se”, ao mesmo tempo que corre no letreiro o nome do protagonista desse filme chamado – vida universitária –  e ele pode ser você.

A vida acadêmica tem dessas coisas, entramos na faculdade e nos imaginamos togados, em exercício da profissão; Agora temos a responsabilidade de fazer direito o direito, temos vidas em nossas mãos, as provas serão mais profundas e a disciplina de estudo cabe única e exclusivamente a si. A cobrança é como um relógio martelando em sua cabeça, só que ao invés de “tic tac” as baladas são ao som de oab-oab-oab regida pelo maestro TCC. 

Temos que correr, o mercado parece mais um maratonista, a linha de chegada é o leilão dos títulos com troféu de doutorado, as baladas agora são cantadas pelos “qualificados”. A vida após os 17 anos é baseada no princípio da celeridade processual. Você mal removeu a tatuagem de rena que fez em porto, você nem entrou e já tem que passar na OAB, você mal pegou sua OAB e já tem que se qualificar para o mercado e sejamos francos só graduação não adianta mais, disse o eco da velhaguarda.

O relógio gira rápido e nós tentamos acompanhá-lo. A vida na faculdade é cheia de barreiras que vamos rompendo com o tempo, entramos no curso de direito para sermos futuros juristas e acabamos nos formando como seres humanos. Nessa caminhada seria hipocrisia dizer que só o conteúdo programático do mestre tem eficácia, o ambiente universitário está além das paredes de nossas salas de aula. Ele é uma composição de detalhes que fazem esse tempo ser inesquecível, as festas intermináveis, as noites infindas no bar naquele dia que você pegou aquele trânsito para chegar e nem sequer passou do portão da faculdade. As risadas, as aulas de boteco, o dia que você não estava na sala, mas entregou o trabalho.

Os jogos, os debates, os flertes, as noites que já não davam mais para estudar, a faculdade também é isso! E ela? Ela está em todos os momentos, está com você sempre que precisar. Chega uma hora que a intimidade entre vocês é tão grande que não existe mais uma relação contratual de compra e venda, ela é mais que o otimismo em um copo ou o relaxante engarrafado no fim do dia, ela é um estilo de vida e ela faz parte de pelo menos um capítulo desse livro saudoso chamado vida universitária.

Um brinde aos cinco anos mais inesquecíveis de nossas vidas, e por favor, traga um copo bem servido de momentos geladinho.

Catarina Moraes Pellegrino é redatora do portal Justificando.

Quinta-feira, 5 de março de 2015
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