Inclusive,
Quarta-feira, 11 de março de 2015

Inclusive,

Por Daniela Rosendo e Tamara Amoroso Gonçalves

// Na Coluna Inclusive,

 

Inclusive porque eu concordo com você.

Inclusive porque eu discordo de você.

Inclusive, porque…

Quantos debates importantes restam soterrados pela grande mídia, pela incompreensão e pela não-escuta? Porque é tão difícil ouvir aquilo que difere do que eu acredito ou acho correto?

Em tempos de guerras digitais, rasos argumentos espalham-se rapidamente pelas redes sociais e reforçam convicções e preconceitos. Nos não-diálogos cibernéticos sobra pouco espaço de escuta e de conversa. Falta olhar além do que parece, das imagens montadas, vídeos esdrúxulos e comentários raivosos. Falta aprofundamento, falta interesse no outro e na outra.

Quantas dessas vozes não são ouvidas? Ao mesmo tempo, a internet tem um potencial transformador, de fazer circular novos argumentos e empoderamentos, de dar voz novamente a muitas que foram caladas. Afinal, precisamos falar e o espaço virtual pode ser extremamente democrático. Pode. Mas não necessariamente o é. Ao mesmo tempo que é um espaço de inclusão e que permite que as vozes dissidentes sejam expressadas, nem sempre elas são bem recebidas.

Tradicionalmente, o lugar de fala dos homens está muito bem assegurado, enquanto as vozes das mulheres continuam sendo silenciadas. E quando as mulheres alcançam seu empoderamento, são reiteradamente deslegitimadas desse espaço. A linguagem não é neutra e reflete todos os tipos de discriminação, seja em face de gênero, orientação sexual, idade, etnia, classe, espécie e assim por diante.

Estreamos na semana do dia 8 de março, um dia que marca uma luta histórica pelo reconhecimento dos direitos da mulher, mas que foi apropriado por discursos essencialistas e associados à “feminilidade” (ou fragilidade?) da mulher, tentando elevá-la ao alto patamar de homenageada do dia, enquanto em todos os dias de suas vidas, inclusive nesse, tantas mulheres são discriminadas e violentadas, física e psicologicamente, pelo simples fato de ter nascido mulher, algo pelo qual nenhuma delas têm mérito ou demérito. Apenas são, em um sistema que pré-determina o valor de quem nasce nesse ou naquele sexo. Com isso, entendemos que nenhuma mulher está fadada a ser uma eterna vítima do machismo que estrutura a sociedade, tampouco que os homens precisam se manter ad eternum no espaço de privilégio que ocupam nesse sistema. Importante lembrar que nesse jogo de poderes e privilégios, o saldo para boa parte das mulheres – mais de 50% da população – é invariavelmente composto por menos direitos e mais deveres.

Mas as vulnerabilidades são muitas e se manifestam de diversas formas, não raro conjugadas, tão imbricadas que se camuflam de essencialismos. Do dualismo cartesiano mente/corpo seguem tantas outras dicotomias: homem/mulher, branco/negro, ocidental/oriental, cultura/natureza etc. Nessas divisões, privilégio e opressão coexistem, pois ao mesmo tempo em que uma mulher branca pode ser discriminada pelo machismo, ela pode estar na condição de privilégio em relação a uma mulher negra. Compreender essas estruturas é fundamental para a superação da discriminação, seja no âmbito público ou privado. Inclusive, quer dar voz às injustiças e aos limites morais da nossa sociedade, que se refletem simultaneamente nesses espaços.       

Tamara Amoroso Gonçalves é advogada graduada pela PUC/SP e mestra em Direitos Humanos pela USP. Membro do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre aborto (GEA). É também integrante do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil e pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir, Concordia University, Canadá.

Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. É integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).

Quarta-feira, 11 de março de 2015
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